segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Madrid em 24 Horas

Já passava das cinco da manhã quando entreabri os olhos e esbracejei do colchão para fora até alcançar o despertador digital e desligar o som. “Vamos! Já passa da hora.” Dentro de poucos minutos estávamos no carro e a caminho de Madrid. Íamos os dois celebrar o 14 de Fevereiro mas também visitar o meu irmão que agora está por lá a viver. Banhado pela aurora matutina, o montado alentejano prolongava-se belo e familiar, desde a nossa margem sul do Tejo até para lá de Elvas. A estrada seguia sempre calma, naquele sábado de manhã. A fronteira já não existia e ainda me admirava como se não o soubesse já de antemão. Confesso que receava algum motivo prepotente para pararem o meu carro. Se a polícia em Portugal é desmedida e desproporcional, nunca se sabe como será a do país vizinho. São cada vez mais síncronas, e as diferenças entre os dois povos não são assim tantas. Deve destacar-se que as auto-estradas por lá não são pagas, e isso, numa viagem já faz a diferença. Já passava das duas da tarde na hora local, quando transitávamos num dos bairros mais chiques de Madrid, ou como se diz por lá, um dos mais “pirros”. As ruas, as fachadas e as pessoas estavam bem arranjadas. Impressionou-me que os peões assumiam o protagonismo da estrada, dado os passeios serem largos, por haver apenas um sentido automóvel, e mais importante ainda, devido aos veículos só poderem circular a 30 quilómetros por hora, máximo. Zona de velocidade reduzida. O meu irmão aguardava uma leva de instrumentos musicais que lhe prometera levar. Em complemento ao seu trabalho integral, dedicava-se à música, a sua paixão verdadeira e de longa data. À hora de almoço, era impossível não petiscarmos algo onde ele trabalhava. Tempo apenas para ir até ao nosso Hotel, ali ao lado sito no mesmo bairro, fazer o “check-in” e regressar. Depois de petiscarmos uma tarte de bacalhau acompanhada de uma “caña”, e rematar com um pastel de Nata, Lisboa estava definitivamente para trás e doravante aguardava-nos Madrid. Ao caminhar até à estação de metro mais próxima, “Vergara” o vento frio e cortante já se fazia sentir no rosto. O “barbeiro” como se diz no norte e se lembrava a Sofia. A cidade situa-se num planalto, sensivelmente na latitude do Porto e está rodeada no horizonte de montanhas repicadas de neve. As ruas mesmo frias conquistavam-me grandes e organizadas que eram. Assim como o Metro, abrangente e funcional, não obstante as estações e as carruagens serem mais espartanas e pragmáticas do que as da nossa cidade natal.



