O comboio deslizava apressadamente na linha férrea que liga Hanover, na Alemanha a Amesterdão. Passámos primeiro uma placa com as estrelas da União Europeia e "Holanda" escrito em cinco línguas. De repente, comecei a ver cada vez mais bosque, relva e vacas a pastar.
Minutos depois, num instante de segundos, vi uma mulher deitada com um homem, entre as árvores, ambos nus e a fazerem amor. Olhei para a senhora sentada à minha frente na carruagem e ficámos os dois admirados e a rir daquela situação libertina e improvável.
Bem-vindos à Holanda!
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Ros, o vermelho
A cidade de Segou há
muito não conhecia dias tão calmos. A rebelião no Mali afugentou
os turistas, que aqui chegavam atraídos pela arquitectura de terra e
madeira em redor de um dos portos fluviais mais antigos do
continente. Outros faziam escala a caminho do deserto, ou vinham
assistir a um dos muitos festivais de música nas margens do grande
Níger. Muitos dos locais que fugiram à ameaça da invasão rebelde,
vinda do norte, ainda não haviam regressado.
Alguns restaurantes
fecharam portas. Os empregados dos hotéis ocupavam-se de conversas
para passar o tempo enquanto os ventiladores refrescavam o vazio. Nas
recepções dos hotéis diziam-se os preços antigos, para
apequenarem os de pós-conflito: aliciar o pouco turista era agora
uma questão de sobrevivência.
Entrei no restaurante
de um hotel sem clientes, onde três empregados tropeçaram uns nos
outros para trazer um menu.
Depois de escolher,
olhei uma segunda vez à volta. Uma outra porta levava a um jardim,
com mesas e cadeiras à sombra de uma grande palhota redonda. Parecia
mais agradável comer ali. Ao sair para o jardim, vi que afinal
estava acompanhado, uma das mesas estava ocupada.
Era um homem de origem
europeia, de cabelos brancos e barba comprida, envolto no fumo do
cigarro que ia chupando lentamente. Estava
sentado em frente ao ecran do seu portátil antiquado, da garrafa de
xarope de menta e da cerveja Castel. Perguntei-me que faria ali o
outro único estrangeiro que vira até agora. Seria um escritor?
Alguém à procura de não ser encontrado que acabou por ficar?
Parecia ter uns 70 e muitos anos, e o sotaque do seu francês quando
pediu o almoço ao empregado denunciou-o.
- És espanhol?
Perguntei.
- Sim. Quer dizer...
Catalão.
Veio-me à cabeça o
recente apoio popular à independência da região e comentei-o na
expectativa de encontrar um adepto do separatismo.
O velho, com gestos de
desagrado, esclareceu.
- Todo esse movimento
independentista... Manipulado por elites! A luta pela independência
tornou-se um capricho da burguesia. Rodopiam à volta do dinheiro e
do poder, são independentistas financeiros. A ideologia e identidade
falam baixinho perante o dinheiro... E tu, vens da América Latina?
Sorri e disse ser
português. Perguntei o que o trazia a Segou.
- Com esta idade, já
não tenho ar de quem trabalha não é?
Respondeu, divertido.
- Vivo cá. Fugi do
barulho. Não do barulho da cidade... Nem sequer da sociedade! Mas do
barulho ideológico.
Fez uma pausa, olhos
fixos em algo que não estava ali.
- Voltei da América
Latina para Espanha, há muitos anos, para me juntar aos comunistas
contra Franco. Mas depressa percebi que os meus camaradas tinham mais
sede de outras coisas, e nos anos que se seguiram à democracia,
vi-os enriquecer e afeiçoar-se a altos postos nas hierarquias.
Um colibri, verde
metálico a brilhar ao sol, de cauda negra comprida cuja ponta se
separava em dois semi-arcos, sugava flores vermelho vivo ali ao nosso
lado. Ambos o contemplámos.
- Cansei-me de
incoerências, falsas revoluções. Apeteceu-me desandar e conhecer
mundo. Foi nessa altura que comecei a vir para África. Viajei o
continente inteiro.
O tom de desilusão
transformou-se em entusiasmo quando descreveu montanhas e desertos
distantes, vastas florestas e povos diferentes. Recomendou-me sítios,
avisou-me de outros.
- Finalmente cheguei a
Segou. Senti tranquilidade aqui. E há pouco barulho. Então fiquei.
E como te chamas?
- Sou Fernando e tu?
