O espaço de entrada é aberto, sem tecto, pintado em tons laranja e os assentos de madeira também são cobertos por estofos da mesma cor, onde nos podemos sentar e ver as estrelas, uma palmeira recortada no céu estrelado e um X lá ao fundo depois do balcão. A música é de fusão com os ritmos africanos a dar o mote. Isto cá fora na entrada. Depois passando por um alpendre temos acesso à grande pista de dança, onde a decoração não deixe esquecer que estamos em África. Mas o que dá personalidade à X é mesmo este espaço ao ar livre formando um pátio. Isto e as pessoas que a frequentam. Afinal também são as pessoas que fazem a casa.
Na X conseguimos encontrar a maior colecção de estrangeiros da Guiné-Bissau e talvez de toda a África Ocidental, portugueses e não só, funcionários de embaixadas, empresários de sucesso que agora chegam porque a Guiné-Bissau está na moda, policias que fazem segurança às embaixadas, médicos, pessoal da saúde, comitivas de políticos em digressão, diplomatas, economistas, agentes de desenvolvimento, auditores, cooperantes de todas os matizes, funcionários de ONG's, expatriados e africanistas. Um mundo que nunca se esgota cheio de permanente novidade, a merecer decerto um estudo etnográfico aprofundado.
Os mais variados organismos internacionais presentes em Bissau, e são muitos, renovam as equipes a todo o momento refrescando-as com gente que chega para render os que partem. Ainda mais agora que a ameaça do Ébola leva as instituições internacionais a reforçarem as suas equipes em permanência na Guiné-Bissau. E claro, as caras repetem-se ou renovam-se a um ritmo impreciso e imprevisível. Só mesmo vendo a cada semana. Há festas de recepção aos que chegam e festas de despedida para os que partem organizadas pelos respectivos colegas. Na X há sempre novidade.
O espaço aberto da entrada facilita a conversa e o convívio. Na X ouvem-se histórias fabulosas. A comunidade portuguesa está lá excelentemente representada e se dominar a língua de Camões, tem mais de meio caminho andado para fazer amigos na X.
A X é uma discoteca de brancos embora também lá se possam encontrar muitos negros. Uma discoteca fina onde a clientela principal são os estrangeiros, sobretudo portugueses e lusófonos. Faz lembrar o café do Rick no filme «Casablanca». Estão todos lá.
AP.
sábado, 25 de julho de 2015
sexta-feira, 17 de julho de 2015
Um Dia em Tetouan
Levantou
cedo. Uma janela entreaberta depois de um cigarro tardio deixou
entrar logo ao alvorecer, o som da chamada à oração difundido
pelos altifalantes da mesquita, acordando assim o desprevenido
viajante. Desce agora a Avenida Mohamed V, de mapa na mão, não vá
falhar o local onde é necessário voltar à direita para então
rumar à Gare «Routière» de Tânger. O trânsito é intenso àquela
hora da manhã. Repara como alguns peões se aventuram a atravessar
por entre os carros, que teimam em não abrandar mesmo nas
passadeiras, mas que acabam por parar no último instante ou
contornar os assustados transeuntes, que muitas vezes aguardam pela
chegada de companhia que lhes permita avançar em pequeno grupo e
cruzar mais facilmente a larga avenida. Não
há que enganar. Só pode ser ali. Um imenso edifício rodeado de
dezenas de autocarros. Entra e procura as bilheteiras mas não as
encontra no meio daquele turbilhão de gentes arrastando sacos e
malas. Entre os passageiros que se entrecruzam ouve então pregões
gritados compassadamente: «Rabat, Rabat, Rabat», «Chefchaouen,
Chefchaouen, Chefchaouen», «Tetouan, Tetouan, Tetouan». «Tetuan?»
pergunta-lhe um jovem agarrando-lhe o braço. Responde que sim e
rapidamente sente-se conduzido por entre a multidão até uma porta
que dá acesso a um pequeno átrio cheio de bilheteiras dotadas de
corrimões metálicos destinados a orientar as filas que se deveriam
estar a formar mas que estranhamente não existem. Não se orientaria
ali com os letreiros escritos em árabe mas também não precisa. O
jovem leva-o até um homem sentado num dos corrimões diante de uma
bilheteira vazia. Cinco «dirhams»
e recebe um pequeno bilhete completamente escrito em árabe. E agora?