Museu Nacional - Centro de Arte - Reina Sofia


A estação que mais nos deixa no centro chama-se “Sol”, local das famigeradas e revolucionárias acampadas de 2010 e 2011, réplica das do Rossio em Lisboa, refira-se também. Ali, mais do que noutro lugar da urbe, sentia-se o bulício citadino de uma cidade de seis milhões, também em processo de auto-análise política e social. Várias vozes se faziam reclamar na via pública. Por exemplo os movimentos depois assumidos como partidos “Podemos”, ou a sua contra-versão “Ciudadanos”, etc. Mas o Carnaval ainda ludibriava muito as atenções de causas políticas. Desde as “Puertas del Sol” caminhámos ao todo por duas ou três horas. “Calle Mayor” abaixo, até à respetiva “Plaza Mayor”, enclaustrada por firmes fachadas vermelhas, o tom nacional, e que nos eram recordação de um imaginário construído de imagens televisivas e de vetustas memórias. Como este fim-de-semana era também de Carnaval, julgámos nós que por isso, havia vários artistas locais que tentavam pregar sustos aos mais incautos. No centro da Plaza Mayor, malabaristas, estátuas humanas, homens invisíveis cirandavam por entre nós, constituindo o centro das atenções daquela bela praça. Logo ali ao lado encontrámos o Mercado de San Miguel, arrebatado por dentro e ladeado por esguias, atraentes e ajeitadas ruas, relembrando algo de Alfama. No início da nossa caminhada, ainda junto à Praça, deparámo-nos com a invulgar vitrina do “Museu del Jamón Ibérico”. Um amontoado de pernas fumadas de porco, expostas como se de um talho se tratasse. Mas claro que o paladar desta iguaria, tão singular que é pela região ibérica, merece o Museu. Apenas discutiria a sua forma. Ao fim da avenida principal depara-se com um palácio gigante, possante, até desmedido e exagerado. Como se arranjou espaço para isto? Perguntava-me. Fomos passeando em vez de questionar. De frente para ele, está também a Igreja Catedral da cidade, ponto de onde se avista a extensão urbana sobre um dos ângulos de Madrid. Vadeando o Palácio Real, no qual os atuais reis rejeitaram viver, por ser um excesso de opulência e uma incoerência num país que atravessa também, embora menor, uma crise económica. Os seus jardins conquistaram-nos por serem abertos ao público, singelos, harmoniosos e nos permitirem tirar uma boa fotografia, cartão postal da cidade. Um simpático casal de Madrilenses acercou-se para me perguntar se queria uma fotografia. Momento de diálogo ecuménico que acabou por ser uma troca de registos fotográficos no “iPhone” de cada um. De novo no Metro, fizemo-nos valer de um bilhete de 10 viagens, possível de ser partilhado por vários passageiros. Seguimos até à estação “Atocha”, a mesma onde os bárbaros atentados de 11 de Março de 2004 sucederam. Aposto à gare, está o “Museu Reina Sofia”, ao qual por desempate demos primazia sobre o Museu do Prado. Por ser um centro de arte moderna, por ter várias obras de artistas famosos como Salvador Dali, Pablo Picasso, Joan Miró, entre outros mais. Para além disso, apresenta um misto arquitetural de novo e antigo, em duas zonas distintas por onde lá se pode visitar arte. E por termos apenas 24 horas também!



No regresso, fomos repastar-nos com um lanche num café / “snack”, momento em que tivemos uma primeira altercação. Sempre dei o meu melhor para comunicar num castelhano o mais completo e percetível que podia, mas não sei se por se notar alguma distonia sonora, se por antipatia crónica, os modos com que nos atenderam nesse lanche e no pequeno-almoço seguinte, deixaram a desejar e colocaram-nos a refletir. Na mesa da janela, contemplava os urbanos locais a circularem nas suas ruas. Estava longe de casa, a cerca de 800 quilómetros, mas ao mesmo tempo eram-me todos algo familiares aqueles semblantes. Mas no fundo falavam outra língua, viam outras notícias, votavam noutros sistemas, e tinham várias origens diferentes. Aí sentia a Madrid cosmopolita, diversa, mesclada. Logo à saída do Metro, atentara num grupo de jovens ativistas, que ultimavam cartazes de manifestação, pareceu-me de relance que seriam pela liberdade sexual, contra o tradicional dia de São Valentim. Pouco depois, enquanto comíamos uma parca tosta e um chá de “manzanilla” no tal café / “snack”, do outro lado da rua, já se reuniam mais manifestantes. E a polícia municipal já condicionava o trânsito, naquela que é uma das mais movimentadas praças da cidade. No dia seguinte, novamente esta praça estaria interdita devido a um marcha de protesto. De retorno às carruagens do metro, ecoavam duas vozes, uma masculina que tonitruava estereofonicamente “Próxima Estación”. E uma feminina que logo de seguida anunciava mais singela o nome da estação: “Príncipe de Vergara”. Já não me surpreendia e até despoletava boas memórias, dos “skits” do Manu Chao no seu segundo álbum a “solo”, assim como do do metropolitano de Barcelona. De regresso, tínhamos que agilizar o jantar, processo que demorado, paciente e indeciso, acabou, como sempre, por se resolver a ele mesmo. Acabámos no bairro de “Salamanca”, num restaurante não programado, depois de algumas tentativas goradas, a jantar carnes grelhadas, acompanhadas de pão branco espanhol e vinho da região demarcada “La Rioja”. A Sofia, o meu irmão e eu, na ampla cave do restaurante “Olvido” também ele “pirro”, não fossemos estar na área do estádio Santiago Barnabéu, do Real. O melhor da noite ainda estaria para vir, pois era o motivo da nossa deslocação até aquele bairro. O meu irmão ia depois subir ao palco para tocar guitarra numa “jam session” de “blues”. Os dois “solos” de guitarra que nos presenteou foram complexos e dignos de registo. De regresso ao Hotel de táxi, a chuva de pingos frios fez-se sentir numa Madrid molhada em noite de romance.

