Já há alguns dias que nos estavam a avisar que naquela quarta-feira um tufão ia passar perto da nossa vila. Eu tinha chegado ao Japão há poucas semanas para fazer um estágio de três meses numa fábrica nos arredores de Quioto. Tinha ouvido umas conversas sobre o tufão mas não liguei muito - de certeza que não havia risco nenhum. Afinal havia tantas regras estranhas para tudo!
Até que chegou a quarta-feira. Só quando os altifalantes da fábrica anunciaram, alto e bom som, que por razões de segurança deveríamos ir para casa o quanto antes, me voltei a lembrar do tufão. Pelos vistos o dito estava a menos de duas horas de distância e isso queria dizer que nos tínhamos de despachar. No autocarro de volta ao dormitório reparei que o céu estava cada vez mais cinzento, mas não parecia que fosse mais uma tempestade... Estava bem mais preocupado com não ter nada para jantar. Pior: o mais certo era que os restaurantes da vila estivessem fechados. A nossa preocupação — minha e de mais dois amigos estrangeiros, meus colegas de estágio — era saber o que fazer com o tempo que faltava até ao fim daquela confusão. Entre piadas sobre o exagero de tudo aquilo, lá chegámos à conclusão que a primeira coisa que devíamos fazer, mal chegássemos ao dormitório, era ir à vila comprar umas cervejas e alguma comida. Afinal ainda tínhamos pelo menos hora e meia até o tufão chegar, e o supermercado mais próximo ficava só a 10 minutos de bicicleta.
E foi isso que fizémos: chegados ao dormitório fomos imediatamente buscar as nossas bicicletas. O contínuo e a sua esposa, sempre preocupados, imploraram-nos para que ficássemos. Diziam que a tempestade estava mesmo a chegar, e que era perigoso sair. Mas lá fomos, divertidos, pedalando. O céu estava a ficar cada vez mais escuro, com a chuva cada vez mais forte e o vento bem mais indeciso: começava a soprar com força, vindo de todos os lados. Lá chegámos à vila, onde encontrámos a maioria das lojas já fechada ou em vias disso, muitas com tapumes a cobrir as montras. Conseguimos entrar no supermercado por pouco, onde os empregados nos cumprimentaram com um sorriso nervoso, de quem se queria despachar depressa e não sabia bem o que estávamos a fazer ali. E foi aí que, pela primeira vez, percebemos que nunca devíamos ter saído do dormitório. Sem grandes hesitações comprámos o que precisávamos e saímos o mais depressa possível. O vento, a chuva, a cor do céu: tudo nos dizia que não deveríamos estar na rua naquela altura. Estradas desertas, os pedais pesados, as pontes que pareciam ziguezauear à nossa frente. Foram uns longos quinze minutos (ou meia hora, nem sei bem...) que demorámos até ao dormitório. Chegados lá tínhamos à nossa espera o contínuo, a sua esposa e alguns colegas; todos se riram quando entrámos,e alguém nos disse que por pouco não ligaram à polícia para nos irem procurar.
Devia faltar pouco menos de uma hora para o pico da tempestade chegar. Decidimos ir para a sala comum partilhar as cervejas e os pacotes de batatas frita que heroicamente, tínhamos acabado de resgatar da vila. Aos poucos a chuva lá parecia querer acalmar, e foi então que o céu começou a mudar de cor: nunca tinha visto uma cor tão bonita- o céu estava a ficar em tons amarelo-alaranjados - tudo aquilo parecia irreal. Só era uma pena aquela janela - alta, grossa, suja. Pior: a janela era feita de vidro reforçado com arame, o que em nada ajudava à visibilidade! Tinha que tirar uma fotografia a estas cores únicas - queria uma recordação do meu primeiro tufão por terras do Sol Nascente!
E foi por isso que resolvi abrir a janela. Mal rodei o puxador a janela fugiu-se-me das mãos, e ao mesmo tempo que deixou o vento entrar sala adentro aplicou-me, certeira, uma valente pancada na cabeça. Eu caí, desarmado (e desmaiado, acho), redondo no chão. Acordei um tudo nada depois, tonto, com os meus amigos a rir-se com tamanha proeza. E lá ficámos, a deixar o resto do tufão passar. Quanto à fotografia? Essa não ficou nada de especial - apenas mais um céu escuro, tremido. Infelizmente não tenho provas dos tons de laranja (e muito menos dos amarelos).