Os autocarros às dezenas que estão estacionados no exterior não
têm placas indicativas, nem números ou sequer letreiros, nisso já
tinha reparado. Mas é para estas coisas que servem os guias, mesmo
que de ocasião como é o rapaz, que lhe volta a agarrar no braço e
o conduz gare fora até um dos muitos autocarros estacionados. No fim
a gorjeta claro. Tem de ser. Mas que preciosa tinha sido a ajuda,
pensa o viajante enquanto sobe para o autocarro. O veículo não é
nada novo, lá isso não. Mas não deixa de ser confortável mesmo
com os estofos já gastos e nalguns sítios rasgados. Há ainda
muitos lugares vazios. Mas os passageiros vão chegando. Um homem
vestido de forma tradicional entra e vai distribuindo uns livrinhos
pelos passageiros. A ele não, que se topa à légua que é
estrangeiro e seria incapaz de ler o que quer que seja escrito em
árabe. Depois é a vez de um vendedor de perfumes e bugigangas.
Pincela a mão de cada passageiro com uma espécie de um «baton»
que deixa no ar um perfume refinado. Este não discrimina os
estrangeiros, pensa enquanto aspira a essência com que também foi
presenteado. Em poucos minutos o autocarro enche e arranca.
Atravessa primeiro os arredores de Tânger, bairros novos de casas
baixas com árvores nas ruas depois a Estação Ferroviária onde faz
uma primeira paragem antes de se fazer à estrada. Uma hora é quanto
demora a percorrer a distância entre Tânger e Tetouan numa estrada
asfaltada e em boas condições. O viajante desfruta da paisagem. A
princípio aplanada para depois entrar na montanha verdejante e
coberta de árvores. Da janela deixa-se encantar pelos burros
albardados que esperam pacientes os donos na beira da estrada, pelos
pequenos mercados, por uma bancada que vê cheia de «tadjines», a
rainha das peças de cozinha marroquina, em variados tamanhos. Fica
com pena de não puder descer e comprar uma de barro simples, tão
diferentes das decorativas que se impingem aos turistas nas grandes
cidades.
| Vista do centro de Tetouan - de Anassbarnichou2 - Licença CC BY-SA 3.0 |
Tetouan
surge ao longe. Casas brancas descendo numa encosta rodeada de nuvens
baixas, que a Primavera em Marrocos prega destas partidas, e hoje vai
chuviscando de quando, em quando. O seu nome é de origem berbere,
essa língua antiga do Norte de África, e significa olhos, olhos de
água. A cidade tem origens muito antigas, não muito longe dali,
foram encontrados vestígios fenícios e do Império Romano. Ao
longo dos tempos muitos povos passaram por Tetouan ou não estivesse
tão próxima como está do Estreito de Gibraltar. A cidade funcionou
durante séculos como centro de ligação entre o norte de África e
o sul da Península Ibérica que estiveram politicamente unificados
até à ao final da Reconquista com a queda de Granada em 1492.
Depois da Reconquista muitos dos expatriados refugiaram-se em Tetouan
tendo a ultima vaga de muçulmanos vindos de Espanha chegado no ano
de 1609 expulsos em massa pela Inquisição. Também expulsas pela
Inquisição ali chegaram importantes comunidades judias no século
XV provenientes de toda a Península Ibérica. A cidade manteve
sempre intensas trocas económicas e culturais com o sul de Espanha e
foi protectorado Espanhol de 1912 até 1959 altura em que foi
finalmente integrada no Reino de Marrocos. Pensa nisto o viajante
quando se aproxima e começa a entrar nas primeiras ruas da cidade,
ruas modernas ladeando o rio que corre num vale verdejante situado
aos pés da montanha, coroada desde a meia encosta, pelo vasto
casario largo e branco da cidade antiga. O terminal rodoviário de
Tetouan, onde desce, é um espaço organizado e de planta moderna. Um
edifício não muito diferente de um terminal rodoviário de qualquer
pequena cidade na Europa. Surpreende-se com os letreiros bilingues,
escritos a verde sobre um fundo branco em árabe e em francês.
Repara na Sala de Orações, mas não consegue ver como ela é por
dentro, isolada que está dos olhares dos curiosos. Mesmo assim,
quando a porta se abre para dar entrada a um crente em viagem, repara
que no chão existem espaços desenhados e delimitados para a oração.