No dia seguinte, as “calles” asseadas, o ceú limpo e sol impeliram-nos até à Praça “Colón”, onde está a homenagem ao Cristóvão Colombo, aí claro reclamado espanhol e não português de Cuba. De lá avistámos a Praça “Cibeles”, onde tantas vezes se gravam as peças dos enviados especiais da televisão. Com objetivo em mente de aí ingressar num autocarro turístico, aguardámos na paragem ali mais próxima. Os bilhetes não eram convidativos, pelo seu preço e pelos vários cortes no trajeto habitual devido às manifestações no centro. Mas aguardámos na paragem. Um numeroso grupo familiar espanhol apoderou-se do espaço na paragem, passando-nos à frente, e quando o autocarro chegou, subiram primeiro. Quando chegou a nossa vez de comprar os bilhetes a motorista pergunta-me: Están com esta familia?” Ao que retorqui com a verdade. Momento então que me dizem que já não há lugares. O embate foi desnecessário e injusto, pois fica a estupidez no ar derivada de se que fizéssemos parte do grupo, então já haveria lugar para mais dois. A matemática não pode enganar. E claro que não recomendo este serviço turístico da cidade. De todo. Por dois motivos: - Primeiro porque só existe praticamente um serviço que resulta de uma parceria entre duas das maiores empresas de transporte de pessoas em Espanha. Ou seja, não há concorrência ao contrário de Lisboa. - Depois porque o preço é exorbitante. Além do mais, muitos hotéis só sabem dar informações sobre este serviço. Poderia ser por ser bom, mas não. Antes parecia um suave cartel. Achara que o áudio-guia que se ouve neste transporte valeria a pena, mas novamente o péssimo atendimento ao turista da cidade, impele-me a desaconselhar. Como alternativa, e como já eram quase as 14 horas locais, pegámos no carro e seguimos nós o trajeto demarcado no mapa do prospeto daquela mesma empresa. Numa lógica “faça você mesmo” que confesso, me devia ter logo lembrado.



No fim, à saída da cidade, procurámos com paciência, tempo e cuidado a saída certa da radial mais interna da cidade, a M30, para a auto-estrada A5-E90 que cruzando alguns parques de energia solar pelo caminho, nos levaria de novo à fronteira, demarcada pelo Rio Guadiana que corre incessante sobre a Ponte José Saramago. O regresso às portagens, à condução atacante, à crise social aguda de valores materiais e intangíveis, ao trabalho e à resmunguice. Um fim-de-semana de alinhamento com as viagens, com as minhas paixões, e o meu irmão emigrado dentro de uma união de estados agora sem fronteiras. No fim de contas sentia-me viajado por entre um ambiente fraterno. Retinia a ideia que um amigo meu me dissera semanas antes: “na península ibérica somos principalmente influenciados pela cultura moçárabe”. E acrescentaria, que fomos apartados por reinados, interesses comerciais e ainda o somos pela legítima auto-determinação, mas estamos também unidos por um passado partilhado de coexistência pacífica tanto como de embates entre islâmicos e católicos.