""""
Luis
terça-feira, 27 de maio de 2014
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Gente Boa
Escrevo de Dakar, capital do Senegal, uma cidade aparentemente pacífica e talvez mais segura do que muitas cidades europeias. Paris, por exemplo, é mais violenta. Carteiristas, criminalidade, roubos violentos, ou o passado recente de convulsões nos bairros sociais, deixam-me a pensar como a arrogância dos países mais poderosos do mundo serve para espezinhar as nações mais pobres, propagandeando estes últimos como países de guerra. Quando se entra no Senegal, lê-se num enorme cartaz a antítese desta política. Nele li escrita em letras grandes e evidentes, a palavra "Teranga", expressão local que descreve exatamente o espírito acolhedor e pacífico dos senegaleses.
Já passara uma semana desde que cheguei a Dakar no camião de dois espanhóis, o Frankenstein, como o batizaram. Eles ficaram instalados na pousada Chez Soukeye, na Baía de Ngor, a zona de praias da cidade (uma espécie de Carcavelos lá do sítio!). Quando cheguei, contatei o primo de Bourama, um amigo senegalês que conheci no projeto de alfabetização de imigrantes, no Bairro Seis de Maio, e que me presenteou alguns contactos da sua família. Uma ajuda para o caminho. O seu primo Amadou morava em Cambérene, um bairro periférico de Dakar, numa casa simples de apenas uma divisão e uma varanda, onde guardava também a sua galinha de estimação. As casas-de-banho do prédio eram em átrios comuns e partilhadas pelos habitantes de cada piso. Ao sair do prédio pisam-se estradas de areia que ligam as ruas do bairro.
O canto onde eu pernoitava, acolhia um colchão vetusto e deslavado, no reduzido espaço sobrante da casa de Amadou, que era pequena mas viver lá era, para ele apenas mais um esforço até que a sua nova casa, uma vivenda num subúrbio bucólico de Dakar, estivesse construída. Com ela, pretendia iniciar um pequeno negócio hoteleiro, alugando os quartos a viajantes, à semelhança da casa onde os espanhóis do Camião Frankenstein ficaram. Depois de uma noite em casa de Amadou, percebi que seria difícil manter-me instalado por lá mais dias, e por isso volvi à zona balnear de Dakar. Para me instalar novamente com o grupo de espanhóis, oriundos do País Basco. Quando chegava àquela região, algo me fazia relaxar e sentir uma boa vibração. Talvez do mar, das ondas, do seu marulhar ou da vida despreocupada e da bonomia dos locais.
Depois de uns dias por lá, pesquisei por um "sofá" disponível na rede "couchsurfing" (surfar no sofá, traduzido à letra), e fui aceite por um rapaz americano. David, que estava a fazer uma investigação sobre a SIDA no país. À data que vos escrevo, já passaram cinco dias desde que cheguei, e posso contar-vos que já conheci os seus vizinhos, os seus amigos, mas não há sinal dele! Anda por Louga no norte do Senegal, a trabalhar no seu projeto. Mas ainda mais esperançoso do que ele me ter respondido positivamente na rede de hospitalidade, foi o facto de ele não estar em Dakar para me receber à data da minha chegada. Em vez disso, depositou a sua plena confiança num desconhecido, e deixou as chaves de casa com a vizinha da frente. Há gente boa no mundo.
Texto a ser incluído no livro de crónicas de viagens do autor, a ser lançado em breve.
Já passara uma semana desde que cheguei a Dakar no camião de dois espanhóis, o Frankenstein, como o batizaram. Eles ficaram instalados na pousada Chez Soukeye, na Baía de Ngor, a zona de praias da cidade (uma espécie de Carcavelos lá do sítio!). Quando cheguei, contatei o primo de Bourama, um amigo senegalês que conheci no projeto de alfabetização de imigrantes, no Bairro Seis de Maio, e que me presenteou alguns contactos da sua família. Uma ajuda para o caminho. O seu primo Amadou morava em Cambérene, um bairro periférico de Dakar, numa casa simples de apenas uma divisão e uma varanda, onde guardava também a sua galinha de estimação. As casas-de-banho do prédio eram em átrios comuns e partilhadas pelos habitantes de cada piso. Ao sair do prédio pisam-se estradas de areia que ligam as ruas do bairro.
