domingo, 29 de abril de 2018

Na Estrada Atlântica

Da Praia do Norte na Nazaré até à Praia do Osso da Baleia, pela Estrada Atlântica, são quase oitenta quilómetros que se percorrem junto ao mar. Grande parte da estrada é bordejada por ciclovias que integram uma das maiores redes de Portugal, atravessando os concelhos da Marinha Grande, Alcobaça, Pombal e Nazaré. As praias sucedem-se uma após outra. Falca, Légua, Vale Furado, Paredes da Vitória, Polvoeira, Águas de Madeiro, Praia do Ouro, S. Pedro de Moel, Vieira de Leiria, Pedrogão e tantas outras menos conhecidas, mas não menos surpreendentes. Um paraíso natural onde o pinhal abraçava as praias estendendo-se até ao mar.

Depois do grande incêndio de 15 de Outubro que consumiu a quase totalidade do Pinhal de Leiria, a Estrada Atlântica é agora um lugar que se atravessa entre pinheiros queimados e grandes aglomerados de madeira cortada e empilhada junto ao alcatrão. O canto dos pássaros e o murmúrio do vento de outrora foi substituído pelo matraquear incessante das motosserras e pela azáfama dos camiões transportando a madeira queimada. O verde agora é pouco. Entre a Praia do Ouro e S. Pedro de Moel uma zona de vegetação mais rasteira escapou e em volta da Praia do Osso da Baleia também ainda verdeja um pequeno espaço, mas quase nada restou do imenso manto verde mandado plantar pelos primeiros reis de Portugal.
  
Nalguns troços percebe-se que foi possível suster o fogo e impedi-lo de atravessar a estrada, noutros tudo em volta está queimado. Ardeu quase tudo. Na Légua o fogo chegou às casas, no Vale Furado entra-se na povoação passando entre pilhas de madeira queimada. Na Praia de Paredes o fogo desceu pela encosta até ao mar só poupando as casas e o parque de campismo. Se entrarmos para o interior, na direcção de Pataias ou da Burinhosa, o mesmo cenário. São quilómetros e quilómetros de terra queimada. Na Praia de Vieira de Leiria tudo se consumiu em chamas até junto à sua rotunda principal. A estrada que liga a praia a Vieira de Leiria é agora uma recta que se faz por entre altos pinheiros queimados que ainda ninguém cortou.


Mais para norte no sentido de Pedrogão o panorama não muda. Na Lagoa da Ervideira junto à mata do Urso, dos dois quilómetros de margem só foi poupada uma pequena faixa de pinheiros do lado do parque das merendas e do bar. O resto ardeu. Fica-se com a ideia, olhando as dunas a partir da estrada, que em muitos lugares o fogo só se extinguiu na areia da praia. Quando já não existia mais nada para arder.

Prosseguindo no sentido da Praia do Osso da Baleia, continua a mesma paisagem, de pinhal queimado. Ainda se podem ver placas de sinalização e informativas calcinadas na beira da estrada. Da rotunda da baleia até Alhais, repetem-se as pilhas de madeira queimada cortada e amontoada ao lado da estrada e os pinheiros calcinados à espera de serem abatidos. Só já próximo da praia aparece outra vez o verde. Do imponente Pinhal de Leiria ou do Rei, como lhe chamavam os naturais daqui, com origens na Idade Média quase nada ficou. Arderam cerca de nove mil hectares de floresta e estima-se que mais de sete milhões de árvores. Mas a natureza é generosa. A Primavera trouxe as primeiras flores a despontar entre as árvores queimadas, enormes fileiras de papoilas rubras, flores silvestres de muitos matizes adornam outra vez a estrada. Os ciclistas também já rolam pelas ciclovias e o mar, bravio de imensas ondas brancas a desfazerem-se no areal, esse esteve sempre lá.         

