sexta-feira, 19 de junho de 2015

Despertar no Bairro

Famoso pela vida boémia e algumas casas de fado, mas também pelos relatos de violência, excessos noturnos ou a prostituição de outrora, o Bairro Alto não costuma chegar até nós pelos melhores motivos. Mas nessas mesmas ruas habita uma comunidade de várias idades, origens e profissões que todos os dias se levanta e se deita, num dos locais onde a noite lisboeta acontece. Num passeio matinal, fomos conhecer algumas pessoas deste bairro.

"Para mim, o mais difícil era adormecer. Acordar sempre foi um sossego."
Sr. Agostinho – Padaria “Os Bolos”

Subindo a Rua do Norte às 7H30 da manhã, o comércio está ainda fechado. Cruzo-me com o Sr. Humberto do talho, que distribui peças de carne pelas casas do bairro. O camião do lixo termina a recolha. Bárbara, caminhando misteriosa e de poucas palavras, chega a casa depois de uma noite de trabalho, enquanto escreve mensagens no telemóvel. Bato à porta d'Os Bolos, nome pelo qual já conhecia esta padaria no topo da Rua da Rosa. Está aberta todo o dia e toda a noite. O Sr. Agostinho, ribatejano, trabalhador de camisa de cavas branca e braços tatuados conta-nos que faz pão de dia e de noite, há 33 anos. "Hoje rendi de madrugada e só saio daqui ao final da tarde." Diz orgulhoso de si mesmo. Durante 15 anos viveu no prédio em frente à padaria e confessa: "Para mim, o mais difícil era adormecer. Acordar sempre foi um sossego. Mesmo nos tempos e que havia muita prostituição, o barulho era muito pouco durante a noite." A segurança nos últimos 10 anos tem sido também um problema, indica: "Hoje já não há respeito pela Polícia. Não têm medo deles. À noite já vi de tudo. Até já fizeram graffities aqui à entrada da padaria." Por estes motivos, mostra-se favorável à vídeo-vigilância e opina que o uso desta tecnologia pode melhorar a segurança de todos. Hoje é o seu dia de aniversário mas como prenda, oferece-me uma merenda folhada, ali mesmo cozinhada por ela, na panificadora. As ruas do Bairro durante esta manhã fresca de Outono continuam a padecer de uma estranha normalidade, para quem possa estar mais habituado à copofonia noturna.


Tempos de Outrora

“Antigamente as manhãs tinham outra graça! Acordava com os jornaleiros, os vendedores de rua dos figos da capinha rota e as lavandeiras de Caneças que todos os dias nos limpavam a roupa. Ah, e os ardinas! Por vezes até via jornais a voarem das mãos deles para as varandas do terceiro andar.” Dona Maria da Pensão Atalaia.

Dona Maria Dominguez, proprietária da Pensão Atalaia costuma trabalhar durante a noite. Sai do serviço às 9H30 da manhã e a esta hora dirige-se à leitaria de esquina na Rua da Atalaia para comer algo antes de dormir. Com o vagar da idade vejo-a entrar apoiada no balanço da bengala. Senta-se e depois de introduzida na conversa pelo dono da leitaria, partilha esperançada o seu saber acumulado em 70 anos de vida e de trabalho no Bairro Alto. “Antigamente as manhãs tinham outra graça! Acordava com os jornaleiros, os vendedores de rua dos figos da capinha rota e as lavandeiras de Caneças que todos os dias nos limpavam a roupa. Ah, e os ardinas! Por vezes até via jornais a voarem das mãos deles para as varandas do terceiro andar.” Relembra com saudades de outrora. “As manhãs de hoje são mais calmas” aponta, em oposição à vida do antigamente. Mãe, avó e bisavó, Dona Maria está preocupada com o futuro das próximas gerações. Da janela de sua casa ou da receção da sua pensão espreita pela janela para ver o que se passa nas ruas do Bairro Alto durante a noite. “As raparigas agora são as piores! Bebem mais do que os rapazes.” Fala do seu neto como exemplo, jovem de 20 anos que várias vezes depois de beber um copo na noite, prefere dormir em casa da avó, em vez de conduzir embriagado até à Margem Sul do Tejo, onde reside. Mas conta também que já ela mesma sofreu situações incómodas de assédio por parte de jovens embriagados nas noitadas, ao entrar e sair do seu trabalho, a Pensão. Também aponta a alimentação dos dias de hoje como um problema que pode afetar os jovens. “Já não comem a comida feita com a dedicação de uma avó ou de uma mãe, apenas querem hambúrgueres. Assim os jovens não crescem da mesma forma”. No Bairro Alto contudo pode encontrar uma série de bons locais para comer refeições que o irão satisfazer. Por exemplo na área da gastronomia tradicional recomenda-se o Pap'Açorda ou o Bota Alta, na comida oriental o Ghandi Palace ou o Calcutá, na world-fusion o Sul, ou a quem preferir os pratos japoneses indica-se o Novo Bonsai. Os habitantes locais sentem melhorias na qualidade do seu descanso desde que os bares passaram a fechar às 2H da manhã. Mais recentemente, às 3H nas noites de sábado e domingo. Apesar de tudo, adormecer continua difícil e esse é um ponto de acordo entre os locais com os quais conversámos. A conversa acabou hospitaleira, como não podia deixar de ser com a dona de uma Pensão, e a Dona Maria ofereceu-me um café, antes de seguir caminho.