João

domingo, 11 de janeiro de 2015

Je Suis Charlie

Em solidariedade com os familiares e amigos das vítimas do ataque hediondo e injustificável que aconteceu em Paris.

Claro que os muçulmanos não pensam e nem actuam da mesma forma que os radicais que perpetraram esta barbárie. Neste momento evitemos as generalizações.






domingo, 4 de janeiro de 2015

Dois Poemas - poesia de viagens



I


Dia de chuva em Lisboa,
Dia de Carnaval no Mundo
E eu com vontade de viajar à toa
Aprender, conhecer-me a fundo.

Quando saí de casa, em mim não acreditaram.
Viram-me a sair e depressa exasperaram.
Antes de fechar a porta, desejaram-me boa sorte
E esperaram também que passasse depressa esse corte.

De comboio rumei a Foros de Amora
O meu destino por agora.
Quando lá chegado ergui o polegar
E logo na estação de serviço comecei a indagar.

Até que um casal,
Que voltava para Espanha
Me deu boleia,
Sem de mim suspeitar de qualquer manha.

Próxima paragem: Andaluzia
Com uma paragem rápida em Sevilha.
E não sei se por azar ou por sorte
Nesta cidade tornei-me mais forte.

Quando um grupo de agentes me apanhou desprevenido
Encostou-me à parede e deixou-me em sentido.
Revistaram-me de alto a baixo e pediram-me a identificação
Fiz-me difícil e logo lhes disse que não.

No final de contas, eu estava legal
Pois sou um viajante do vizinho Portugal.
Ainda me perguntaram para onde é que eu ia
E no final um deles para a viagem me advertia.

Chegado ao destino, constato o que se diz:
Que em toda a Espanha, o melhor Carnaval é o de Cadiz.
Com os hotéis cheios e sem contactos ali,
Só me restava erguer o polegar assim.

Aguardo, pergunto e não desisto,
Até que me pasmei com o que tinha visto.
Uma jovem donzela com um olhar de anjo
Maquilhada, espanhola, conquistou-me com o seu encanto.

Diz que me deixa no seu conforto
mas apenas se fizermos um acordo.
Vou ter que contar ao seu namorado
que venho da parte de um outro seu contacto.

Aceitei, até porque estava de passagem
e sem sítio onde dormir.
E no final da estadia, ela levou-me à paragem
para o meu caminho prosseguir.

E se alguém um dia me perguntar,
o que fui fazer a Tarifa
Posso dizer que lá fui,
e lá me saiu uma rifa

Hospedado pelo Couchsurfing
num Hostel em construção
Enquanto trabalhava
Conheci o fundador de um site de jogos de viciação

E lá tive conversas de inspiração
De que somos capazes mas que achamos que não.
E que é esse mesmo sonho que nos faz alcançar
E do meio do nada, fazer o mundo girar.






















II


Era a alma e a dor

de ver o mundo no seu devir
no limbo indiscriminado do improviso, inconsciência e sentir.
Era a adrenalina da mente social.

Para onde rumamos,

quem nos guia,
que valores preservamos
e nos seguram dia-a-dia.

Não se trata de nada de facto.

E na raiz da questão.
não pretendo nada
analisando bem a intenção.

Deixar escrito,

aliviar o sentimento,
procurar identificantes.
Ser amado.

Ainda mais?

Dizem-me que é a maior necessidade do ser humano.
Muito agradeço aos meus pais.
A eles, todos os meus dias e não a quem nos governa neste país.

Terra do sol poente,

na testa da Europa, outrora.
Agora marchados por cima, agredidos pelo norte,
vilipendiados e sacudidos pelas instituições internacionais.

Que sentido?

Que humilhação?
Bandidos, burros, banalidades
Nós sempre sujeitos às causalidades.