António Pereira

quinta-feira, 29 de março de 2018

O Velho e o Bar

"Só uma coisa é mais preciosa do que o teu tempo:
com quem o gastas." Leo Cristopher



Cabo Verde foi o lugar para onde viajei pela primeira vez fora dos confortos ocidentais da Europa e da América do Norte. Essa viagem foi com um grupo de jovens com quem fiz um périplo pelas várias ilhas deste arquipélago da Macaronésia. Era ainda miúdo.

E num salão da cidade do Mindelo o tempo lentamente tardava em parar. Eu era quase tão novo quanto os meus sonhos de criança e naqueles instantes o calor abatia-se-nos pelo suor da pele e pela humidade que escorria nas paredes do café.

À mesa falávamos de como era bom estar na ilha mas reparei que ao fundo da sala e de frente para mim, estava o único caucasiano que vira naqueles dias pela ilha de São Vicente. Era um homem já encurvado pela modorra do tempo e do clima, bem como pela idade e pela garrafa de gin que estava sempre ao alcance da sua mão. E ele estava embriagado.





















Ao vê-lo, só me lembrava de todas as imagens que desenhava na mente em miúdo enquanto estudava em casa e lia na escola o clássico "O Velho e o Mar" do Hemingway. A minha professora de português de então, a Maria Teresa Maia Gonzalez numa das suas entretidas e cativantes aulas, já nos ensinara que ele viveu em Cuba. E anos depois, este homem no bar foi o mais próximo que alguma vez encontrei dele. Como um sósia. E por instantes imaginava-o, tal como ao Ernest, mergulhado numa estufa de calor lentificador mas ao invés de Cuba, em Cabo Verde.

O tempo parava para ver, imaginar e viajar, mesmo já fora de portas. E muito provavelmente foi ali que me apaixonei por viajar, permitir-me sentar nos lugares e observá-los enquanto o tempo se dilatava.


João Aguiar

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Locais de Venda - Os Meus Descobrimentos



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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Os Meus Descobrimentos - de João Aguiar












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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Engenheiro da Aldeia

Estávamos no mato de Moçambique, algures entre as províncias de Gaza e Inhambane. Um jipe viajava em missão de reconhecimento e levantamento de necessidades energéticas das aldeias nesta região. Um dos ocupantes era o Osvaldo, funcionário da fundação estatal que atribuía energia a localidades remotas do país. O outro era eu, a conduzir a viatura, funcionário duma empresa portuguesa que instalava os sistemas de energia renovável nessas aldeias. A paisagem era de árvores e mato denso. E as estradas não eram bem estradas, porque apenas havia dois sulcos paralelos recortando a paisagem, de onde aflorava areia, a essência escamoteada daquelas terras. Ali ao lado, a cerca de cem quilómetros estava o Kruger Park, o mais famoso parque de vida selvagem, com uma natureza tão bela e virgem quanto perigosa e mortal. Por mais que estivesse relaxado e focado nesta missão entre mãos, imaginava a possibilidade de nos cruzarmos no jipe com animais como leões, uma manada de elefantes enfurecida, rinocerontes, ou cobras, e quantas havia lá naquele país. A viagem prosseguia incessante e cronometrada. Depois de passar as aldeias de Mabote e Machaíla, conduzia a caminho de Chigubo. Era uma missão com prazos apertados, e uma gestão constante do combustível, horários, quilometragem, recursos alimentares, etc.

Nessa estrada, a certo ponto, soltou-se um estrondo ribombante a partir da parte esquerda do jipe, uma Mahindra, de fabrico indiano, ao mesmo tempo que a direcção do jipe ginou para a esquerda. Valeram as linhas fundas que faziam a estrada, por onde as rodas deslizavam, que mantiveram o jipe no trajecto. Saindo cá para fora, vi que o jipe estava com a roda de trás em baixo. E isto por causa de um tronco tombado na estrada, mas que por não estar completamente chegado para fora, a ponta ainda foi suficiente para embater na jante e assim abrir uma valente fuga de ar, por deformação de um aro da roda. Com o apoio do Osvaldo, martelei aquilo com veemência, usando chaves metálicas pesadas que vinham com o jipe. E o aro da roda ficou mais redondo, apesar de não estar fechada a saída de ar. O suficiente para seguir viagem pelo menos.

