segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Mensagem de Angola

Numa conversa no Skype, entre Lisboa e Luanda, a 8‎ de ‎julho de 2014 pelas ‎23‎:‎50.

João:
Então man,
Tudo fixe aí na Banda?

Rodolfo:
Ainda me estou a ambientar.
Mas yap, está-se bem.
Esta zona é OK, o trânsito é normal e estamos na estação do Cacimbo [1].
A temperatura é mesmo fixe.
Aqui há supermercados e tudo o que temos aí.
Quanto à temperatura está por volta dos 20º C, de dia e de noite.

De resto ainda estou a começar a perceber o potencial disto.
O único contacto com a Angola de verdade, é através dos motoristas.
Estou à procura de um bocado de animação cultural.
Ainda não me habilitei a sair fora dos condomínios.
Amanhã vou dar uma volta pela rua para ver.
O tempo passa rápido mas nos fins-de-semana quero ver se conheço um bocado de Angola.
Estou à procura de cursos de cozinha Angolana.
Durante a semana é só casa-trabalho.
O que for, a ver se me inscrevo em alguma coisa ao fim-de-semana para conhecer pessoal.
Os colegas da empresa são porreiros.
Mas ao que me parece ficam muito pelas piscinas dos condomínios durante o dia e restaurantes e discotecas à noite.
Queria conhecer aí uns Angolanos de raiz.
Tenho de ver se conheço alguém com gostos mais parecidos com os meus.
Mas os motoristas parecem-me gajos muito porreiros, ando a falar com um.
De vez em quando vamos falando.
Já consegui falar um bocado sobre a ocupação Portuguesa.
O gajo nessa altura ainda era miúdo mas já me descreveu umas cenas hardcore.
Episódios tristes da brutalidade colonialista portuguesa.

Abraços,
Rodolfo
















domingo, 2 de novembro de 2014

Mitras do Deserto

À beira da estrada no Sahara Ocidental, depois de várias tentativas frustradas, um carro parou para me dar boleia. Já me havia despedido de Lisboa há um mês e de repente ia passar a fronteira para um país onde não havia nada, excepto areia e o Atlântico.

Até lá chegar só ouvia histórias contadas em francês, de que havia um manancial de minas no troço de 5 km, que separava os dois países. Nessa área não havia estado, polícia nem lei. Era a terra de ninguém.





















De repente, o nosso carro atascou na areia, e no instante a seguir, três carros surgiram das dunas, carregados de pessoas com turbante. Gente do deserto. Só me imaginava no filme Madmax.

Apoderou-se a tensão do nosso carro e o pôr-do-sol só agudizava ainda mais as coisas. Saí da viatura e falei com eles em francês, para então perceber que ali estavam apenas para fazer negócio. Argutos, depressa perceberam o problema e vieram para nos tirarem da areia.

Assim foi, mas a mudez do instante, as minas e a ausência de estado tornaram tudo imprevisível.
 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O que se passa em Portugal?

Notícias, pessoas, conversas. Passeios no Jardim da Estrela, ao centro de Lisboa. Um frenesim, melancolia e estática. Ao ver as notícias, as pessoas e o mundano, tudo continua igual. Mas cada dia que passa sei que estou certo. Sei que a governação deste país é cronicamente inviável, difícil e muito desempoderadora. 

Há uns anos atrás, numa altura em que visitava uma quinta nas serras algarvias, um alemão cientista auto-didacta (quer isto dizer que desenvolvia tecnologia de plasmas na sua pequena casa na montanha!), e lá a viver há mais anos do que os que estou vivo, me dizia: “Vocês portugueses têm um problema de confiança. Têm medo de conseguir!” E sim, sem dúvida. Cada vez mais concordo com ele. Temos que nos impor. E sim, cabe-nos mudar a situação atual. É o desafio da nossa geração, de romper com estas teias de mendicidade europeia, a que nos temos agrilhoado ao longo das últimas décadas. 

As pessoas são o essencial em Democracia. Relembrando a etimologia desta palavra, temos “Demos” e “Cratos” em grego. O poder do povo. Mas sabemos que se passa o contrário. Um povo, uma classe política e um país subjugados ao dinheiro, ao lucro, à necessidade de as empresas criarem o capital, do qual, claro está, apenas uma ínfima parte é para pagar os rendimentos dos assalariados. O grande problema disso é que é negligenciada uma importante parte da equação: as pessoas. Os portugueses não são empoderados. Porque poucas vezes se lembram deles. A começar pelos políticos, depois a continuar pelos próprios portugueses, que poucas se vezes se lembram uns dos outros, enquanto grupo, enquanto colectividade, enquanto povo soberano do seu destino, e claro, porque muitas vezes, nós mesmos, não nos lembramos de nós também. O tempo, o dinheiro, a família, os amigos, o trabalho, os superiores, as notícias. A vida pode dar-nos a felicidade, mas a quantos portugueses é que ela bate à porta?