"Bom Dia!" de Franck Grenier - Licença CC BY-ND 2.0


Ruas Limpas

Os riscos nas paredes podem ser piores mas os graffities bem feitos até acho bem.” Sr. José, varredor, funcionário da higiene urbana.

Durante as noites ébrias deste bairro da cidade são dispensados milhares de copos de plástico. José é um dos trabalhadores que os varre durante o dia. Jovem de 30 anos que vem todos os dias da Damaia para o Bairro Alto. Aqui trabalha há um ano e desde que começou, já nota diferenças no volume de sujidade que encontra pela frente em todas as suas jornadas. “Desde há poucas semanas quando proibiram as lojas de conveniência, já não se veem garrafas de vidro no chão das ruas. Assim e melhor, agora são só copos de plástico.” Entra no emprego às 7H e varre as ruas durante a manhã com outros dois colegas, desde o topo do Bairro Alto, junto à Rua de São Pedro de Alcântara até ao Largo do Camões. Os graffities são habitualmente considerados pelas autoridades um problema de poluição visual, mas quando questionado sobre este tema, José mostra-se à vontade: “Os riscos nas paredes podem ser piores mas os graffities bem feitos até acho bem.” Aprova os murais que conhece na Damaia na Cova da Moura, junto a onde mora. “Essas pinturas trazem cor à área.” Deixa a sugestão que talvez pudessem fazer o mesmo no Bairro Alto: legalizar algumas paredes onde possam seja possível pintar esses murais. Nas paredes de várias ruas do Bairro Alto, nota-se o trabalho das brigadas anti-graffity que a Câmara Municipal de Lisboa – CML tem financiado. Além de várias paredes sem pinturas e tags, esta última a assinatura de cada pessoas que pinta murais, é patente o trabalho que as brigadas têm levado a cabo. Até se veem limpas, as lajes e pedras que revestem as portas de rua dos antigos prédios do Bairro Alto. Os posters de evento, festivais e marcas que habitualmente invadem as fachadas dos prédios são cada vez menos, indica José. Agora existem placards próprios colocados pela CML que têm reduzido a poluição visual. Para saber mais sobre a sua profissão, José sugere-me falar com Rute, também varredora de rua. Ela é jovem e pratica o ofício há pouco tempo. Confessa que é agradável para ela trabalhar naquele bairro. Sobre a abastada quantidade de copos que todos os dias encontra pela frente, desabafa: “Quanto mais lixo houver, melhor para mim... mais horas extra recebo!”.


O Bairro

Nessa altura, apesar da má fama, os clientes eram mais educados. Dantes a segurança era melhor.” Fernando, co-fundador do estabelecimento “Pérola do Oriente”.