Económicas, sociais

Às dinâmicas do planeta
O que será deste recanto
dentro de vinte, trinta anos?

Num mundo

agora inexplicável
prevendo-se com mais água
e menos comida per capita.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Mensagem de Angola

Numa conversa no Skype, entre Lisboa e Luanda, a 8‎ de ‎julho de 2014 pelas ‎23‎:‎50.

João:
Então man,
Tudo fixe aí na Banda?

Rodolfo:
Ainda me estou a ambientar.
Mas yap, está-se bem.
Esta zona é OK, o trânsito é normal e estamos na estação do Cacimbo [1].
A temperatura é mesmo fixe.
Aqui há supermercados e tudo o que temos aí.
Quanto à temperatura está por volta dos 20º C, de dia e de noite.

De resto ainda estou a começar a perceber o potencial disto.
O único contacto com a Angola de verdade, é através dos motoristas.
Estou à procura de um bocado de animação cultural.
Ainda não me habilitei a sair fora dos condomínios.
Amanhã vou dar uma volta pela rua para ver.
O tempo passa rápido mas nos fins-de-semana quero ver se conheço um bocado de Angola.
Estou à procura de cursos de cozinha Angolana.
Durante a semana é só casa-trabalho.
O que for, a ver se me inscrevo em alguma coisa ao fim-de-semana para conhecer pessoal.
Os colegas da empresa são porreiros.
Mas ao que me parece ficam muito pelas piscinas dos condomínios durante o dia e restaurantes e discotecas à noite.
Queria conhecer aí uns Angolanos de raiz.
Tenho de ver se conheço alguém com gostos mais parecidos com os meus.
Mas os motoristas parecem-me gajos muito porreiros, ando a falar com um.
De vez em quando vamos falando.
Já consegui falar um bocado sobre a ocupação Portuguesa.
O gajo nessa altura ainda era miúdo mas já me descreveu umas cenas hardcore.
Episódios tristes da brutalidade colonialista portuguesa.

Abraços,
Rodolfo
















domingo, 2 de novembro de 2014

Mitras do Deserto

À beira da estrada no Sahara Ocidental, depois de várias tentativas frustradas, um carro parou para me dar boleia. Já me havia despedido de Lisboa há um mês e de repente ia passar a fronteira para um país onde não havia nada, excepto areia e o Atlântico.

Até lá chegar só ouvia histórias contadas em francês, de que havia um manancial de minas no troço de 5 km, que separava os dois países. Nessa área não havia estado, polícia nem lei. Era a terra de ninguém.





















De repente, o nosso carro atascou na areia, e no instante a seguir, três carros surgiram das dunas, carregados de pessoas com turbante. Gente do deserto. Só me imaginava no filme Madmax.

Apoderou-se a tensão do nosso carro e o pôr-do-sol só agudizava ainda mais as coisas. Saí da viatura e falei com eles em francês, para então perceber que ali estavam apenas para fazer negócio. Argutos, depressa perceberam o problema e vieram para nos tirarem da areia.

Assim foi, mas a mudez do instante, as minas e a ausência de estado tornaram tudo imprevisível.
 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O que se passa em Portugal?

Notícias, pessoas, conversas. Passeios no Jardim da Estrela, ao centro de Lisboa. Um frenesim, melancolia e estática. Ao ver as notícias, as pessoas e o mundano, tudo continua igual. Mas cada dia que passa sei que estou certo. Sei que a governação deste país é cronicamente inviável, difícil e muito desempoderadora. 

Há uns anos atrás, numa altura em que visitava uma quinta nas serras algarvias, um alemão cientista auto-didacta (quer isto dizer que desenvolvia tecnologia de plasmas na sua pequena casa na montanha!), e lá a viver há mais anos do que os que estou vivo, me dizia: “Vocês portugueses têm um problema de confiança. Têm medo de conseguir!” E sim, sem dúvida. Cada vez mais concordo com ele. Temos que nos impor. E sim, cabe-nos mudar a situação atual. É o desafio da nossa geração, de romper com estas teias de mendicidade europeia, a que nos temos agrilhoado ao longo das últimas décadas. 