- Eu sou Pedro Ros.
Ros, em Catalão, é vermelho.
Trocámos de número
para um dia beber uma cerveja ao lado do Níger. Ele estaria lá, com
todo o tempo do mundo, horas repartidas entre a escrita, a mulher e o
pequeno filho – o primeiro, aos 70 anos, e o repouso.
Ros deu um último golo
na sua cerveja.
- Foi um prazer, amigo.
Está na hora de cumprir uma velha tradição que nunca perdi: a
sesta.
Despedimo-nos e o velho
retirou-se a passos lentos. Ia apanhar um dos táxi-moto que
descansavam na praça em frente. Os rapazes que os conduziam
conheciam bem onde ele morava.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Lisboa Menina e Moura
Às portas da Mouraria, de frente para a Capelinha da Senhora da Saúde, no Martim Moniz, apercebi-me do fim de uma oração islâmica, assim que vi um grupo de crentes regressarem ao habitual bulício lisboeta. Mohamed, natural do Bangladesh e muçulmano praticante, vinha de uma mesquita no interior do bairro da Mouraria. Explicando-me como lá chegar, segui pela Rua do Benformoso adentro e quando dei por mim, estava já num beco esconso e com pouca luz solar, ladeado por pequenos prédios antigos.
Na Mesquita
A porta de entrada do templo era alta e verde. E através dela soprava uma agradável e convidativa aragem. “Centro Islâmico do Bangladesh”, lia-se num quadro de anúncios envidraçados na sala de orações. Lá estavam os horários das rezas assim como, ironicamente, o número de conta da mesquita para donativos, escrito em letras garrafais. Mamadou Diara, jovem de 30 anos, nascido na Costa do Marfim, ia de Odivelas até ali uma vez por semana. Somente para rezar. No aperto de mão de despedida dizia-me: “Tens que ir também a uma mesquita mesmo aqui ao lado!” Rua do Terreirinho, porta 86. Assim que ia a entrar, deparei-me com um senhor pequeno e anafado que terminara a sua reza. Chamava-se Ali, e ao perceber o meu intuito em conhecer a cultura islâmica no bairro, simplesmente me disse: “Come with me!” Por ruas mal iluminadas, seguimos até à mercearia onde trabalhava. O dono da loja, Akhtar ao ver-me chegar, veio conversar por uns minutos, reforçando que no Islão toda a gente é bem-vinda. E que primeiro que tudo, se defende a paz, a saúde e o bem-estar do mundo inteiro. São cerca de mil os habitantes bangladeshianos que tal como ele, habitavam ali na Mouraria. A vasta maioria deles, muçulmanos. Mas o verdadeiro mouro estava ainda por chegar.
O Verdadeiro Mouro
Quando me preparava para sair da mercearia, apercebi-me da entrada apressada de alguém que lá ia comprar carne no talho “halal”. As suas feições eram-me familiares. Remetiam-me para o Norte de África. Numa fração de segundos, guiado pela intuição, preparei-me para falar em francês. “Et voilá!” Finalmente conhecia alguém da região que foi a origem da civilização moura. Abdul era natural de Marrocos, parte da área geográfica do Magrebe, que inclui vários dos países que à época, perpetraram a conquista árabe de Portugal e Espanha. Abdul queixava-se “Aqui não se está muito bem. Não há dinheiro! E agora que fui pai, devo ficar mais um ano ou dois e vou-me embora!” Ao ouví-lo pensava na constante insatisfação dos portugueses com o estado das coisas. Seria essa uma influência mourisca? Talvez sim. Ou talvez fosse esta uma daquelas perguntas sem resposta.
Mouraria do Fado
Ao fim da tarde, continuava a subir pela Colina de São Jorge acima. Pela Calçada Agostinho de Carvalho que cruzando com a Rua dos Lagares, me dava uma agradável perspetiva sobre a rua onde crescera Mariza, a fadista. Subindo à direita a Calçada do Monte, cruzei a Travessa da Nazaré, morada do Grupo Desportivo da Mouraria. Conhecido no bairro pelas noites de espetáculos e concursos musicais de fado. De novo, pela calçada acima, cumpria a chegada à Graça. Lá em cima, numa matiné de domingo à tarde, entoavam-se fados de saudade e paixão, no habitual tom lânguido e triste.