Atualmente apenas duas mercearias continuam em funcionamento no bairro. Já a Dona Maria contava saudosista que vários estabelecimentos de comércio tradicional fecharam nas últimas décadas, dando lugar a casas de diversão noturna. Em funcionamento há 28 anos, a “Pérola do Oriente” na Rua da Rosa é um dos locais onde ainda podemos comprar produtos frescos durante o dia. Estabelecimento de dois irmãos, e mais conhecido por isso por “Os Irmãos”, divide-se entre um café e uma mercearia. O café, já preenchido de afluência pelas oito da manhã, é separado por vidros interiores da mercearia, onde com mais calma se pode conversar com um dos empreendedores. Fernando conta que ali está naquela área da cidade há 28 anos e tem assistido a muitas mudanças. Quando questionado sobre a insegurança no Bairro Alto, dá-nos o exemplo dos anos 80 de quando aquelas ruas eram muito rotinadas por prostitutas, durante a noite. “Nessa altura, apesar da má fama, os clientes eram mais educados. Dantes a segurança era melhor.” Ali trabalha durante o dia: entre às 7H e sai às 20H e assim evita as horas notívagas de maior azáfama. A meio da manhã pelas 10H30 ficam para trás as ruas do Bairro Alto. Várias lojas de roupa, calçado e discos estão ainda por abrir, à tarde. Ao caminhar diante o jornal “A Bola” os repórteres discutem a atualidade desportiva e as suas tarefas vespertinas. Dos restaurantes, já de portas entreabertas, emanam inebriantes os aromas da gastronomia portuguesa, que serão depois servidos ao almoço.

Área histórica da capital portuguesa, o Bairro Alto é frequentado de noite e habitado de dia. Aqui se encontra a boémia noturna mas também uma vida própria diurna, recheada de histórias e vontade de as partilhar.


João A.

domingo, 3 de maio de 2015

Festa berbere

O luar iluminava a nossa marcha silenciosa pelo apertado caminho, de argila seca e de pedras soltas. Sentiam-se os aromas de ervas de montanha, queimadas do fim do Verão, e tudo o que se ouvia era o gorgolejar do pequeno riacho do vale e um grilo aqui e acolá. De tempos a tempos parávamos, para distinguir algum outro som, mas nada, ainda não se ouvia mais nada.
Segundo Ahmed, as quatro ou cinco aldeias berberes ali perto eram a única presença humana nos cumes desta zona do Atlas marroquino, acessíveis apenas por caminhos de cabras. Era uma delas que procurávamos.

Horas antes, o jovem pastor berbere passara com o seu rebanho pelo lugar onde havíamos montado as tendas, no sopé de uma das montanhas, perto de uma cascata. Talvez porque lhe despertámos curiosidade – afinal, éramos estrangeiros – não resistiu a convidar-nos para o casamento que nessa noite se celebrava num dos povoados.



Ahmed não tinha a certeza sobre qual das aldeias estava em festa, mas ao fim de umas horas de caminhada no escuro, escutámos por fim os sons alegres de celebração. Seguimo-los. Pouco depois, um pequeno conjunto de casas claras com luz de fogo dentro rompeu a escuridão, ao mesmo tempo que chegava até nós a melodia de um coro de vozes masculinas e o ritmo de tambores, cada vez mais próximos.

Ao entrar na aldeia, vimos um círculo de homens apoiados nos ombros uns dos outros à volta de cinco ou seis mulheres de várias idades. Dançavam e cantavam uma melopeia repetitiva, de túnica e chapéu muçulmano, alguns de turbante. Mergulháramos noutra realidade, ou tempo. Era difícil de conceber que ainda houvesse um mundo de asfalto e postes elétricos lá fora.
Uma luz fraca mas quente dourava a festa, no espaço comum da aldeia. A agitação dos homens, que iam girando num círculo coeso e percutindo nos tambores de pele de camelo, contrastava com as figuras estáticas das mulheres, sentadas no centro, vestidas de cores claras e de olhar firme. Uma delas tinha uma renda branca a cobrir-lhe a cara, talvez a noiva.
Nós, convidados acidentais, éramos alvo de olhares discretos e curiosos, mas o ritual seguiu como se não estivéssemos ali.
Num impulso, misturámo-nos. Entrámos para a roda dos homens, os nossos ombros nos deles, girando e imitando-os nos cantos. O ambiente tornou-se mais sorridente.

Pouco depois, alguns de fora do círculo conduziram-nos, gentis, para dentro de uma das casas brancas e simples, iluminada por velas que traziam nas mãos e mostravam os tapetes de cores vivas, a única mobília. Sentámo-nos em roda e veio chá e mel das montanhas. Falavam-nos em berbere e respondíamos em francês simples com duas ou três palavras de árabe. Não nos compreendíamos exatamente, mas ninguém pareceu importar-se. O ritual continuava lá fora, desta vez reservado aos participantes originais.

