domingo, 2 de novembro de 2014

Mitras do Deserto

À beira da estrada no Sahara Ocidental, depois de várias tentativas frustradas, um carro parou para me dar boleia. Já me havia despedido de Lisboa há um mês e de repente ia passar a fronteira para um país onde não havia nada, excepto areia e o Atlântico.

Até lá chegar só ouvia histórias contadas em francês, de que havia um manancial de minas no troço de 5 km, que separava os dois países. Nessa área não havia estado, polícia nem lei. Era a terra de ninguém.





















De repente, o nosso carro atascou na areia, e no instante a seguir, três carros surgiram das dunas, carregados de pessoas com turbante. Gente do deserto. Só me imaginava no filme Madmax.

Apoderou-se a tensão do nosso carro e o pôr-do-sol só agudizava ainda mais as coisas. Saí da viatura e falei com eles em francês, para então perceber que ali estavam apenas para fazer negócio. Argutos, depressa perceberam o problema e vieram para nos tirarem da areia.

Assim foi, mas a mudez do instante, as minas e a ausência de estado tornaram tudo imprevisível.
 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O que se passa em Portugal?

Notícias, pessoas, conversas. Passeios no Jardim da Estrela, ao centro de Lisboa. Um frenesim, melancolia e estática. Ao ver as notícias, as pessoas e o mundano, tudo continua igual. Mas cada dia que passa sei que estou certo. Sei que a governação deste país é cronicamente inviável, difícil e muito desempoderadora. 

Há uns anos atrás, numa altura em que visitava uma quinta nas serras algarvias, um alemão cientista auto-didacta (quer isto dizer que desenvolvia tecnologia de plasmas na sua pequena casa na montanha!), e lá a viver há mais anos do que os que estou vivo, me dizia: “Vocês portugueses têm um problema de confiança. Têm medo de conseguir!” E sim, sem dúvida. Cada vez mais concordo com ele. Temos que nos impor. E sim, cabe-nos mudar a situação atual. É o desafio da nossa geração, de romper com estas teias de mendicidade europeia, a que nos temos agrilhoado ao longo das últimas décadas. 

As pessoas são o essencial em Democracia. Relembrando a etimologia desta palavra, temos “Demos” e “Cratos” em grego. O poder do povo. Mas sabemos que se passa o contrário. Um povo, uma classe política e um país subjugados ao dinheiro, ao lucro, à necessidade de as empresas criarem o capital, do qual, claro está, apenas uma ínfima parte é para pagar os rendimentos dos assalariados. O grande problema disso é que é negligenciada uma importante parte da equação: as pessoas. Os portugueses não são empoderados. Porque poucas vezes se lembram deles. A começar pelos políticos, depois a continuar pelos próprios portugueses, que poucas se vezes se lembram uns dos outros, enquanto grupo, enquanto colectividade, enquanto povo soberano do seu destino, e claro, porque muitas vezes, nós mesmos, não nos lembramos de nós também. O tempo, o dinheiro, a família, os amigos, o trabalho, os superiores, as notícias. A vida pode dar-nos a felicidade, mas a quantos portugueses é que ela bate à porta?

Neste momento, a nós portugueses, não diria “Sim, podemos”, até porque essa linha tem direitos de autor, e para copiar, os espanhóis já usaram isso num partido da sua sociedade civil. Diria antes, “Portugueses, do que é que estamos à espera?!!!” Não temos que seguir fulano ou fulana. Apenas temos que nos seguir a nós mesmos. Dentro de nós temos a resposta a tantas questões. É a nossa inteligência tanto racional como intuitiva que deve reger as nossas acções e não a de mais ninguém. Se isso está a acontecer, é porque o poder não está desagregado, e é porque a nossa opinião está a ser posta de lado, nem sequer indagada.

Nos dias que correm, o grau de instrução dos jovens, mesmo ao nível do ensino obrigatório, permite analisar e decidir o quotidiano com um grau de conhecimento muito acima do que havia há algumas décadas atrás em Portugal, na Europa e no Mundo. No passar dos dias, vão-nos pedindo coisas que não achamos correctas. E claro que há coisas e coisas, e temos que ponderar o seu real valor. Mas não podemos aceitar o que vai para além do razoável. A tua voz conta. E a voz do teu pensamento. A frustração de ir para casa com ideias que não foram expostas ou debatidas, não vale a pena, e na espuma dos dias, degrada este país. Levantemos a nossa voz. Pensamento já o temos. Confia em ti.