O canto onde eu pernoitava, acolhia um colchão vetusto e deslavado, no reduzido espaço sobrante da casa de Amadou, que era pequena mas viver lá era, para ele apenas mais um esforço até que a sua nova casa, uma vivenda num subúrbio bucólico de Dakar, estivesse construída. Com ela, pretendia iniciar um pequeno negócio hoteleiro, alugando os quartos a viajantes, à semelhança da casa onde os espanhóis do Camião Frankenstein ficaram. Depois de uma noite em casa de Amadou, percebi que seria difícil manter-me instalado por lá mais dias, e por isso volvi à zona balnear de Dakar. Para me instalar novamente com o grupo de espanhóis, oriundos do País Basco. Quando chegava àquela região, algo me fazia relaxar e sentir uma boa vibração. Talvez do mar, das ondas, do seu marulhar ou da vida despreocupada e da bonomia dos locais.
Depois de uns dias por lá, pesquisei por um "sofá" disponível na rede "couchsurfing" (surfar no sofá, traduzido à letra), e fui aceite por um rapaz americano. David, que estava a fazer uma investigação sobre a SIDA no país. À data que vos escrevo, já passaram cinco dias desde que cheguei, e posso contar-vos que já conheci os seus vizinhos, os seus amigos, mas não há sinal dele! Anda por Louga no norte do Senegal, a trabalhar no seu projeto. Mas ainda mais esperançoso do que ele me ter respondido positivamente na rede de hospitalidade, foi o facto de ele não estar em Dakar para me receber à data da minha chegada. Em vez disso, depositou a sua plena confiança num desconhecido, e deixou as chaves de casa com a vizinha da frente. Há gente boa no mundo.
Texto a ser incluído no livro de crónicas de viagens do autor, a ser lançado em breve.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Tomar o pequeno-almoço, não...
Misturar-me,
envolver-me e fazer parte dos locais, é desde o início da viagem,
um dos principais objectivos. Acordei hoje a perguntar-me se devia
tomar o pequeno-almoço no hostel. Porque não ir à rua e ver como
era a realidade? Decidido! Aliás, tomar o pequeno-almoço, não...
“Tomar o Mata-bicho”, como se dizia em terras moçambicanas. 1
Na rua recomendaram-me ir até ao Mercado Janeta. Mas às oito da manhã muitas das barracas dos comerciantes estavam ainda fechadas. Enquanto ia perguntando as direcções para a zona da restauração, sorvia à distância os aromas da cozinha local. Cada vez mais perto, cheirava-me a folhas de mandioca a cozinhar, e deixava-me inebriar pelo amendoim a tostar ou pelo côco fresco ralado. Os almoços ali preparavam-se desde cedo, pelas manhãs fora.
Por vezes sentia que ali o tempo biológico era outro. O sol regia o povo de um modo mais explícito e vincado do que aquilo a que estava habituado. Assim que era avistado com os seus raios, com ele pululava a vida da cidade, e quando se baixava sobre a baía de Catembe, os habitantes de Maputo recolhiam a casa.
Num dos poucos quiosques abertos àquela hora, partilhei o balcão da barraca de zinco com um jovem moçambicano. Bem aparentado, de camisa, com óculos e uma grande pasta de trabalho à inspector forense, pousada sobre o balcão. Eram 8h30 da manhã e ele bebia um garrafa de litro de cerveja preta moçambicana da marca Laurentina. O seu nome era Nélson, com cerca de 30 anos e estudara jornalismo. Casado e pai de dois filhos. O seu empregador era uma empresa de minério sediada no Zimbabué mas com um escritório de representação em Moçambique, onde ele desenvolvia a sua actividade profissional durante o dia.
Por bem, quis juntar-me a ele e replicar a sua ementa, enquanto conversávamos sobre a vida. Uma garrafa de litro de Laurentina às oito e trinta, em conjunto com uma familiar sandes mista. Foi o meu pequeno-almoço deste dia, aliás... o meu mata-bicho, em mais um dia no continente africano.
Na rua recomendaram-me ir até ao Mercado Janeta. Mas às oito da manhã muitas das barracas dos comerciantes estavam ainda fechadas. Enquanto ia perguntando as direcções para a zona da restauração, sorvia à distância os aromas da cozinha local. Cada vez mais perto, cheirava-me a folhas de mandioca a cozinhar, e deixava-me inebriar pelo amendoim a tostar ou pelo côco fresco ralado. Os almoços ali preparavam-se desde cedo, pelas manhãs fora.