Já noite densa e decidimos voltar ao acampamento, havia que encontrar o caminho de volta. Entrámos de novo no escuro, e o coro e os tambores foram ficando para trás, muito para trás, assim como os nossos anfitriões, o mais recente casal berbere das montanhas do Atlas marroquino.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Parabéns à Madalena

Fonte: Site da Casa da América Latina
A propósito da participação da Madalena, membro da Portuguese Riders Crew, no stand da Casa América Latina na Bolsa de Turismo de Lisboa 2015. Parabéns!

[Testemunho de Madalena, participante na partilha de experiências “Eu fiz o Mochilão na América Latina”, promovida pela CAL na Bolsa de Turismo de Lisboa]

“El Salvador, estás maluca?!”


Já se passou mais de um ano desde que sai de El Salvador e se alguém me pergunta algo simplesmente não me calo de emoção. Quando parti para a minha viagem pela América Central ia 100% segura que jamais passaria por El Salvador. Fora de questão! Claro que como em tudo na vida as surpresas aparecem sempre quando menos esperamos.

Estava numa noite relaxada no dormitório de um hostel em Antíngua quando recebo um email a dizer: “Vê lá que por aí onde andas há um surto de dengue…” Não tinha visto notícias, nem ouvido falar de nada então decidi informar-me perguntando alto: “Alguém sabe se aqui perto há um surto de dengue?” Três cabeças espreitaram lá do alto dos beliches e disseram: “Há sim, nas Honduras.” “Acabei de vir de lá e a coisa não está boa.” Isto não eram boas notícias, havia que fazer um ponto de situação e repensar os próximos passos. Honduras não seria boa ideia, assim sendo só restava uma opção El Salvador. E agora? Vou? Não Vou?!


Foto de Madalena - Creative Commons BY-NC-ND License


















Ao longo da viagem fui conhecendo pessoas que lá tinham ido e todas sem excepção adoraram. Mesmo assim, não sabia. As dúvidas persistiam. É curioso porque este país mudou muito nos últimos anos mas os viajantes têm dificuldade em acreditar que a sua experiência tenha sido real, dizem-nos: “não sei se tive sorte mas a mim não me aconteceu nada e adorei.” Vistas as opções e a situação pensei: seja o que tiver de ser…

A chegada não foi fácil, um país onde o turismo é escasso a informação não abunda. Sabia que havia um festival gastronómico e decidi apontar nessa direcção e com receio lá fui em direcção ao temido e desconhecido El Salvador.

Os primeiros autocarros não são muito fáceis, parecemos um E.T. as pessoas olham demasiado para nós o que pode ser desconfortável. Até que alguém toma a iniciativa e fala connosco. Estes são apenas olhares de curiosidade, de estranhar uma rapariga sozinha de mochila às costas por aqui, de onde vem? Para onde irá?

Escolhi por acaso o hostel Casa Mazeta onde fui recebida como se da minha família se tratasse. Em plena ruta de las flores encontrei o local a que chamei casa por um mês e meio. Em Juayúa todos os fins-de-semana há um festival gastronómico com várias especialidades, onde um prato com vários tipos de carne, batata, arroz, salada, camarão e outras iguarias bem saborosas nos custa apenas 5 dólares. Juntamos a boa música ao entretenimento, à alegria dos salvadorenhos e temos um prato cheio. Perto de Juayúa fica Concepción de Ataco, uma pequena vila com murais coloridos pintados nas casas que nos dão a sensação de andar a passear por um verdadeiro desenho animado. Uma vez por ano, em Setembro, cumpre-se uma tradição com mais de 200 anos, todas as casas e ruas de Ataco enchem-se de farolitos que iluminam com velas as suas ruas é o festival Los farolitos de Ataco. Fazem-se uns passeios pelas fincas de café, descendo sete cascatas pela floresta e a nossa passagem por este encantador país torna-se inesquecível.

Por tudo isto digo sempre: Vão a El Salvador! Mais que a gastronomia, as cores, a música, os vulcões, as praias da América Latina, El Salvador, são as pessoas. Boa gente que te diz um Hola com um sorriso, que atravessa uma cidade apenas para te ajudar, que se aproxima para saber de ti, do teu país e se gostas do seu, que quer praticar o seu inglês e deixar sempre uma mensagem de boas vindas: Que desfrutes El Salvador!