Foto de Pete

Foto com licença Creative Commons para Pete - www.flickr.com/photos/comedynose/4643185598

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Sou emigrante. Por vários motivos, um dos quais porque sou uma "nómada sedentária". A frase "wherever you go, there you are" sempre me fez sentido, mas agora ainda mais.
Sou portuguesa, está-me nas moléculas o sal do mar, o clima ameno, todos os "inhos", o bacalhau, o cozido, o bom vinho, os pastéis de nata, o verde do Minho, o azul cinza do Tejo, a planície do Alentejo, a ria Formosa, as cores dos Açores, os queixumes, os brandos costumes, os cravos. Eu quis negar, mas sou.
 As razões que me levaram a partir estão na minha genética, literalmente. Fez-me partir a pacatez do povo que nunca pegará em armas para fazer revolução. Os meus genes fazem-me ir a manifestações, escrever reclamações, ter raiva, ter vontade de pôr bombas. Os meus genes ditam-me a completa inapetência para usar a violência mesmo contra os canalhas que continuam impunemente a estragar a vida e o país. Os meus genes ditam-me a aventura, a capacidade de adaptação, a delicadeza, a saudade.
Já não penso que somos desorganizados, sei agora que Portugal é um país limpo, "arranjadinho", lindo. Sei que a nossa maior qualidade é a nossa maior fraqueza: somos tolerantes.


domingo, 5 de outubro de 2014

Do Ribatejo até à Ásia

Um grupo de amigos viajantes chegou à Arménia, depois de uma valente tirada velocipédica, desde a Benedita no Ribatejo, até à capital arménia Yerevan. Aqui abaixo fica partilhado o vídeo com os melhores momentos. E claro, deixo os parabéns pela proeza! Agora, parece que depois do Cáucaso, seguem-se os Himalaias, como próximo destino, segundo as últimas informações recolhidas...
Boas viagens!



quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Descanse em Paz

Ainda passaram poucos dias e a estranheza desta ausência perdura. Dóris Graça-Dias, aguçada crítica literária colocou um fim à sua vida. A semana passada foi fatídica.


Descanse em paz.
Dóris Graça-Dias
1963 - 2014 Maputo - Lisboa

Quando Viajo






















Quando viajo
Entrego-me às horas,
Às pessoas,
Cidades
E ao acaso da vida.

Sigo a multidão,
Analisando-a de perto
Embrenhado no seu éter social
E cafrealizando.

Por instantes,
Perco a identidade
E absorvo o mundo
Sorvendo os pequenos detalhes
Do quotidiano onde estou.

Ao fim do dia,
Regresso a mim
Aprendiz do empirismo
E aportado.

Quando viajo
Esqueco-me de mim
Entrego-me ao Mundo
Vivo assim.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Debaixo do Tamanogonogo


Debaixo do tamanogonogo, a grande árvore à beira do nosso campo, faz-se o chá e discutem-se os próximos passos do projeto de reflorestação. “A vida atrai vida”, diz a Stephanie, ao reparar que é debaixo da grande e fresca copa que escolhemos passar muito do nosso tempo quando não estamos de mão na enxada. É uma árvore alta, uns 30 metros, ramos possantes e numerosos, que se desdobram em vários andares de madeira, folha e frutos. Esses, vermelho-vivo, mostram-se quando as cápsulas que os albergam atingem a maturidade, chegando aos 6 ou 7 por cápsula. As cápsulas, de um vermelho mais claro, enfeitam toda a copa, impossíveis de contar. A cada dez minutos, uma solta-se e chovem frutos suculentos e doces, pausas ideias do calor que faz no exterior da sombra. De todos os ramos onde batem antes de chegar até nós, é lançado o aviso e amortecimento da queda dos frutos, que pousam quase suavemente perto de nós, antes em jeito de dádiva do que ameaça às cabeças.