Outra surpresa, são as casas de banho. Com apenas uma torneira perto
do chão, um balde e uma bacia sanitária à turca fixa ao solo. E
não fossem estes pormenores, ou as gentes que por ali circulam, e o
viajante poderia sem dificuldade achar que estava na Europa. Mas não
está. Disso se vai aperceber rapidamente quando depois de esperar na
fila de táxis consegue entrar num e não é capaz de se fazer
entender com o taxista. Nem francês, nem inglês. Talvez tivesse
sido mais bem-sucedido se tivesse utilizado o Espanhol ou o Português
mas tal não lhe ocorreu na hora e na atrapalhação. Afinal na
cidade falou-se espanhol até aos anos sessenta e isso claro deixou
marcas. Faz uma segunda tentativa que resulta igual. Só à terceira
tentativa se faz entender e combina o preço da viagem, como todos os
roteiros feitos para turista aconselham, roteiros esses, onde
aprendeu também a distinguir os «petit táxi», das viagens urbanas
dos «grand táxi», que fazem os percursos mais longos entre
cidades. Combinado o preço, apenas 10 «dirhams» o equivalente a um
euro, arranca rumo ao centro da cidade. Percorridos apenas algumas
centenas de metros o simpático taxista acena a uma mulher e pára.
Uma amiga? Uma cliente? Fica sem saber. É hábito em Marrocos os
táxis recolherem vários passageiros durante o percurso. A mulher
entra, cumprimenta e para surpresa do viajante fala um francês
perfeito. Logo lhe dá as Boas Vindas a Tetouan e a Marrocos e
enquanto conversa traduz ao jovem taxista o que vai sabendo. Não é
a primeira vez que uma coisa assim acontece. Se os jovens em geral
dificilmente entendem uma frase em francês, as pessoas de mais idade
e de mais elevada escolaridade falam-no com fluência. As línguas
oficiais de Marrocos são o Árabe numa versão própria e o Berbere
minoritário em vários dialectos. O Francês é ainda bastante usado
nas instituições governamentais e no mundo dos negócios embora
esteja em declínio como o viajante irá perceber mais adiante quando
visitar uma livraria repleta de títulos escritos em árabe e se
deparar com uma única e exígua prateleira com não mais de trinta
títulos em francês, quase todos clássicos.
No
caminho, sempre a subir, ainda consegue ver uma manifestação de
sindicalistas com uma pequena faixa desfraldada junto à estrada mas
fica sem saber o que reivindicam. Marrocos é uma monarquia onde
alguns se queixam por vezes de ataques à liberdade de expressão e a
questão nunca resolvida do Saara
Ocidental ocupado permanece como uma nódoa sobre o país. O táxi
deixa-o mesmo no centro da cidade e ruma à Medina, a cidade antiga,
classificada como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO.
Antes passa por uma larga avenida pedonal que vai desembocar na Praça
Hassan II onde se encontra um dos acessos à Medina. A avenida está
repleta de lojas modernas e cafés com esplanadas. Os edifícios são
altos e muito bem cuidados alguns com marcas de um estilo muito
semelhante aos que se encontram em todo o sul de Espanha. A Praça
Hassan II é dos anos oitenta e nela se encontra o Palácio Real.
Sabe o viajante que a construção desta praça foi feita sobre os
escombros da antiga Praça Feddán, local de reunião emblemático da
cidade, e que o imponente Palácio Real ocupa o espaço onde estava o
Alto Comissariado Espanhol porque a História tem destas coisas e o
monarca quis ao mesmo tempo apagar os traços do anterior poder
colonial e algumas veleidades autonómicas que a
região sempre teve. Aqui ao contrário do que viu em Tânger os
turistas são poucos e o assédio de improvisados guias é nenhum.
Por isso dá uma volta descansado pelo mercado, o «souk», de uma
das laterais e aproveita para comprar um saquinho de morangos não
sem antes provar dois que lhe foram oferecidos pelo simpático
vendedor. Estavam lavados sim, e mergulhados em água numa bacia
imensa. E inflige assim aquela regra básica que houvera aprendido:
Cozido ou descascado, mas dai não lhe virá nenhum problema e os
morangos eram realmente magníficos e vieram mesmo a calhar antes de
se aventurar na Medina.