É assim que o que mais parecia uma loucura descabida passou a ser uma experiência inesquecível, a receita foi simples tal como em todos os países vizinhos há que ter cuidado, seguir as regras e o bom senso, mas mais que tudo há que abrir as portas a conhecer um novo mundo e desfrutar de El Salvador.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Madrid em 24 Horas

Já passava das cinco da manhã quando entreabri os olhos e esbracejei do colchão para fora até alcançar o despertador digital e desligar o som. “Vamos! Já passa da hora.” Dentro de poucos minutos estávamos no carro e a caminho de Madrid. Íamos os dois celebrar o 14 de Fevereiro mas também visitar o meu irmão que agora está por lá a viver. Banhado pela aurora matutina, o montado alentejano prolongava-se belo e familiar, desde a nossa margem sul do Tejo até para lá de Elvas. A estrada seguia sempre calma, naquele sábado de manhã. A fronteira já não existia e ainda me admirava como se não o soubesse já de antemão. Confesso que receava algum motivo prepotente para pararem o meu carro. Se a polícia em Portugal é desmedida e desproporcional, nunca se sabe como será a do país vizinho. São cada vez mais síncronas, e as diferenças entre os dois povos não são assim tantas. Deve destacar-se que as auto-estradas por lá não são pagas, e isso, numa viagem já faz a diferença. Já passava das duas da tarde na hora local, quando transitávamos num dos bairros mais chiques de Madrid, ou como se diz por lá, um dos mais “pirros”. As ruas, as fachadas e as pessoas estavam bem arranjadas. Impressionou-me que os peões assumiam o protagonismo da estrada, dado os passeios serem largos, por haver apenas um sentido automóvel, e mais importante ainda, devido aos veículos só poderem circular a 30 quilómetros por hora, máximo. Zona de velocidade reduzida. O meu irmão aguardava uma leva de instrumentos musicais que lhe prometera levar. Em complemento ao seu trabalho integral, dedicava-se à música, a sua paixão verdadeira e de longa data. À hora de almoço, era impossível não petiscarmos algo onde ele trabalhava. Tempo apenas para ir até ao nosso Hotel, ali ao lado sito no mesmo bairro, fazer o “check-in” e regressar. Depois de petiscarmos uma tarte de bacalhau acompanhada de uma “caña”, e rematar com um pastel de Nata, Lisboa estava definitivamente para trás e doravante aguardava-nos Madrid. Ao caminhar até à estação de metro mais próxima, “Vergara” o vento frio e cortante já se fazia sentir no rosto. O “barbeiro” como se diz no norte e se lembrava a Sofia. A cidade situa-se num planalto, sensivelmente na latitude do Porto e está rodeada no horizonte de montanhas repicadas de neve. As ruas mesmo frias conquistavam-me grandes e organizadas que eram. Assim como o Metro, abrangente e funcional, não obstante as estações e as carruagens serem mais espartanas e pragmáticas do que as da nossa cidade natal.