Vários historiadores e musicólogos defendem que a origem deste estilo musical português está nos cânticos da população moura que habitou a cidade depois da reconquista cristã. Hoje em dia, vários séculos depois, ali ainda se entoa em canções a mesma mágoa e dolência. E ainda se reza voltado para Meca, seis vezes ao dia. É a Mouraria dos nossos tempos, que tanto se rejuvenesce, porto de abrigo à imigração mundial, como se conserva identitária, autêntica e fadista.
Na Mesquita
A porta de entrada do templo era alta e verde. E através dela soprava uma agradável e convidativa aragem. “Centro Islâmico do Bangladesh”, lia-se num quadro de anúncios envidraçados na sala de orações. Lá estavam os horários das rezas assim como, ironicamente, o número de conta da mesquita para donativos, escrito em letras garrafais. Mamadou Diara, jovem de 30 anos, nascido na Costa do Marfim, ia de Odivelas até ali uma vez por semana. Somente para rezar. No aperto de mão de despedida dizia-me: “Tens que ir também a uma mesquita mesmo aqui ao lado!” Rua do Terreirinho, porta 86. Assim que ia a entrar, deparei-me com um senhor pequeno e anafado que terminara a sua reza. Chamava-se Ali, e ao perceber o meu intuito em conhecer a cultura islâmica no bairro, simplesmente me disse: “Come with me!” Por ruas mal iluminadas, seguimos até à mercearia onde trabalhava. O dono da loja, Akhtar ao ver-me chegar, veio conversar por uns minutos, reforçando que no Islão toda a gente é bem-vinda. E que primeiro que tudo, se defende a paz, a saúde e o bem-estar do mundo inteiro. São cerca de mil os habitantes bangladeshianos que tal como ele, habitavam ali na Mouraria. A vasta maioria deles, muçulmanos. Mas o verdadeiro mouro estava ainda por chegar.
O Verdadeiro Mouro
Quando me preparava para sair da mercearia, apercebi-me da entrada apressada de alguém que lá ia comprar carne no talho “halal”. As suas feições eram-me familiares. Remetiam-me para o Norte de África. Numa fração de segundos, guiado pela intuição, preparei-me para falar em francês. “Et voilá!” Finalmente conhecia alguém da região que foi a origem da civilização moura. Abdul era natural de Marrocos, parte da área geográfica do Magrebe, que inclui vários dos países que à época, perpetraram a conquista árabe de Portugal e Espanha. Abdul queixava-se “Aqui não se está muito bem. Não há dinheiro! E agora que fui pai, devo ficar mais um ano ou dois e vou-me embora!” Ao ouví-lo pensava na constante insatisfação dos portugueses com o estado das coisas. Seria essa uma influência mourisca? Talvez sim. Ou talvez fosse esta uma daquelas perguntas sem resposta.
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| Entrada da Mesquita. |
Mouraria do Fado
Ao fim da tarde, continuava a subir pela Colina de São Jorge acima. Pela Calçada Agostinho de Carvalho que cruzando com a Rua dos Lagares, me dava uma agradável perspetiva sobre a rua onde crescera Mariza, a fadista. Subindo à direita a Calçada do Monte, cruzei a Travessa da Nazaré, morada do Grupo Desportivo da Mouraria. Conhecido no bairro pelas noites de espetáculos e concursos musicais de fado. De novo, pela calçada acima, cumpria a chegada à Graça. Lá em cima, numa matiné de domingo à tarde, entoavam-se fados de saudade e paixão, no habitual tom lânguido e triste.
Vários historiadores e musicólogos defendem que a origem deste estilo musical português está nos cânticos da população moura que habitou a cidade depois da reconquista cristã. Hoje em dia, vários séculos depois, ali ainda se entoa em canções a mesma mágoa e dolência. E ainda se reza voltado para Meca, seis vezes ao dia. É a Mouraria dos nossos tempos, que tanto se rejuvenesce, porto de abrigo à imigração mundial, como se conserva identitária, autêntica e fadista.
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Pausa no Tempo
Maputo, Moçambique
A tarde tropical de calor húmido e suado, assentava de novo na Aldeia da Massaca. Vilarejo nos arredores de Maputo que na sua autenticidade e pureza, sorvia a bucólica quando lá estava.
Uma chusma de miúdos passou por mim a correr, levantando a poeira das estradas que aparentemente ali não existiam. E assim seguiam no seu tempo, a brincar.