A
Medina ou cidade antiga a que se acede a partir desta praça é um
vasto e labiríntico espaço de casas baixas, imaculadamente brancas
e ruelas estreitas cercado por uma muralha com cerca de cinco
quilómetros de extensão e apenas sete portas de entrada.
Aventura-se o viajante a entrar por ali adentro sabendo de antemão
que se irá perder mas não se preocupa agora com isso. Avança nas
ruelas que se bifurcam sinuosas e espreita as lojas, perde-se na
imensidão dos produtos expostos, desfruta dos odores e das cores das
frutas frescas, dos legumes, das comidas, ofusca-se com o brilho dos
metais e das joias expostas, com os objectos de couro e madeira e vai
reparando nas portas verdes, nos ladrilhos policromos,
nas coberturas colocadas sobre as ruelas que cortam o sol, nos
artífices trabalhando nas soleiras das portas dos seus
estabelecimentos, nos arcos das casas que atravessam por cima das
ruas e formam aqui e ali pequenos túneis
que tem de transpor para chegar a novas ruelas que outra vez se
bifurcam e derivam a todo o momento noutras sempre iguais e sempre
diferentes, algumas com degraus, outras com fontes, abrindo-se em
novos recantos a cada esquina. E com isto logo se perde e atravessa
sem perceber o «Mellah», o antigo bairro judeu onde as ruas são
rectilíneas e as pequenas praças quadrangulares e descobre ainda,
quase por acaso, uma pequena mesquita isto enquanto deambula por
entre o bulício de vendedores e habitantes na sua maioria vestidos
com a tradicional «djellaba», uma espécie de robe largo que chega
até aos pés com mangas compridas e um capucho largo que termina
numa ponta em bico. E de tanto ver era certo e sabido que se
perderia. Admite agora que deveria ter seguido o conselho, que não
se deveria ter aventurado na Medina de Tetouan sem a ajuda dum guia.
Agora só perguntando. É o que
faz pois não tem outro remédio. Depois de muitos enganos e
perguntas lá consegue encontrar a saída e chega cansado mas feliz à
grande praça de onde tinha saído horas antes. Nada melhor que
descansar antes do regresso a Tânger, onde se hospedou e tem cama e
mesa à espera. Escolhe um café com esplanada, pede um chá de menta
e fica ali a olhar para quem passa. Já não estranha que no café só
estejam homens porque a isso já se habituou. Nem estranha as
diferenças nos vestuários das gentes que atravessam a rua. Porque
se muitos usam o vestuário tradicional, outros vestem-se como em
qualquer cidade da Europa. E se é verdade que a maioria das mulheres
cobre os cabelos com um véu também é verdade que outras, sobretudo
jovens, ostentam livres o seu cabelo ao vento.
Antes
de partir ainda vai entrar numa livraria. Não é grande, mas é
bonita com estantes em madeira antiga. Deve ser sem dúvida do
período colonial. Perde-se entre os milhares de títulos expostos
todos em árabe. Rebusca, vasculha, olha e não encontra nada em
francês, espanhol ou inglês. A livreira que o tinha saudado à
entrada depois do seu sonoro «Bonjour» é uma mulher de meia-idade
de cabelo coberto por um véu e um vestido que lhe cobre todo o corpo
e os braços, como os que a maioria das mulheres marroquinas usam.
Aproxima-se dela e procura por títulos em francês. A mulher
indica-lhe num francês perfeitíssimo uma pequena prateleira numa
lateral próxima da entrada. Não mais que trinta livros. São quase
todos clássicos franceses.
Repara no «Le Petit Prince» que já tinha visto numa magnífica
versão em árabe, mas de autores marroquinos só encontra um livro
de poesia de um autor radicado na Bélgica e um estudo sobre as
migrações no Mediterrâneo. E fica preocupado com o futuro da
língua de Molière naquela parte do mundo. Ainda encontra um jornal
bilingue em árabe e francês mas pouco mais. Do passado colonial,
tirando a arquitectura, fica com a impressão de não restar muito
hoje em Tetouan. E já dentro do táxi, de regresso, enquanto se
despede da cidade, vai meditando na riqueza que o encontro de povos e
culturas criou nesta cidade que foi durante séculos o entreposto
entre o norte de África e a Europa. A Pomba Branca, como é
conhecida a cidade, resplandece ao fim dia na montanha, enquanto um
fugaz Arco-íris se acende no horizonte.