Museu Nacional - Centro de Arte - Reina Sofia


A estação que mais nos deixa no centro chama-se “Sol”, local das famigeradas e revolucionárias acampadas de 2010 e 2011, réplica das do Rossio em Lisboa, refira-se também. Ali, mais do que noutro lugar da urbe, sentia-se o bulício citadino de uma cidade de seis milhões, também em processo de auto-análise política e social. Várias vozes se faziam reclamar na via pública. Por exemplo os movimentos depois assumidos como partidos “Podemos”, ou a sua contra-versão “Ciudadanos”, etc. Mas o Carnaval ainda ludibriava muito as atenções de causas políticas. Desde as “Puertas del Sol” caminhámos ao todo por duas ou três horas. “Calle Mayor” abaixo, até à respetiva “Plaza Mayor”, enclaustrada por firmes fachadas vermelhas, o tom nacional, e que nos eram recordação de um imaginário construído de imagens televisivas e de vetustas memórias. Como este fim-de-semana era também de Carnaval, julgámos nós que por isso, havia vários artistas locais que tentavam pregar sustos aos mais incautos. No centro da Plaza Mayor, malabaristas, estátuas humanas, homens invisíveis cirandavam por entre nós, constituindo o centro das atenções daquela bela praça. Logo ali ao lado encontrámos o Mercado de San Miguel, arrebatado por dentro e ladeado por esguias, atraentes e ajeitadas ruas, relembrando algo de Alfama. No início da nossa caminhada, ainda junto à Praça, deparámo-nos com a invulgar vitrina do “Museu del Jamón Ibérico”. Um amontoado de pernas fumadas de porco, expostas como se de um talho se tratasse. Mas claro que o paladar desta iguaria, tão singular que é pela região ibérica, merece o Museu. Apenas discutiria a sua forma. Ao fim da avenida principal depara-se com um palácio gigante, possante, até desmedido e exagerado. Como se arranjou espaço para isto? Perguntava-me. Fomos passeando em vez de questionar. De frente para ele, está também a Igreja Catedral da cidade, ponto de onde se avista a extensão urbana sobre um dos ângulos de Madrid. Vadeando o Palácio Real, no qual os atuais reis rejeitaram viver, por ser um excesso de opulência e uma incoerência num país que atravessa também, embora menor, uma crise económica. Os seus jardins conquistaram-nos por serem abertos ao público, singelos, harmoniosos e nos permitirem tirar uma boa fotografia, cartão postal da cidade. Um simpático casal de Madrilenses acercou-se para me perguntar se queria uma fotografia. Momento de diálogo ecuménico que acabou por ser uma troca de registos fotográficos no “iPhone” de cada um. De novo no Metro, fizemo-nos valer de um bilhete de 10 viagens, possível de ser partilhado por vários passageiros. Seguimos até à estação “Atocha”, a mesma onde os bárbaros atentados de 11 de Março de 2004 sucederam. Aposto à gare, está o “Museu Reina Sofia”, ao qual por desempate demos primazia sobre o Museu do Prado. Por ser um centro de arte moderna, por ter várias obras de artistas famosos como Salvador Dali, Pablo Picasso, Joan Miró, entre outros mais. Para além disso, apresenta um misto arquitetural de novo e antigo, em duas zonas distintas por onde lá se pode visitar arte. E por termos apenas 24 horas também!



No regresso, fomos repastar-nos com um lanche num café / “snack”, momento em que tivemos uma primeira altercação. Sempre dei o meu melhor para comunicar num castelhano o mais completo e percetível que podia, mas não sei se por se notar alguma distonia sonora, se por antipatia crónica, os modos com que nos atenderam nesse lanche e no pequeno-almoço seguinte, deixaram a desejar e colocaram-nos a refletir. Na mesa da janela, contemplava os urbanos locais a circularem nas suas ruas. Estava longe de casa, a cerca de 800 quilómetros, mas ao mesmo tempo eram-me todos algo familiares aqueles semblantes. Mas no fundo falavam outra língua, viam outras notícias, votavam noutros sistemas, e tinham várias origens diferentes. Aí sentia a Madrid cosmopolita, diversa, mesclada. Logo à saída do Metro, atentara num grupo de jovens ativistas, que ultimavam cartazes de manifestação, pareceu-me de relance que seriam pela liberdade sexual, contra o tradicional dia de São Valentim. Pouco depois, enquanto comíamos uma parca tosta e um chá de “manzanilla” no tal café / “snack”, do outro lado da rua, já se reuniam mais manifestantes. E a polícia municipal já condicionava o trânsito, naquela que é uma das mais movimentadas praças da cidade. No dia seguinte, novamente esta praça estaria interdita devido a um marcha de protesto. De retorno às carruagens do metro, ecoavam duas vozes, uma masculina que tonitruava estereofonicamente “Próxima Estación”. E uma feminina que logo de seguida anunciava mais singela o nome da estação: “Príncipe de Vergara”. Já não me surpreendia e até despoletava boas memórias, dos “skits” do Manu Chao no seu segundo álbum a “solo”, assim como do do metropolitano de Barcelona. De regresso, tínhamos que agilizar o jantar, processo que demorado, paciente e indeciso, acabou, como sempre, por se resolver a ele mesmo. Acabámos no bairro de “Salamanca”, num restaurante não programado, depois de algumas tentativas goradas, a jantar carnes grelhadas, acompanhadas de pão branco espanhol e vinho da região demarcada “La Rioja”. A Sofia, o meu irmão e eu, na ampla cave do restaurante “Olvido” também ele “pirro”, não fossemos estar na área do estádio Santiago Barnabéu, do Real. O melhor da noite ainda estaria para vir, pois era o motivo da nossa deslocação até aquele bairro. O meu irmão ia depois subir ao palco para tocar guitarra numa “jam session” de “blues”. Os dois “solos” de guitarra que nos presenteou foram complexos e dignos de registo. De regresso ao Hotel de táxi, a chuva de pingos frios fez-se sentir numa Madrid molhada em noite de romance.