Por vezes sentia que ali o tempo biológico era outro. O sol regia o povo de um modo mais explícito e vincado do que aquilo a que estava habituado. Assim que era avistado com os seus raios, com ele pululava a vida da cidade, e quando se baixava sobre a baía de Catembe, os habitantes de Maputo recolhiam a casa.
Num dos poucos quiosques abertos àquela hora, partilhei o balcão da barraca de zinco com um jovem moçambicano. Bem aparentado, de camisa, com óculos e uma grande pasta de trabalho à inspector forense, pousada sobre o balcão. Eram 8h30 da manhã e ele bebia um garrafa de litro de cerveja preta moçambicana da marca Laurentina. O seu nome era Nélson, com cerca de 30 anos e estudara jornalismo. Casado e pai de dois filhos. O seu empregador era uma empresa de minério sediada no Zimbabué mas com um escritório de representação em Moçambique, onde ele desenvolvia a sua actividade profissional durante o dia.
Por bem, quis juntar-me a ele e replicar a sua ementa, enquanto conversávamos sobre a vida. Uma garrafa de litro de Laurentina às oito e trinta, em conjunto com uma familiar sandes mista. Foi o meu pequeno-almoço deste dia, aliás... o meu mata-bicho, em mais um dia no continente africano.
1 Em alguns lugares de Portugal também se usa esta expressão, derivada de matar a fome ou saciar o jejum da noite.
domingo, 20 de abril de 2014
Palco Inesperado
No seu périplo pelo
mundo, Corto rumou a Melbourne, Austrália, terra que à época
recebia milhares de imigrantes todos os dias vindos de uma Europa em
conflito. Na primeira noite, Corto buscava diversão, entretenimento
e copofonia, nesta cidade que se construía no início do
século XX. Deambulava com um grupo de jovens que conhecera no Hotel.
A banda fez uma pausa, e com o seu grupo de amigos à volta, no lado da plateia, Corto começava a cantar uma música de folclore celta da Cornualha, terra do seu pai, também ele marinheiro. Às tantas, reuniam-se já cerca de dez pessoas à sua volta. No final aclamaram-no com palmas, e um local de Melbourne, Ryan, muito à vontade no "pub", onde conhecia toda a gente, disse ao ouvido de Corto: "És o próximo a subir ali." - apontando para o palco - "Prepara-te."
Ryan falou com a banda, e de repente ouviu-se: "Sabemos que está aqui um excelente cantor na audiência. Pedimos que venha até ao palco mostrar-nos os seus dotes vocais!"
Num "pub" nas imediações, acontecia uma noite de música ao vivo com uma banda cujo apenas o nome assustava Corto: "Kill the Queen". O ambiente
era soturno, mal iluminado e respirava-se um espírito resistente e
anarquista naquele local. No palco tocava um conjunto de "folk"
australiano. A sala era pequena e Corto sentia-se observado. As suas
vestes de marinheiro, cuidadas e limpas destoavam das roupas do
restante público. Calças rasgadas e cabelos compridos por lavar.
A banda fez uma pausa, e com o seu grupo de amigos à volta, no lado da plateia, Corto começava a cantar uma música de folclore celta da Cornualha, terra do seu pai, também ele marinheiro. Às tantas, reuniam-se já cerca de dez pessoas à sua volta. No final aclamaram-no com palmas, e um local de Melbourne, Ryan, muito à vontade no "pub", onde conhecia toda a gente, disse ao ouvido de Corto: "És o próximo a subir ali." - apontando para o palco - "Prepara-te."
Ryan falou com a banda, e de repente ouviu-se: "Sabemos que está aqui um excelente cantor na audiência. Pedimos que venha até ao palco mostrar-nos os seus dotes vocais!"
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Aquela experiência inesquecível
Agora que já sai das nuvens e quase aterrei na realidade, a ver se consigo partilhar um bocadinho do que foi este verdadeiro sonho. A aproximação de avião a umas ilhas e ilhéus perdidas no meio do oceano pacífico que a pouco e pouco vão ganhando forma e cor é intrigante. Estamos a chegar? É aqui? São as Galápagos?! A emoção é evidente em todos os passageiros colados ao vidro. O sol brilha, o céu está bem azul e os vulcões começam a distinguir-se dos céus, as praias começam a ganhar forma, os tons de azul vão se marcando no mar, o verde em terra e o negro da rochas vulcânicas que tocam as baías, lagoas e areais a perder de vista. Já se vêm barcos, umas poucas casas e quase tocamos o mar. Estamos em terra, estamos nas Galápagos. Toda a gente aplaude.