AP
quinta-feira, 9 de julho de 2015
Vídeos de Viagem
Alentejo
O Alentejo na Primavera. Bonito mas desertificado.
Andaluzia
A Andaluzia com os seus encantos, as serras e as planícies, Marinaleda terra de luta, Cadiz e a sua baía, Málaga, Torremolinos com as suas festas e Sevilha a grande. O trabalho e o campo, o que ficou dos muçulmanos. Tudo e a sua bandeira verde e branca.
Tânger
Tânger em Marrocos. Uma cidade do norte de África.
António Pereira
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Despertar no Bairro
Famoso pela vida boémia e algumas casas de fado, mas também pelos relatos de violência, excessos noturnos ou a
prostituição de outrora, o Bairro Alto não costuma chegar até nós pelos melhores motivos. Mas nessas mesmas ruas habita uma comunidade de
várias idades, origens e profissões que todos os dias se levanta e se
deita, num dos locais onde a noite lisboeta acontece. Num passeio
matinal, fomos conhecer algumas pessoas deste bairro.
"Para mim, o mais difícil era adormecer. Acordar sempre foi um sossego."
Sr. Agostinho – Padaria “Os Bolos”
Sr. Agostinho – Padaria “Os Bolos”
Subindo a Rua do Norte às
7H30 da manhã, o comércio está ainda fechado. Cruzo-me com o Sr.
Humberto do talho, que distribui peças de carne pelas casas do
bairro. O camião do lixo termina a recolha. Bárbara, caminhando
misteriosa e de poucas palavras, chega a casa depois de uma noite de
trabalho, enquanto escreve mensagens no telemóvel. Bato à porta
d'Os Bolos, nome pelo qual já conhecia esta padaria no topo da Rua
da Rosa. Está aberta todo o dia e toda a noite. O Sr. Agostinho,
ribatejano, trabalhador de camisa de cavas branca e braços tatuados
conta-nos que faz pão de dia e de noite, há 33 anos. "Hoje
rendi de madrugada e só saio daqui ao final da tarde." Diz
orgulhoso de si mesmo. Durante 15 anos viveu no prédio em frente à
padaria e confessa: "Para mim, o mais difícil era adormecer.
Acordar sempre foi um sossego. Mesmo nos tempos e que havia muita
prostituição, o barulho era muito pouco durante a noite." A
segurança nos últimos 10 anos tem sido também um problema, indica:
"Hoje já não há respeito pela Polícia. Não têm medo deles.
À noite já vi de tudo. Até já fizeram graffities
aqui à
entrada da padaria." Por estes motivos, mostra-se favorável à
vídeo-vigilância e opina que o uso desta tecnologia pode melhorar a
segurança de todos. Hoje é o seu dia de aniversário mas como
prenda, oferece-me uma merenda folhada, ali mesmo cozinhada por ela,
na panificadora. As ruas do Bairro durante esta manhã fresca de
Outono continuam a padecer de uma estranha normalidade, para quem
possa estar mais habituado à copofonia noturna.
Tempos
de Outrora
“Antigamente as manhãs tinham outra graça! Acordava com os jornaleiros, os vendedores de rua dos figos da capinha rota e as lavandeiras de Caneças que todos os dias nos limpavam a roupa. Ah, e os ardinas! Por vezes até via jornais a voarem das mãos deles para as varandas do terceiro andar.” Dona Maria da Pensão Atalaia.
Dona
Maria Dominguez, proprietária
da Pensão Atalaia costuma trabalhar
durante a noite. Sai do serviço às 9H30 da manhã e a esta hora
dirige-se à leitaria de
esquina na Rua da Atalaia para comer algo antes de dormir. Com o
vagar da idade vejo-a entrar apoiada no balanço da bengala. Senta-se
e depois de introduzida na conversa pelo dono da leitaria, partilha
esperançada o seu saber acumulado em 70 anos de vida e de trabalho
no Bairro Alto. “Antigamente as manhãs tinham outra graça!
Acordava com os jornaleiros, os vendedores de rua dos figos da
capinha rota e as lavandeiras de Caneças que todos os dias nos
limpavam a roupa. Ah, e os ardinas! Por vezes até via jornais a
voarem das mãos deles para as varandas do terceiro andar.”