Fora do grupo estava Sorte, criança que do seu nome pouco herdou por ter ficado orfã, e Gilda. Juntas viviam num orfanato ali nas imediações.
Na calma relaxada e soalheira que a experiente Vovó Juliana, assim era chamada pelos miúdos, detinha nas suas mãos, ia entrançando lenta e pacientemente, sentada na rua, o cabelo da Sorte, enquanto a Gilda esperava em bonomia pela sua vez.
O tempo parava por instantes ali em Moçambique. Mas caí em mim, e de novo, a viagem prosseguia.
A tarde tropical de calor húmido e suado, assentava de novo na Aldeia da Massaca. Vilarejo nos arredores de Maputo que na sua autenticidade e pureza, sorvia a bucólica quando lá estava.
Uma chusma de miúdos passou por mim a correr, levantando a poeira das estradas que aparentemente ali não existiam. E assim seguiam no seu tempo, a brincar.
Fora do grupo estava Sorte, criança que do seu nome pouco herdou por ter ficado orfã, e Gilda. Juntas viviam num orfanato ali nas imediações.
Na calma relaxada e soalheira que a experiente Vovó Juliana, assim era chamada pelos miúdos, detinha nas suas mãos, ia entrançando lenta e pacientemente, sentada na rua, o cabelo da Sorte, enquanto a Gilda esperava em bonomia pela sua vez.
O tempo parava por instantes ali em Moçambique. Mas caí em mim, e de novo, a viagem prosseguia.
domingo, 22 de setembro de 2013
O Fantasma do Sahara
Ali onde as areias
acabavam e o mar começava, era a nossa estrada. Alan, Jasmine e eu
seguíamos no opel, cheios de vontade de sul. Rumávamos entre
fronteiras, a do deserto e a do oceano, a “terra de ninguém”
amena que transformava aquela parte da travessia do Sahara numa
agradável viagem de alguns milhares de quilómetros.
O Sahara Ocidental tem
ares de terra ocupada. Barreiras policiais maroquinas frequentes
investigam quem cruza as estradas desérticas. As poucas construções
de estilo marroquino que vão aparecendo, com muita distância de
intervalo, são recentes, não fosse esta uma terra de tendas.
Não é um panorama
monótono, e o deserto desdobra-se em mil paisagens, ora de pedras e
rochas, ora de dunas de areia, ora cascalho interrompido por alguns
arbustos que reclamavam sobrevivência. Ao fundo, uma manada de
dromedários deambula buscando o raro verde.
De repente, a estrada
oferece uma possibilidade que não apenas o sul: uma pista arenosa
para a direita, para o mar.
- É a direcção da
costa, vamos?
Disse um de nós, falando
pela vontade que todos tínhamos de ver água a perder de vista.
Poucos quilómetros
depois e uns vultos ao fundo já interrompiam o horizonte amarelado,
tremelicante com o calor que irradiava do chão. Eram objectos
insólitos em tal contexto de secura. Barcos, com ar de já ter
cumprido missão, gozando agora de reforma terrestre com vista para o
mar.
A visão do grande azul
do cimo da falésia aliviava a aridez de onde provínhamos. O vento
soprava fraco, era o único som para além das ondas lá em baixo.
Ali nem gaivotas piavam. Não se avistava ninguém.
Um caminho descia até
à beira-mar. Decidimos percorrê-lo, haveria uma praia com certeza.
As escarpas estéreis
eram feitas de rochas sedimentares, arenosas, de cores claras e
formas erodidas. Lá em baixo, no fim do caminho, surge um conjunto
de casas de cor cinza, à beira de uma praia serena. Ainda não se via vivalma.
Ao chegar à localidade
sem nome, confirmámos a sua natureza fantasma. Todas as habitações
estavam vazias, portas e janelas abertas para um interior sombrio de
usos pouco recentes. Que motivos para aquele abandono?
Já passeávamos entre
o casario quando ouvimos sinais de vida. Uma presença rompia o vazio
inquientante. Uma voz solitária juntou-se ao som do avançar lento
de alguém. Apareceu finalmente o seu corpo. Um velho meio coberto de
trapos, de face escura e endurecida, enrugada pelo tempo e pelo sol,
de andar incerto, jeitos imprevisíveis.
O homem não nos olhou
com olhos de ver, embora viesse na nossa direcção. Falava como se
nada dissesse e a ninguém se dirigisse, numa língua que não
compreendíamos. Era o imperador daquela desolação, réstia
solitária da presença humana que ali houve. Há quanto tempo ali
estava, aquilo que dizia, como gastava os seus dias, um mistério.