No dia seguinte, as “calles” asseadas, o ceú limpo e sol impeliram-nos até à Praça “Colón”, onde está a homenagem ao Cristóvão Colombo, aí claro reclamado espanhol e não português de Cuba. De lá avistámos a Praça “Cibeles”, onde tantas vezes se gravam as peças dos enviados especiais da televisão. Com objetivo em mente de aí ingressar num autocarro turístico, aguardámos na paragem ali mais próxima. Os bilhetes não eram convidativos, pelo seu preço e pelos vários cortes no trajeto habitual devido às manifestações no centro. Mas aguardámos na paragem. Um numeroso grupo familiar espanhol apoderou-se do espaço na paragem, passando-nos à frente, e quando o autocarro chegou, subiram primeiro. Quando chegou a nossa vez de comprar os bilhetes a motorista pergunta-me: Están com esta familia?” Ao que retorqui com a verdade. Momento então que me dizem que já não há lugares. O embate foi desnecessário e injusto, pois fica a estupidez no ar derivada de se que fizéssemos parte do grupo, então já haveria lugar para mais dois. A matemática não pode enganar. E claro que não recomendo este serviço turístico da cidade. De todo. Por dois motivos: - Primeiro porque só existe praticamente um serviço que resulta de uma parceria entre duas das maiores empresas de transporte de pessoas em Espanha. Ou seja, não há concorrência ao contrário de Lisboa. - Depois porque o preço é exorbitante. Além do mais, muitos hotéis só sabem dar informações sobre este serviço. Poderia ser por ser bom, mas não. Antes parecia um suave cartel. Achara que o áudio-guia que se ouve neste transporte valeria a pena, mas novamente o péssimo atendimento ao turista da cidade, impele-me a desaconselhar. Como alternativa, e como já eram quase as 14 horas locais, pegámos no carro e seguimos nós o trajeto demarcado no mapa do prospeto daquela mesma empresa. Numa lógica “faça você mesmo” que confesso, me devia ter logo lembrado.



No fim, à saída da cidade, procurámos com paciência, tempo e cuidado a saída certa da radial mais interna da cidade, a M30, para a auto-estrada A5-E90 que cruzando alguns parques de energia solar pelo caminho, nos levaria de novo à fronteira, demarcada pelo Rio Guadiana que corre incessante sobre a Ponte José Saramago. O regresso às portagens, à condução atacante, à crise social aguda de valores materiais e intangíveis, ao trabalho e à resmunguice. Um fim-de-semana de alinhamento com as viagens, com as minhas paixões, e o meu irmão emigrado dentro de uma união de estados agora sem fronteiras. No fim de contas sentia-me viajado por entre um ambiente fraterno. Retinia a ideia que um amigo meu me dissera semanas antes: “na península ibérica somos principalmente influenciados pela cultura moçárabe”. E acrescentaria, que fomos apartados por reinados, interesses comerciais e ainda o somos pela legítima auto-determinação, mas estamos também unidos por um passado partilhado de coexistência pacífica tanto como de embates entre islâmicos e católicos.




João

domingo, 11 de janeiro de 2015

Je Suis Charlie

Em solidariedade com os familiares e amigos das vítimas do ataque hediondo e injustificável que aconteceu em Paris.

Claro que os muçulmanos não pensam e nem actuam da mesma forma que os radicais que perpetraram esta barbárie. Neste momento evitemos as generalizações.






domingo, 4 de janeiro de 2015

Dois Poemas - poesia de viagens



I


Dia de chuva em Lisboa,
Dia de Carnaval no Mundo
E eu com vontade de viajar à toa
Aprender, conhecer-me a fundo.

Quando saí de casa, em mim não acreditaram.
Viram-me a sair e depressa exasperaram.
Antes de fechar a porta, desejaram-me boa sorte
E esperaram também que passasse depressa esse corte.

De comboio rumei a Foros de Amora
O meu destino por agora.
Quando lá chegado ergui o polegar
E logo na estação de serviço comecei a indagar.

Até que um casal,
Que voltava para Espanha
Me deu boleia,
Sem de mim suspeitar de qualquer manha.

Próxima paragem: Andaluzia
Com uma paragem rápida em Sevilha.
E não sei se por azar ou por sorte
Nesta cidade tornei-me mais forte.

Quando um grupo de agentes me apanhou desprevenido
Encostou-me à parede e deixou-me em sentido.
Revistaram-me de alto a baixo e pediram-me a identificação
Fiz-me difícil e logo lhes disse que não.