Relembra com saudades de outrora. “As manhãs de hoje são mais
calmas” aponta, em oposição à vida do antigamente. Mãe,
avó e bisavó, Dona Maria está preocupada com o futuro das próximas
gerações. Da janela de sua casa ou da receção da sua pensão
espreita pela janela para ver o que se passa nas ruas do Bairro Alto
durante a noite. “As raparigas agora são as piores! Bebem mais do
que os rapazes.” Fala do seu neto como exemplo, jovem de 20 anos
que várias vezes depois de beber um copo na noite, prefere dormir em
casa da avó, em vez de conduzir embriagado até à Margem Sul do
Tejo, onde reside. Mas conta também que já ela mesma sofreu
situações incómodas de assédio por parte de jovens embriagados
nas noitadas, ao entrar e sair do seu trabalho, a Pensão. Também
aponta a alimentação dos dias de hoje como um problema que pode
afetar os jovens. “Já não comem a comida feita com a dedicação
de uma avó ou de uma mãe, apenas
querem hambúrgueres. Assim os jovens não crescem da mesma forma”.
No Bairro Alto contudo pode encontrar uma série de bons locais para
comer refeições que o irão
satisfazer. Por exemplo na
área da gastronomia
tradicional recomenda-se o
Pap'Açorda ou o Bota Alta, na comida oriental o Ghandi Palace ou o
Calcutá, na world-fusion
o Sul, ou a quem preferir os pratos japoneses indica-se o Novo
Bonsai. Os habitantes locais sentem melhorias na qualidade do seu
descanso desde que os bares passaram a fechar às 2H da manhã. Mais
recentemente, às 3H nas noites de sábado e domingo. Apesar de tudo,
adormecer continua difícil e esse é um ponto de acordo entre os
locais com os quais conversámos. A conversa acabou hospitaleira,
como não podia deixar de ser com a dona de uma Pensão, e a Dona
Maria ofereceu-me um café, antes de seguir caminho.
![]() |
| "Bom Dia!" de Franck Grenier - Licença CC BY-ND 2.0 |
Ruas
Limpas
“Os
riscos nas paredes podem ser piores mas os graffities
bem feitos até acho bem.” Sr.
José, varredor, funcionário da higiene urbana.
Durante
as noites ébrias deste bairro da cidade são dispensados milhares de
copos de plástico. José é um dos trabalhadores que os varre
durante o dia. Jovem de 30 anos que vem todos os dias da Damaia para
o Bairro Alto. Aqui trabalha há um ano e desde que começou, já
nota diferenças no volume de sujidade que encontra pela frente em
todas as suas jornadas. “Desde há poucas semanas quando proibiram
as lojas de conveniência, já não se veem garrafas de vidro no chão
das ruas. Assim e melhor, agora são só copos de plástico.” Entra
no emprego às 7H e varre as ruas durante a manhã com outros dois
colegas, desde o topo do Bairro Alto, junto à Rua de São Pedro de
Alcântara até ao Largo do Camões. Os graffities
são habitualmente considerados pelas autoridades um problema de
poluição visual, mas quando questionado sobre este tema, José
mostra-se à vontade: “Os riscos nas paredes podem ser piores mas
os graffities bem
feitos até acho bem.” Aprova os murais que conhece na Damaia na
Cova da Moura, junto a onde mora. “Essas
pinturas trazem cor à área.”
Deixa a sugestão que talvez pudessem fazer o mesmo no Bairro Alto:
legalizar algumas paredes onde possam seja
possível pintar esses
murais. Nas paredes de várias
ruas do Bairro Alto, nota-se o trabalho das brigadas anti-graffity
que a Câmara Municipal de
Lisboa – CML tem financiado. Além de várias paredes sem pinturas
e tags, esta última a
assinatura de cada pessoas que pinta murais, é patente o trabalho
que as brigadas têm levado a cabo. Até se veem limpas, as lajes e
pedras que revestem as portas de rua dos antigos prédios do Bairro
Alto. Os posters de evento, festivais e marcas que habitualmente
invadem as fachadas dos prédios são cada vez menos, indica José.
Agora existem placards
próprios colocados pela CML que têm reduzido a poluição visual.
Para saber mais sobre a sua profissão, José sugere-me falar com
Rute, também varredora de rua. Ela é jovem e pratica o ofício há
pouco tempo. Confessa que é agradável para ela trabalhar naquele
bairro. Sobre a abastada quantidade de copos que todos os dias
encontra pela frente, desabafa: “Quanto mais lixo houver, melhor
para mim... mais horas extra recebo!”.