Desapareceu a deambular
por entre as residências de ninguém, trocando palavras com a
ausência de lógica. A sua voz desfez-se gradualmente. Regressara à condição
de inexistência para o mundo dos vivos, fantasma solitário daquele
ponto esquecido do Sahara.
domingo, 15 de setembro de 2013
Terra Austral
O vôo mais longo da minha vida chegava ao fim. Trinta e seis horas dentro de um avião que provinha da Argentina. E tudo isto para conseguir atravessar o Oceano Pacífico, para ver o sol raiar na Nova Zelândia, e ainda conseguir fazer o último trecho daquela ligaçao aérea, chegar até Sydney. Fez-se bem a viagem. Talvez porque grande parte foi durante a noite. O tempo passava enquanto estava desligado dos sentidos. Entoava-se um sono colectivo na cabine dos passageiros. Antes de levantarmos vôo reparava nas rostoss. Encontrei alguns brasileiros, um ou outro chileno, mas estranhamente muito poucos Argentinos. Mesmo sendo a passagem aérea mais barata da América do Sul para a Austrália, não havia esse hábito, ou essa posibilidade financeira. Sentia-me ali o único europeu ou “ocidental”. As pessoas do Brasil eram-me em especial familiares à vista. Atentei em especial numa senhora loira, bonita, e de semblante delicado. Imaginei desde o início da viagem que ela seria do sul do Brasil. Projetava-a como uma praiante de Floripa, do estado de Santa Catarina, ou então uma gaúcha emigrante naquela terra austral para onde seguíamos. Ela vestia umas calças de ganga, e calçava um par ténis para jogging. Tão típico, que esta conjugação me remeteu dde imediato para o Brasil. E estava certo! Percebi isso quando ouvi a sua voz. Via as caras das pessoas e ficava a imaginar o que fariam no país de destino. Ou apenas se iam para a Austrália ou para a Nova Zelândia. O que fariam no país de origem. Se calhar a moça brasileira, atendia nas mesas de um famoso restaurante de Sydney. Ou ficava a pensar, se por outro lado, ela iria aterrar em Auckland. Havia também a bordo, um brasileiro especialmente comunicativo, frequentemente sentado com os joelhos no assento e de tronco erguido destacado na cabine que falava em alto e bom som para os seus conterrâneos. Tornava público que ia para Auckland aprender Inglês. Eu só pensava para comigo "bolas, deves ter muita guita no Brasil, para fazer quase 10.000 km para aprender a língua mais falada do mundo".
Uma hora depois a maioria já adormecera. Sobrevoávamos o Pacífico. E de facto fez-se juz ao nome, pois o trajecto decorrreu sem sobressaltos de poços de ar. Talvez por ter poucos ventos e correntes os descobridores tenham dado este nome ao oceano. Ao ver um dos pequenos ecrãs com o trajeto do avião, já na manhã seguinte, a linha em arco vinda de Buenos Aires entrava agora por terra adentro. Espreitei à janela, e avistava pequenas luzes amarelas. Nos poucos minutos que seguiram, assisti ao nascer do sol, o primeiro do planeta, onde a hora está adiantada. O sol começava a banhar aquela terra com um líquido dourado. E de repente levantava-se iluminava-se este país. Montanhas verdes, recortadas de pequenas estradas e casas. Um local onde há mais ovelhas do que pessoas. São conhecidos por "sheep-shaggers". A viagem prosseguiu para o último trecho. De Auckland, até Sydney. Países vizinhos, povoados na mesma época, com climas e tamanho distintos, mas tão próximos ao mesmo tempo. Enquanto a viagem prosseguia pensava nestas diferenças que os afastam. Reflectia nas relações entre os países, e como a história tanto os une, quanto o presente os tenta distanciar. Mas uma coisa era certa, a Nova Zelândia tem mais campeonatos do mundo de Rugby!