A população mais próxima estaria a cerca de uma hora de caminho, pela savana. Seguimos em frente. Não havia indicações, sinais nem quaisquer marcas rodoviárias. E claro, se nem estrada havia sequer. Tudo o que havia eram duas linhas paralelas que se tocavam num ponto de fuga, preso no infinito, assim como toda a restante savana. Mas por outro lado, só havia uma direção a seguir, e era difícil perdermo-nos se a viatura seguisse essas marcas. Enfim, atravessámos a mata densa e plana até ao limite da vista, para de repente se ver o firmamento moçambicano celeste que tão belo combinava com o sol radiante e tórrido africano. Finalmente uma aldeia. Primeiro uma escola, depois um conjunto de cabanas, simples, espartanas, de lama e palha, um pouco mais à frente. Ali ao lado um pequeno largo central daquela aldeia. Parei o jipe na entrada da escola. Com uma arquitectura de escola do período colonial, igual àquela em que o meu pai estudou, e a tantas outras espalhadas por Portugal e pelo antigo mapa colonial lusitano. Perguntei a um professor se conhecia alguém que nos pudesse arranjar a roda do jipe. Apanhados de surpresa, ele e a sua classe, ao que me pareceu, do ciclo primário, ficaram a matutar por instantes, para depressa o professor indicar o nome do Senhor Valter, a viver ali a poucos metros da escola. A aldeia era pequena, e por isso, lá chegámos depressa. No caminho as pessoas curiosas, acenavam, sorriam, aproximavam-se. Mas na correria para cumprir os prazos todos, e acima de tudo voltar com o jipe inteiro a Maputo, não houve o tempo para socializar. No pior dos casos, contudo, voltaríamos à boleia ou de "machimbombo", os autocarros locais. Por isso, haveria sempre solução, e uma estava para chegar.



Da casa que procurava brotaram logo à vista: uma grande antena metálica, com cerca de vinte metros de altura; um espaço aberto à entrada da casa com uma cobertura, e com utensílios de trabalhar madeira em cima da mesa, onde se viam móveis em construção. Ali havia espaço, algo que naquele país aliás havia com fartura, pleno de terra, área e vastidão. E as crianças brincavam cirandando entre umas mesas que estavam em torno da grande antena, provavelmente para sinais de baixa frequência, e o ateliê. Envolvendo este cantinho da aldeia, ondas sonoras brotavam de um rádio em cima das mesas cobertas, de onde se ouvia uma voz informativa da rádio, ainda que com o som familiar mas também incómodo, da desintonia analógica do antigamente que rarefaz a emissão devido à imensa distância que separava a recepção da estação de rádio. Enquanto me distraía com a magia da rádio, uma senhora, parecendo a mãe dos miúdos, aproximou-se de mim, e daí a aparecer o Valter, foram segundos, tendo ela ido chamá-lo. Com um fato de macaco azul náutico, um lápis encurtado pelo uso, pendurado no tubérculo da orelha, e uma carapinha africana já um pouco crescida, de quem é despreocupado com o cabelo, chegou o senhor. De semblante empático, tranquilo e disponível, ouviu a situação, e de poucas palavras, foi buscar numa casa de madeira ali anexa, os utensílios que considerou necessários. Ao abrir a porta desta barraca, caíram coisas cá para fora, em cima de nós. Só um, o Valter lá podia entrar, pois tamanha era a acumulação de todo o tipo de engenhos e materiais, não saberia ele para que momentos dariam jeito, mas que sendo tantos jorraram pela porta. Neste manancial de parafernália acumulada, ele saiu de lá com um martelo e uma bomba de ar, e com o adaptador certo. Pois, como para quem enche uma bicicleta, ter a peça adaptadora errada, deixar-nos-ia sem poder desfrutar daquelas rodas.