Neste momento, a nós portugueses, não diria “Sim, podemos”, até porque essa linha tem direitos de autor, e para copiar, os espanhóis já usaram isso num partido da sua sociedade civil. Diria antes, “Portugueses, do que é que estamos à espera?!!!” Não temos que seguir fulano ou fulana. Apenas temos que nos seguir a nós mesmos. Dentro de nós temos a resposta a tantas questões. É a nossa inteligência tanto racional como intuitiva que deve reger as nossas acções e não a de mais ninguém. Se isso está a acontecer, é porque o poder não está desagregado, e é porque a nossa opinião está a ser posta de lado, nem sequer indagada.

Nos dias que correm, o grau de instrução dos jovens, mesmo ao nível do ensino obrigatório, permite analisar e decidir o quotidiano com um grau de conhecimento muito acima do que havia há algumas décadas atrás em Portugal, na Europa e no Mundo. No passar dos dias, vão-nos pedindo coisas que não achamos correctas. E claro que há coisas e coisas, e temos que ponderar o seu real valor. Mas não podemos aceitar o que vai para além do razoável. A tua voz conta. E a voz do teu pensamento. A frustração de ir para casa com ideias que não foram expostas ou debatidas, não vale a pena, e na espuma dos dias, degrada este país. Levantemos a nossa voz. Pensamento já o temos. Confia em ti.

Foto de Pete

Foto com licença Creative Commons para Pete - www.flickr.com/photos/comedynose/4643185598

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Sou emigrante. Por vários motivos, um dos quais porque sou uma "nómada sedentária". A frase "wherever you go, there you are" sempre me fez sentido, mas agora ainda mais.
Sou portuguesa, está-me nas moléculas o sal do mar, o clima ameno, todos os "inhos", o bacalhau, o cozido, o bom vinho, os pastéis de nata, o verde do Minho, o azul cinza do Tejo, a planície do Alentejo, a ria Formosa, as cores dos Açores, os queixumes, os brandos costumes, os cravos. Eu quis negar, mas sou.
 As razões que me levaram a partir estão na minha genética, literalmente. Fez-me partir a pacatez do povo que nunca pegará em armas para fazer revolução. Os meus genes fazem-me ir a manifestações, escrever reclamações, ter raiva, ter vontade de pôr bombas. Os meus genes ditam-me a completa inapetência para usar a violência mesmo contra os canalhas que continuam impunemente a estragar a vida e o país. Os meus genes ditam-me a aventura, a capacidade de adaptação, a delicadeza, a saudade.
Já não penso que somos desorganizados, sei agora que Portugal é um país limpo, "arranjadinho", lindo. Sei que a nossa maior qualidade é a nossa maior fraqueza: somos tolerantes.


domingo, 5 de outubro de 2014

Do Ribatejo até à Ásia

Um grupo de amigos viajantes chegou à Arménia, depois de uma valente tirada velocipédica, desde a Benedita no Ribatejo, até à capital arménia Yerevan. Aqui abaixo fica partilhado o vídeo com os melhores momentos. E claro, deixo os parabéns pela proeza! Agora, parece que depois do Cáucaso, seguem-se os Himalaias, como próximo destino, segundo as últimas informações recolhidas...
Boas viagens!



quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Descanse em Paz

Ainda passaram poucos dias e a estranheza desta ausência perdura. Dóris Graça-Dias, aguçada crítica literária colocou um fim à sua vida. A semana passada foi fatídica.


Descanse em paz.
Dóris Graça-Dias
1963 - 2014 Maputo - Lisboa

Quando Viajo






















Quando viajo
Entrego-me às horas,
Às pessoas,
Cidades
E ao acaso da vida.

Sigo a multidão,
Analisando-a de perto
Embrenhado no seu éter social
E cafrealizando.

Por instantes,
Perco a identidade
E absorvo o mundo
Sorvendo os pequenos detalhes
Do quotidiano onde estou.

Ao fim do dia,
Regresso a mim
Aprendiz do empirismo
E aportado.

Quando viajo
Esqueco-me de mim
Entrego-me ao Mundo
Vivo assim.