O
Bairro
“Nessa
altura, apesar da má fama, os clientes eram mais educados. Dantes a
segurança era melhor.” Fernando, co-fundador do estabelecimento
“Pérola do Oriente”.
Atualmente
apenas duas mercearias continuam em
funcionamento no bairro. Já
a Dona Maria contava saudosista que vários estabelecimentos de
comércio tradicional fecharam nas últimas décadas, dando lugar a
casas de diversão noturna. Em funcionamento há 28 anos, a “Pérola
do Oriente” na Rua da Rosa é um dos locais onde ainda podemos
comprar produtos frescos
durante o dia. Estabelecimento de dois irmãos, e mais conhecido por
isso por “Os Irmãos”, divide-se entre um café e uma mercearia.
O café, já preenchido de afluência pelas oito da manhã, é
separado por vidros interiores da mercearia, onde com mais calma se
pode conversar com um dos empreendedores. Fernando conta que ali está
naquela área da cidade há 28 anos e tem assistido a muitas
mudanças. Quando questionado sobre a insegurança no Bairro Alto,
dá-nos o exemplo dos anos 80 de quando aquelas ruas eram muito
rotinadas por prostitutas, durante a noite. “Nessa altura, apesar
da má fama, os clientes eram mais educados. Dantes a segurança era
melhor.” Ali trabalha durante o dia: entre às 7H e sai às 20H e
assim evita as horas notívagas de maior azáfama.
A
meio da manhã pelas 10H30 ficam para trás as ruas do Bairro Alto.
Várias lojas de roupa, calçado e
discos estão ainda por
abrir, à tarde. Ao
caminhar diante o jornal “A Bola” os repórteres discutem a
atualidade desportiva e as suas tarefas vespertinas. Dos
restaurantes, já de portas entreabertas, emanam inebriantes os
aromas da gastronomia portuguesa, que serão depois servidos ao
almoço.
Área
histórica da capital portuguesa, o Bairro Alto é frequentado de
noite e habitado de dia. Aqui se encontra a boémia noturna mas
também uma vida própria diurna, recheada de histórias e vontade de
as partilhar.
João A.
domingo, 3 de maio de 2015
Festa berbere
O
luar iluminava a nossa marcha silenciosa pelo apertado caminho, de argila seca
e de pedras soltas. Sentiam-se os aromas de ervas de montanha, queimadas do fim
do Verão, e tudo o que se ouvia era o gorgolejar do pequeno riacho do vale e um
grilo aqui e acolá. De tempos a tempos parávamos, para distinguir algum outro som,
mas nada, ainda não se ouvia mais nada.
Segundo
Ahmed, as quatro ou cinco aldeias berberes ali perto eram a única presença
humana nos cumes desta zona do Atlas marroquino, acessíveis apenas por caminhos
de cabras. Era uma delas que procurávamos.
Horas
antes, o jovem pastor berbere passara com o seu rebanho pelo lugar onde havíamos
montado as tendas, no sopé de uma das montanhas, perto de uma cascata. Talvez porque
lhe despertámos curiosidade – afinal, éramos estrangeiros – não resistiu a
convidar-nos para o casamento que nessa noite se celebrava num dos povoados.
Ahmed
não tinha a certeza sobre qual das aldeias estava em festa, mas ao fim de umas
horas de caminhada no escuro, escutámos por fim os sons alegres de celebração. Seguimo-los.
Pouco depois, um pequeno conjunto de casas claras com luz de fogo dentro rompeu
a escuridão, ao mesmo tempo que chegava até nós a melodia de um coro de vozes
masculinas e o ritmo de tambores, cada vez mais próximos.
Ao
entrar na aldeia, vimos um círculo de homens apoiados nos ombros uns dos outros
à volta de cinco ou seis mulheres de várias idades. Dançavam e cantavam uma
melopeia repetitiva, de túnica e chapéu muçulmano, alguns de turbante. Mergulháramos
noutra realidade, ou tempo. Era difícil de conceber que ainda houvesse um mundo
de asfalto e postes elétricos lá fora.