Os miúdos da escola já estavam todos cá fora em torno do jipe, e quando tirámos a roda do jipe, ainda mais miúdos se acercaram. Com o ângulo certo para usar a bomba de ar, o seu êmbolo deslizava lento e compassado, comprimindo o ar, preso naqueles cilindros. Para encher melhor, há que o fazer com calma. E assim foi, durante uns quinze minutos, em que voltámos a insuflar o pneu daquela roda. Aquele engenheiro ad-hoc da aldeia, salvou o momento, por ter aquela bomba algures perdida, saber usá-la como ninguém e por se ter disposto a fazer tudo isto pela genuína hospitalidade. A viagem podia seguir, com a roda martelada e enchida. Não deixando de pensar que nas aldeias, nas pequenas comunidades e grupos, há espaço para uma pessoa se realizar a si mesma e contribuir para o grupo social, como sendo o engenheiro, o reparador de problemas, que guarda utensílios, faz móveis, capta os sinais de rádio oriundos de centenas ou milhares de quilómetros de distância. Há necessidade deste conhecimento, há reconhecimento pelo seu trabalho e as mulheres da aldeia apreciavam estas valências, reparava. O meu pai também é assim, um engenheiro auto-didacta, sem qualquer diploma, mas uma vasta experiência em mecânica e electrónica, aprendida pela necessidade, em estaleiros da guerra colonial. E algo disso terá passado para mim. Mas naquele dia faltou-me equipamento. Felizmente havia um engenheiro da aldeia com uma bomba de ar por perto. Porque, na minha opinião sempre há espaço para um, até onde menos esperamos.

João Aguiar

domingo, 22 de outubro de 2017

Melilha, a última fronteira da Europa

Viajar até Melilha saindo da Europa é uma viagem de Espanha a Espanha, no dizer promocional das agências de viagem. Uma travessia de barco de cerca de cinco horas partindo de Almeria e cruzando o Mediterrâneo até à costa de África. A cidade é um enclave em Marrocos e dista poucos quilómetros da fronteira com a Argélia. Vista do mar aparece demarcada por dois enormes molhes, que delimitam o seu porto e o de Beni Ansar na cidade vizinha de Nador, descendo em anfiteatro do sopé de uma colina até terminar num promontório onde assenta uma fortaleza imponente conhecida por cidadela ou «Mellila, La Vieja», o coração histórico da cidade.

Quem chega, saindo do porto e contornando a cidadela, depara-se com a imponente Praça de Espanha que não deixa esquecer que a cidade, não obstante ser autónoma, é um território do Estado Espanhol. Uma enorme bandeira de Espanha drapeja sobre a vegetação pendente das colunas que rodeiam a praça e o enorme repuxo de água que jorra na parte central. Daqui irradiam as principais vias da cidade e por ela têm-se também acesso ao passeio marítimo que conduz às praias e a um enorme parque com centenas de palmeiras. Um pouco mais à frente fica a Praça dos Heróis de Espanha donde partem as ruas da Democracia e do Rei Juan Carlos, ruas comerciais com muitas lojas, bares e restaurantes. Nesta praça, compridos bancos de pedra que são ao mesmo tempo floreiras, surpreendem pela sua policromia ao estilo arte nova ladeando uma enorme estátua central. Nesta a figura de um legionário segurando um fuzil e um leão e alçando uma bandeira é encimado pela águia do escudo de Franco. Este monumento, de onde foram há anos retirados os símbolos mais evidentes do fascismo, vai agora ser substituído de vez por decisão das autoridades da cidade, depois de uma petição cidadã ter exigido a sua remoção. Uma decisão mais que justa, uma vez que a cidade está tristemente associada a um dos mais sangrentos conflitos da história de Espanha. Foi aqui que se iniciou o levantamento militar fascista contra a república espanhola em 1936.