Abre-se a porta do avião, a luz entra em força, tudo brilha. O ar quente rompe à nossa volta, caminhas levemente, queres ver tudo, não queres perder nada, sentes a vida em bruto... É avassalador... SIM, estás nas Galápagos! Até hoje parece irreal e cada vez que vejo as fotos ainda nem acredito bem que lá estive. Este é um local não apropriado para apaixonados da natureza com sensibilidade cardíaca. É que cada coisa, momento e situação é melhor que o outro e as emoções vêm acima à séria. Começámos por Santa Cruz, Centro de Darwin. Iguanas nas rochas ao por do sol, tartarugas gigantes no seu habitat natural, túneis de lava, grietas de água salobra e tortuga bay, que praia deliciosa! Pela noite um passeio ao porto onde se vêm raias ratão, pequenas tintureiras e leões marinhos.
Seguimos a Isabela, aii Isabela, Isabela... Passeio em bicicleta, pinguinsssss a busca pelos pinguins, tartarugas no mar e em terra e todas gigantes, nadar com leões marinho numa piscina natural, visitar os flamingos e procurar e procurar piqueiros patas azuis. Tivemos a sorte de ver um grande grupo mas meio longe... Não há espiga eles também estão em San Cristobal. Os últimos dias são em San Cristobal. Grandes expectativas para esta ilha. Aqui vamos fazer o único tour desta viagem: O Tour! Visitamos o parque, praias cheias de lobos marinhos, aves por todos os lados mas nada de piqueiros.
Leão Dormido, é o tour, o passeio imperdível onde tudo é possível. Saímos bem cedo pelas 7, directos à rocha, impressionante de alta, com uma falha no meio. Onde tudo pode aparecer. Entramos na água e estamos rodeados de medusas lindas, cardumes aqui e ali, vamos pela greta na rocha e começam as formas a surgir. Um tubarão aqui, outro ali, mais perto... E de repente por baixo de nós estão mais de 20 tubarões. O coração salta a emoção é gigante. Algo escuro vem lá do fundo, vai ganhando forma... e é uma, não são duas, não são 3, mais de 5 raias, passam por nós. São pintadas parecem estrelas no céu Huuummmm respira fundo que ainda vai melhorar. Só agora começou. Damos a volta por aqui e por ali, tartarugas, lobos marinhos, cardumes e mais cardumes. Até que.... Uma sombra gigante negra, bem negra passa por baixo dos meus pés. Eu não acredito é mesmo? Isto está a Acontecer? É A MANTAAAAAA!!!!! Aaahhhhhhhhhhhhhhhhhhh Lindo, lindo, lindo... Boca aberta e cá seguia viagem a comer o seu plancton preferido.
Estou no Céuuu!!!! Uma Manta!!
O dia só agora começou. Ainda vi mais uma manta, um tubarão bem grandote acercou-se a nós. E ao fundo uma baleia respirava à superficie. Daqui seguimos ao norte da ilha Punta Pitt. Ao nosso lado um ilhéu repleto de aves. Fragatas, olha as fragatas. Não posso, é mesmo? Estão em dança e ritual de reprodução. Bolsa vermelha inchada, inchada, e dança e dança. AAhhhhh não acredito. E são 4 ao mesmo tempo. Incrível! Que sorte. Vamos a terra, desembarcamos. Um lugar deserto, virgem, puro.. Uma caminhada pelas rochas lagartixas de lava, tendilhões, um calor duro. No cimo a vista para as praias, o vento forte quase nos faz voar e do outro lado estão os tão esperados piqueiros. Mas estes são ainda mais originais, são de patas rojas. E estão nos ninhos, com ovos.... Cada passo, cada momento é único, inesquecível. Regressamos ao mar, mais um snorkeling, nadar com lobos marinhos, um macho que metia medo do tamanho que tinha nadava gentilmente entre nós. Aves e mais aves à nossa volta a pescar. O Paraíso, isto é o paraíso! Agora sim, sinto-me bem, sinto-me realizada e sinto que cheguei ao fim desta viagem. Passei os últimos dias todos dentro de água a nadar com tartarugas, com raias e lobos marinhos em praias de cortar a respiração...