Enquanto aquece o chá, Siaka fala-nos das muitas histórias mágicas que tem para contar. Ele jura que de vez em quando vê os wokoulonis, seres que habitam tanto na floresta como na cidade. São criaturas de cabelo longo e ruivo, de um metro de altura. Não gostam muito de humanos mas cada um tem a sua personalidade, uns mais perigosos que outros. Se alguma coisa acontece de mal, muitas vezes são eles a causa.  Foi um deles que uma vez o fez cair da mota quando voltava de noite de Sideradougou. Os ferimentos com que ficou não foram curados com os medicamentos do hospital, apesar de vários dias de internamento. Precisou de mezinhas mágicas, confeccionadas por um curandeiro, para sanar as feridas enfeitiçadas. Também são estas criaturas que incomodam muitas vezes as vacas, que começam a tremer sem motivo aparente e depois ficam doentes. Mas o medicamento de plantas do mato que ele preparou para o seu gado previne que isso aconteça.
Outro tipo de criatura que por aí anda é a suposta mulher jovem que aparece de noite numa ponte em Banfora, de vestes compridas e de grande beleza. Não responde se lhe disserem boa noite. Debaixo das vestes, escondem-se pés de cavalo. Foi esta criatura que matou o seu irmão, que uma vez decidiu segui-la, impelido pela ausência de resposta. Tocou-lhe no ombro, por trás, para chamar a sua atenção, ao que a bela criatura se voltou e fez um som agudo com os lábios, provocando uma imediata dor de cabeça ao rapaz. Morreu dois dias depois.
Antigamente, estas e outras criaturas foram escravizadas pelos homens, e foi assim que se construíram as montanhas, escavaram os lagos, fizeram-se os vales. As criaturas rezaram a Deus para ficarem invisíveis aos olhos dos homens, ao que Deus concedeu e desde então vivem entre humanos sem serem vistos, ou pelo menos só quando o desejam. “Vem tudo no Alcorão!”, insiste Siaka, devoto muçulmano, que nunca sai de casa de manhã sem contar 10.000 das suas contas de terço islâmico.

De noite preparamos o acampamento, ali perto do Tamanogonogo. Siaka e Ali removem as ervas com as pequenas enxadas no lugar onde vamos dormir, enquanto o sol desaparece, alaranjando o mato à volta. Ramos de árvore colocados a jeito e montamos o mosquiteiro. Pode ser que não chova.
O chão é duro, e só temos um plástico a separar-nos dele. Siaka e Ali voltam para casa, para Banfora e Koutoura, respectivamente.  Ficamos no mato com Salif, o míudo que guarda as vacas de Siaka.

Salif está sempre a sorrir. Solta um riso tímido cada vez que seus olhos se cruzam com os nossos. Por vezes observa-nos enquanto fazemos coisas ou falamos com alguém, e depois fica atrapalhado quando devolvemos o olhar, e ri-se fechando ligeiramente os olhos. É um Fula, e “os Fulas são duros desde pequenos”, diz o Siaka, também ele Fula, ao referir-se à dureza das tarefas de Salif.
Dorme ao relento perto da fogueira, onde cozinha arroz, que enriquece um fio de óleo de cozinha para o tornar mais interessante. Só tem uma colher, por isso hoje comemos todos à mão, agachados à volta do prato e com uma lanterna na mão esquerda, aquela que nunca toca na comida. O pouco francês de Salif e o meu escasso Dioula complementam-se num diálogo rudimentar de onde saem algumas informações pouco claras, mas também muitos risos. Tem 19 anos e guarda estas vacas desde os 15. Está habituado à companhia do gado, que só responde à sua voz. Siaka, nessa tarde, tinha parecido quase triste com isso, “As vacas não conhecem o seu dono, apenas quem as guarda”. O gado é o centro da vida dos Fulas.
Enquanto comemos arroz com óleo e conversamos, as nossas lanternas vão chamando cada vez mais insectos, e adicionam-se assim ingredientes ao nosso arroz simples, agora pontuado de pequenos seres voadores que ficam agarrados ao jantar. Inútil tentar removê-los.
Sentimos algo a passar rápido pelos pés e pernas. Muito rápido, nem se percebe o que é. De lanterna apontada ao chão percebemos que é um dos seres mais temidos destas horas da noite: o “cavalo do escorpião”.
Parece-se com uma aranha de grande porte mas anda muito mais rápido e com as patas da frente no ar, como se nada lhe pudesse fugir. As mandíbulas fazem medo de tão grandes e ao contrário dos outros habitantes da noite, não mostra medo do fogo, chegando perto das chamas e repousando nas cinzas escaldantes. De nós também não tem medo, e passa-nos pelos pés, fazendo-nos saltar um a um, de receio das suas famosas mordeduras. Salif põe-se numa dança, a tentar que o seu pé termine aquela correria desenfreada, mas sem sucesso. O cavalo do escorpião acaba por se retirar para o mato, para nosso alívio.
Pouco depois é a hora de dormir, debaixo das estrelas e ao som das chamas e das milhares de rãs que cantam no charco ali ao pé. Surgem os zumbidos de mosquitos, esperemos que fora da rede. Uns passos mais longe, ainda se ouvem os frutos do tamanogonogo, que se lançam lá do alto, tocando nos muitos braços da árvore antes de se juntarem aos que já formam um tapete vermelho açucarado aos pés da grande árvore.