Atravessar as ruas de Melilha é contemplar um nunca mais acabar de edifícios com fachadas de estilo «art déco» com o seu rigor geométrico realçado por uma profusão de elementos decorativos variados. As varandas com as enormes portadas de madeira e o ferro forjado sobressaem deslumbrando os visitantes. A seguir a Barcelona, Melilha é a cidade espanhola com mais edifícios neste estilo. Na sua traça a cidade assemelha-se a uma qualquer cidade espanhola, no entanto a presença islâmica sente-se em todos os lugares. Mulheres vestidas como em Marrocos, com a cabeça coberta por um véu, podem ver-se um pouco por toda a parte. Nas ruas o berbere e o árabe marroquino são línguas bastante utilizadas. 

A cidade dispõe de uma bonita mesquita mas também de uma sinagoga e de um templo hindu além de várias igrejas cristãs. Aliás a cidade, tem a única igreja de estilo gótico de toda a África que se situa no interior da cidadela. A convivência entre diferentes culturas parece ser a bandeira de Melilha. A cultura «amazigh» ou berbere que domina na região vizinha de Nador marcou a cidade estando na origem do seu próprio nome. Quase metade dos melilhenses tem um dialecto berbere como língua materna e jornal «Melilla Hoy» tem feito referências a uma campanha contra a extradição de dois militantes da causa berbere, detidos em Madrid, para a vizinha Argélia. Um museu dedicado às culturas berbere e sefardita recorda as suas influências nesta cidade onde se cruzaram desde a antiguidade inúmeros povos e muitas religiões. Fenícios, cartagineses, romanos, vândalos, vikings, mouros, berberes e conquistadores espanhóis por aqui viveram e muitas vezes se combateram. Um dos principais acessos à cidadela faz-se precisamente por uma enorme praça denominada das Culturas que pretende homenagear essa mesma multiculturalidade. A fortificação é imponente e a sua parte mais antiga, que começou a ser construída no Século XV, está situada num rochedo onde existiu a antiga cidade fenícia de Rusadir. A cidadela foi aumentando sucessivamente ao longo de séculos sendo composta por quatro recintos rodeados por fossos e ligados entre si por pontes. No seu interior existem hoje um conjunto habitacional denominado «El Pueblo» e vários museus. Os limites da cidade com Marrocos foram traçados a tiro de canhão, precisamente a partir de dois dos fortes da cidadela, em finais do século XIX. Catorze disparos de um canhão com uma inclinação de 21 graus delimitaram os 12,5 quilómetros quadrados da cidade.

As fronteiras de Melilha continuam no entanto a assumir um carácter marcadamente violento e trágico, ainda que os velhos canhões se tenham calado para sempre. São a última fronteira terrestre da União Europeia com África. A cidade encontra-se totalmente cercada por um sistema de três gradeamentos metálicos justapostos com uma altura de seis metros encimados por arame farpado que foi recentemente reforçado com espigões metálicos altamente cortantes. O gradeamento do meio tem um desenho tridimensional de forma a dificultar a progressão no seu interior. Ao longo deste gradeamento triplo que se estende por quilómetros polícias, torres de vigia e aparelhos de vigilância modernos e ultra sofisticados asseguram que ninguém o poderá ultrapassar sem ser detectado. Muitos já morreram ao tentar atravessá-lo. O último muro da Europa depois de o de Berlim se ter desmoronado em 1989. Mesmo vista à distância a cerca provoca horror, repulsa e uma sensação de se estar dentro de uma enorme prisão. Não é possível apreciar a beleza do fim do dia, com o sol a declinar lentamente sobre a cidade, sem a lembrança que num monte à nossa frente permanecem centenas de homens, oriundos da África subsaariana, escondidos, desesperados, numa situação miserável e permanente acossados pelas polícias marroquinas e espanholas. Melilha transporta consigo o destino trágico de ser a última fronteira da Europa. Uma fronteira que ninguém parece querer ver.

António Pereira