No final de contas, eu estava legal
Pois sou um viajante do vizinho Portugal.
Ainda me perguntaram para onde é que eu ia
E no final um deles para a viagem me advertia.

Chegado ao destino, constato o que se diz:
Que em toda a Espanha, o melhor Carnaval é o de Cadiz.
Com os hotéis cheios e sem contactos ali,
Só me restava erguer o polegar assim.

Aguardo, pergunto e não desisto,
Até que me pasmei com o que tinha visto.
Uma jovem donzela com um olhar de anjo
Maquilhada, espanhola, conquistou-me com o seu encanto.

Diz que me deixa no seu conforto
mas apenas se fizermos um acordo.
Vou ter que contar ao seu namorado
que venho da parte de um outro seu contacto.

Aceitei, até porque estava de passagem
e sem sítio onde dormir.
E no final da estadia, ela levou-me à paragem
para o meu caminho prosseguir.

E se alguém um dia me perguntar,
o que fui fazer a Tarifa
Posso dizer que lá fui,
e lá me saiu uma rifa

Hospedado pelo Couchsurfing
num Hostel em construção
Enquanto trabalhava
Conheci o fundador de um site de jogos de viciação

E lá tive conversas de inspiração
De que somos capazes mas que achamos que não.
E que é esse mesmo sonho que nos faz alcançar
E do meio do nada, fazer o mundo girar.






















II


Era a alma e a dor

de ver o mundo no seu devir
no limbo indiscriminado do improviso, inconsciência e sentir.
Era a adrenalina da mente social.

Para onde rumamos,

quem nos guia,
que valores preservamos
e nos seguram dia-a-dia.

Não se trata de nada de facto.

E na raiz da questão.
não pretendo nada
analisando bem a intenção.

Deixar escrito,

aliviar o sentimento,
procurar identificantes.
Ser amado.

Ainda mais?

Dizem-me que é a maior necessidade do ser humano.
Muito agradeço aos meus pais.
A eles, todos os meus dias e não a quem nos governa neste país.

Terra do sol poente,

na testa da Europa, outrora.
Agora marchados por cima, agredidos pelo norte,
vilipendiados e sacudidos pelas instituições internacionais.

Que sentido?

Que humilhação?
Bandidos, burros, banalidades
Nós sempre sujeitos às causalidades.

Económicas, sociais

Às dinâmicas do planeta
O que será deste recanto
dentro de vinte, trinta anos?

Num mundo

agora inexplicável
prevendo-se com mais água
e menos comida per capita.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Mensagem de Angola

Numa conversa no Skype, entre Lisboa e Luanda, a 8‎ de ‎julho de 2014 pelas ‎23‎:‎50.

João:
Então man,
Tudo fixe aí na Banda?

Rodolfo:
Ainda me estou a ambientar.
Mas yap, está-se bem.
Esta zona é OK, o trânsito é normal e estamos na estação do Cacimbo [1].
A temperatura é mesmo fixe.
Aqui há supermercados e tudo o que temos aí.
Quanto à temperatura está por volta dos 20º C, de dia e de noite.

De resto ainda estou a começar a perceber o potencial disto.
O único contacto com a Angola de verdade, é através dos motoristas.
Estou à procura de um bocado de animação cultural.
Ainda não me habilitei a sair fora dos condomínios.
Amanhã vou dar uma volta pela rua para ver.
O tempo passa rápido mas nos fins-de-semana quero ver se conheço um bocado de Angola.
Estou à procura de cursos de cozinha Angolana.
Durante a semana é só casa-trabalho.
O que for, a ver se me inscrevo em alguma coisa ao fim-de-semana para conhecer pessoal.
Os colegas da empresa são porreiros.
Mas ao que me parece ficam muito pelas piscinas dos condomínios durante o dia e restaurantes e discotecas à noite.
Queria conhecer aí uns Angolanos de raiz.
Tenho de ver se conheço alguém com gostos mais parecidos com os meus.
Mas os motoristas parecem-me gajos muito porreiros, ando a falar com um.
De vez em quando vamos falando.
Já consegui falar um bocado sobre a ocupação Portuguesa.
O gajo nessa altura ainda era miúdo mas já me descreveu umas cenas hardcore.
Episódios tristes da brutalidade colonialista portuguesa.

Abraços,
Rodolfo