As pessoas são o essencial em Democracia. Relembrando a etimologia desta palavra, temos “Demos” e “Cratos” em grego. O poder do povo. Mas sabemos que se passa o contrário. Um povo, uma classe política e um país subjugados ao dinheiro, ao lucro, à necessidade de as empresas criarem o capital, do qual, claro está, apenas uma ínfima parte é para pagar os rendimentos dos assalariados. O grande problema disso é que é negligenciada uma importante parte da equação: as pessoas. Os portugueses não são empoderados. Porque poucas vezes se lembram deles. A começar pelos políticos, depois a continuar pelos próprios portugueses, que poucas se vezes se lembram uns dos outros, enquanto grupo, enquanto colectividade, enquanto povo soberano do seu destino, e claro, porque muitas vezes, nós mesmos, não nos lembramos de nós também. O tempo, o dinheiro, a família, os amigos, o trabalho, os superiores, as notícias. A vida pode dar-nos a felicidade, mas a quantos portugueses é que ela bate à porta?

Neste momento, a nós portugueses, não diria “Sim, podemos”, até porque essa linha tem direitos de autor, e para copiar, os espanhóis já usaram isso num partido da sua sociedade civil. Diria antes, “Portugueses, do que é que estamos à espera?!!!” Não temos que seguir fulano ou fulana. Apenas temos que nos seguir a nós mesmos. Dentro de nós temos a resposta a tantas questões. É a nossa inteligência tanto racional como intuitiva que deve reger as nossas acções e não a de mais ninguém. Se isso está a acontecer, é porque o poder não está desagregado, e é porque a nossa opinião está a ser posta de lado, nem sequer indagada.

Nos dias que correm, o grau de instrução dos jovens, mesmo ao nível do ensino obrigatório, permite analisar e decidir o quotidiano com um grau de conhecimento muito acima do que havia há algumas décadas atrás em Portugal, na Europa e no Mundo. No passar dos dias, vão-nos pedindo coisas que não achamos correctas. E claro que há coisas e coisas, e temos que ponderar o seu real valor. Mas não podemos aceitar o que vai para além do razoável. A tua voz conta. E a voz do teu pensamento. A frustração de ir para casa com ideias que não foram expostas ou debatidas, não vale a pena, e na espuma dos dias, degrada este país. Levantemos a nossa voz. Pensamento já o temos. Confia em ti.

Foto de Pete

Foto com licença Creative Commons para Pete - www.flickr.com/photos/comedynose/4643185598

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Sou emigrante. Por vários motivos, um dos quais porque sou uma "nómada sedentária". A frase "wherever you go, there you are" sempre me fez sentido, mas agora ainda mais.
Sou portuguesa, está-me nas moléculas o sal do mar, o clima ameno, todos os "inhos", o bacalhau, o cozido, o bom vinho, os pastéis de nata, o verde do Minho, o azul cinza do Tejo, a planície do Alentejo, a ria Formosa, as cores dos Açores, os queixumes, os brandos costumes, os cravos. Eu quis negar, mas sou.
 As razões que me levaram a partir estão na minha genética, literalmente. Fez-me partir a pacatez do povo que nunca pegará em armas para fazer revolução. Os meus genes fazem-me ir a manifestações, escrever reclamações, ter raiva, ter vontade de pôr bombas. Os meus genes ditam-me a completa inapetência para usar a violência mesmo contra os canalhas que continuam impunemente a estragar a vida e o país. Os meus genes ditam-me a aventura, a capacidade de adaptação, a delicadeza, a saudade.
Já não penso que somos desorganizados, sei agora que Portugal é um país limpo, "arranjadinho", lindo. Sei que a nossa maior qualidade é a nossa maior fraqueza: somos tolerantes.