Ainda antes de o avião aterrar, foi-nos entregue um formulário em forma de tira de papel. O governo queria perceber quem é que estava a aterrar no país. Pediam o nome, idade, naturalidade, número do passaporte, destino posterior à estadia na Austrália, enfim, uma série de burocracias, à qual, parece-me que, já não estava habituado, desde que Portugal entrara na União Europeia. Nesse papel, no meio de várias perguntas indiscretas e a desafiar os limites da privacidade, perguntavam-me se transportava comigo mais de mil dólares australianos, em bens ou numerário. Para responder, fui fazendo uma curta conta de cálculo mental: quatrocentos euros da máquina fotográfica, mais setecentos do computador portátil, que me tinha sido entregue no Brasil. E apenas por essa contaa, já ultrapassava a quantia indicada. Quando convertia para dólares dos E.U.A. que por sua vez estavam praticamente equiparados ao dólar australiano, seriam superiores ao valor que indicavam naquele formulário. Guardei a tira de papel comigo para depois a entregar aos guardas alfandegários, no aeroporto de Sydney. Esperei na fila, organizada com aquelas fitas em serpente tão habituais na Expo 98, com cerca de vinte pessoas à minha frente até chegar a minha vez. Tinha já entregue o formulário no início da fila a um agente, que entretanto analisava os registos que cada passageiro tinha feito, e depois quando chegava a ssua vez, lhe pedia explicações. Estava a tentar passar o mais relaxadamente possível, pois achava que não tinha absolutamente nada a que me pudessem apontar, mas mesmo assim nunca se sabe. Um pequeno nervosismo invadia-me sempre, associado ao pensamento "e será que não vai ser comigo que vai correr tudo mal". Pronto, e no meu caso, o guarda alfandegário quis mesmo falar comigo. Pediu-me os documentos, o bilhete de continuação, para que o governo se certificasse de que a minha viagem iria prosseguir para outro lado, e perguntou-me também o seguinte:
"Você indica aqui que tem mais do que mil dólares. Pode explicar-me melhor?"
"Sim, tenho uma máquina fotográfica que custou cerca de quatrocentos euros, um portátil que custou cerca de setecentos e mais algum dinheiro em numerário. Posso inclusivamente mostrar-lhe estes artigos tecnológicos." Ele retorquiu apenas com a seguinte expressão: "Hmm, ok, pode continuar." Enquanto torcia o nariz, mas via-se sem qualquer contra-argumentação.
Primeira barreira superada para entrar na Austrália. Estava já fora do aerporto e tinha que chegar até à casa da rapariga que tinha decidido receber-me na cidade. A Sandra, uma miúda polaca de vinte e poucos anos a viver em Sydney. Achava impressionante a sua história. Tão nova, já tão independente e destemida a vingar pelo mundo fora. Ficava contente por ela. Tinha a sua morada anotada num papel e então uma fila de taxistas à minha frente. Carros brancos, Toyotas, com um ar de recém adquiridos, integrantes de uma enorme frota nova, de bom aspecto. Estavam estacionado numa fila em frente à saída do edifício das chegadas. O sol era forte, céu azul brilhante e carregado, numa planície isolada da cidade, rodeada de poucas construções. Fazia lembrar o sonho da Sarah Connor, no Terminator 2, em que chega o dia do apocalipse. Achei que podia dar-me ao luxo de escolher em qual dos táxis iria entrar. Afinal estava ainda treinado da América Latina, assim como de África. Alguns deles toparam a jogada e disseram-me logo para ir para o primeiro táxi de todos. Mas antes disso, e aproveitando que o condutor saíra da viatura para me ajudar a acomodar as malas na bagageira, tentei acordar previamente o preço, antes de entrar no carro. Ele só me dizia "Aqui isso não é necessário senhor."
Entrei então e seguimos viagem. Dissera-lhe ser de Portugal, e ele que era da Turquia. Confessava-me "A Austrália é um excelente país. Só tem um problema: É longe de tudo!!!" Eu acrescentaria, e tem problemas de água potável. Ele levava cerca de trinta horas de avião para poder voltar à Turquia. Só lá podia ir uma vez por ano, no Natal, dizia com saudade.