Saludos a todos, já vou em caminho ao aeroporto...
M.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Duche
Os caminhos para Pyrefouna mudam com a época do ano: a seca,
ou a das chuvas. Do ponto de vista de quem as cruza, a época da poeira ou a da
lama, respectivamente.
Desta vez era a da lama. Percorria de mota a pista de terra
vermelha molhada, com piscinas de água um pouco por todo o lado: havia chovido
há pouco. Os verdes vivos da savana, naquela altura luxuriante, e as cores
quentes da estrada brilhavam contra o cinzento escuro do céu.
Em época seca, a distância de Banfora a Pyrefouna, no sul do
Burkina Faso, pode ser feita em hora e meia. Nos meses molhados, o tempo
duplica-se.
Outras motas e alguns camiões decadentes cruzavam-se de vez
em quando, o peso dos camiões escavando fossas na argila encharcada. Não
parecia, mas esta era a principal via de comunicação entre Banfora e Gaoua,
cidade dos lobis, a última sociedade matriarcal do país.
O céu escureceu, não da noite, mas do dilúvio que ameaçava
tombar lá do alto. Os roncos das nuvens vibravam em tudo, acompanhados de
descargas de luz que tornavam tudo lilás por um instante. As gotas, grossas,
começaram a cair, a frequência aumentando rápido. Doem na testa por causa da
velocidade, cegam momentaneamente quando atingem os olhos. Poucos segundos
chegaram para parecer ter saído do fundo de um lago, de mota e tudo.
A estrada já não lhe merecia o nome, transformada em rios de
correntes súbitas.
Os caminhos para Pyrefouna abandonaram a estrada principal,
a chuva que amainava deixava-os ver melhor. Por fim, apareceu a velha ponte de
madeira sobre o bas-fond, à entrada da pequena aldeia.
Sekou sabia que eu chegaria naquele dia. Ele e Tiemogo
receberam-me à chegada, mais as crianças curiosas que se se iam habituando às
minhas visitas.
- Não te lavas? Aquecemos água para o banho.
Palavras reconfortantes para quem gotejava de frio, e lá
veio o balde com água aquecida.
Fui até ao duche, pequeno cubículo separado do resto da casa
por uma cortina. Buracos na parede e uma pequena abertura para o exterior, para
a água sair. Apontei a luz para ver onde pisar e algo se recolheu logo para
dentro de um dos buracos. Uma cabeça escamosa ficou de fora. A língua bífida
saíndo de sua boca tirou as dúvidas.
- Sekou, está uma cobra no duche!
- Ah sim? Deixa ver...
Espreitou-me por cima do ombro.
- Ah, essas são das que não fazem mal.
E explicou.
- São as cobras sagradas. Mantêm os maus-olhados longe e
protegem-nos de feiticeiros. O meu avô falava com elas, entendiam-se. Elas
aninhavam-se no seu regaço quando ele dormia a sesta, e obedeciam aos seus
comandos. Gostamos de as ter por perto. Ainda ontem estava uma em cima da mesa!
Por entender a minha falta de hábito de partilhar um duche
com serpentes, Sekou pegou num bocado de cartão e colocou-o no buraco, tapando
o acesso ao réptil. O duche estava protegido: de cobras e de maus-olhados.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Bem-vindos à Holanda!
O comboio deslizava apressadamente na linha férrea que liga Hanover, na Alemanha a Amesterdão. Passámos primeiro uma placa com as estrelas da União Europeia e "Holanda" escrito em cinco línguas. De repente, comecei a ver cada vez mais bosque, relva e vacas a pastar.
Minutos depois, num instante de segundos, vi uma mulher deitada com um homem, entre as árvores, ambos nus e a fazerem amor. Olhei para a senhora sentada à minha frente na carruagem e ficámos os dois admirados e a rir daquela situação libertina e improvável.
Bem-vindos à Holanda!
Minutos depois, num instante de segundos, vi uma mulher deitada com um homem, entre as árvores, ambos nus e a fazerem amor. Olhei para a senhora sentada à minha frente na carruagem e ficámos os dois admirados e a rir daquela situação libertina e improvável.
Bem-vindos à Holanda!
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