Chegara ao destino, e sabia já de antemão que a Sandra, não estava em casa. Na sua mensagem de resposta pelo Couchsurfing dissera-me "Vou estar no trabalho à hora que chegas, mas deixo as chaves de casa no café mesmo ao fundo da minha rua. Tens lá um envelope para ti." Já não era recebido assim desde a minha em Dakar, mas desta vez tinha uma vivenda “cottage” impecável de estilo inglês, restaurada e com jardim, à minha espera. Não estava mais ninguém em casa. Apenas eu. Uma boa decoração, a rua era agradével. Aquele cenário de recém-chegado ao país, parecia-me autenticamente um filme, tipo Notting Hill, mas com um clima muito mais solarengo e da europa do sul. Instalei-me em casa, onde havia uma sala central e espaçosa com um sofá colocado bem no meio. Era ali onde iria pernoitar. Despi-me e fui tomar banho, para revigorar da viagem. Estava encantado com aquela casa, a rua, o bairro e a cidade. Depois do banho quente, pude relaxar da viagem mais longa da minha vida. Buenos Aires até Sydney, em trinta e cinco horas de vôo! Ao final do dia, a Sandra chegava a casa. Logo ao falarmos as primeiras palavras, tinha a certeza que tinha ali uma excelente companheira para a estadia na cidade.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Gorom Gorom
Senta-te aqui connosco.
É o que quer dizer Gorom Gorom, o nome de uma vila às portas do
Sahara, no extremo norte do Burkina Faso.
É para lá que
convergem todas as quintas-feiras camelos carregados de mercadorias
dos vizinhos desertos do Mali e Níger, transformando a vila
poeirenta num dos mais coloridos e fervilhantes mercados desta zona
do Sahel africano.
Não foi fácil chegar
a Gorom Gorom, por estar agora inserida na “zona vermelha” de
segurança, devido à proximidade ao território controlado pelos
rebeldes do Mali. Depois de muito debater com a polícia de Dori, a
última cidade antes de Gorom Gorom, e de explicar que não me
aventuraria para além da vila e das suas dunas de areia, e que não
me demoraria mais do que uma noite, deram-me permissão para apanhar
um dos toscos autocarros que percorrem as estradas cor-de-areia até
à vila fronteiriça.
Já a postos para a
partida, surgem de nenhum lado duas cabeças loiras. Dois locais
precipitam-se para mim, dizendo que devia convencer as duas jovens
dinamarquesas a não seguir também para Gorom Gorom, que elas nem
uma palavra de francês falam. Voltamos à polícia, para uma nova
negociação, desta vez mais dura e prolongada. A insistência
concede-nos autorização para avançar mais para dentro do Sahel, eu
feito tradutor.
O calor opressor do
verão sahariano queima a paisagem à medida que o pequeno autocarro
baloiçante e barulhento prossegue pela aridez. Algumas acácias
espinhosas insistem em sobreviver e são subitamente interrompidas,
quando surge à direita um enorme aglomerado de plásticos azuis e
brancos, residências improvisadas para refugiados do Mali. Dizem-me
que neste campo devem estar uns milhares.
À beira da estrada um
pequeno grupo de tuaregues de rosto oculto pede por gestos para o
autocarro parar. Nossos olhos procuram algo de ameaçador nas suas
mãos, não fossem os repetidos avisos, mas nada encontram. O
autocarro não pára.
Finalmente Gorom Gorom! Feita de habitações baixas cor-de-creme, entre as quais os
minaretes de duas mesquitas sobressaem. Homens de rosto tapado por
panos e mulheres cobertas de lenços passam pelas ruas de areia, numa
tranquilidade só interrompida às quintas-feiras.
Encontramos alguém com
camelos que nos leva para dormir às dunas. Chegamos ao pôr-do-sol,
as areias douradas espalham-se e são pontuadas de algumas acácias,
tamareiras e arbustos espinhosos.
Os camelos entretêm-se
a mastigar algum do pouco verde e fazemos um fogo para preparar o
jantar. Juntam-se a nós algumas crianças curiosas de uma aldeia
perto. O velho chefe da aldeia também se junta, alguém trouxe uma
cadeira para ele se sentar.
Debaixo de um céu carregado de estrelas
e ao som do crepitar da fogueira, o velho relata um pouco da vida
antes da modernidade.
A paisagem pertencia
aos grandes animais, era mais verde e caía mais água do céu.
Tinham algum receio de se afastar da aldeia devido aos leões, embora
um poderoso marabu local tenha feito um feitiço para que os
animais caíssem em encantamento e não atacassem as pessoas.
Entretanto a paisagem
secou, o deserto avançou, as grandes árvores desaparecidas, os
animais eliminados.
- E porquê?
- Porque se perdeu a
moral, se perdeu a solidariedade.
O sol raiou algumas
horas depois, amarelando de novo os chãos. Na areia à nossa volta,
centenas de pegadas e rastos de pequenos mamíferos, insectos e aves
sobraram da madrugada. Era afinal frenética a vida que o tempo e a
areia disfarçavam.
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