Uma
luz fraca mas quente dourava a festa, no espaço comum da aldeia. A agitação dos
homens, que iam girando num círculo coeso e percutindo nos tambores de pele de
camelo, contrastava com as figuras estáticas das mulheres, sentadas no centro,
vestidas de cores claras e de olhar firme. Uma delas tinha uma renda branca a
cobrir-lhe a cara, talvez a noiva.
Nós,
convidados acidentais, éramos alvo de olhares discretos e curiosos, mas o
ritual seguiu como se não estivéssemos ali.
Num
impulso, misturámo-nos. Entrámos para a roda dos homens, os nossos ombros nos
deles, girando e imitando-os nos cantos. O ambiente tornou-se mais sorridente.
Pouco
depois, alguns de fora do círculo conduziram-nos, gentis, para dentro de uma
das casas brancas e simples, iluminada por velas que traziam nas mãos e
mostravam os tapetes de cores vivas, a única mobília. Sentámo-nos em roda e veio
chá e mel das montanhas. Falavam-nos em berbere e respondíamos em francês
simples com duas ou três palavras de árabe. Não nos compreendíamos exatamente,
mas ninguém pareceu importar-se. O ritual continuava lá fora, desta vez
reservado aos participantes originais.
Já
noite densa e decidimos voltar ao acampamento, havia que encontrar o caminho de
volta. Entrámos de novo no escuro, e o coro e os tambores foram ficando para
trás, muito para trás, assim como os nossos anfitriões, o mais recente casal
berbere das montanhas do Atlas marroquino.
segunda-feira, 16 de março de 2015
Parabéns à Madalena
Fonte: Site da Casa da América Latina
A propósito da participação da Madalena, membro da Portuguese Riders Crew, no stand da Casa América Latina na Bolsa de Turismo de Lisboa 2015. Parabéns!
[Testemunho de Madalena, participante na partilha de experiências “Eu fiz o Mochilão na América Latina”, promovida pela CAL na Bolsa de Turismo de Lisboa]
“El Salvador, estás maluca?!”
Já se passou mais de um ano desde que sai de El Salvador e se alguém me pergunta algo simplesmente não me calo de emoção. Quando parti para a minha viagem pela América Central ia 100% segura que jamais passaria por El Salvador. Fora de questão! Claro que como em tudo na vida as surpresas aparecem sempre quando menos esperamos.
Estava numa noite relaxada no dormitório de um hostel em Antíngua quando recebo um email a dizer: “Vê lá que por aí onde andas há um surto de dengue…” Não tinha visto notícias, nem ouvido falar de nada então decidi informar-me perguntando alto: “Alguém sabe se aqui perto há um surto de dengue?” Três cabeças espreitaram lá do alto dos beliches e disseram: “Há sim, nas Honduras.” “Acabei de vir de lá e a coisa não está boa.” Isto não eram boas notícias, havia que fazer um ponto de situação e repensar os próximos passos. Honduras não seria boa ideia, assim sendo só restava uma opção El Salvador. E agora? Vou? Não Vou?!
Ao longo da viagem fui conhecendo pessoas que lá tinham ido e todas sem excepção adoraram. Mesmo assim, não sabia. As dúvidas persistiam. É curioso porque este país mudou muito nos últimos anos mas os viajantes têm dificuldade em acreditar que a sua experiência tenha sido real, dizem-nos: “não sei se tive sorte mas a mim não me aconteceu nada e adorei.” Vistas as opções e a situação pensei: seja o que tiver de ser…
A chegada não foi fácil, um país onde o turismo é escasso a informação não abunda. Sabia que havia um festival gastronómico e decidi apontar nessa direcção e com receio lá fui em direcção ao temido e desconhecido El Salvador.
Os primeiros autocarros não são muito fáceis, parecemos um E.T. as pessoas olham demasiado para nós o que pode ser desconfortável. Até que alguém toma a iniciativa e fala connosco. Estes são apenas olhares de curiosidade, de estranhar uma rapariga sozinha de mochila às costas por aqui, de onde vem? Para onde irá?
Escolhi por acaso o hostel Casa Mazeta onde fui recebida como se da minha família se tratasse. Em plena ruta de las flores encontrei o local a que chamei casa por um mês e meio. Em Juayúa todos os fins-de-semana há um festival gastronómico com várias especialidades, onde um prato com vários tipos de carne, batata, arroz, salada, camarão e outras iguarias bem saborosas nos custa apenas 5 dólares. Juntamos a boa música ao entretenimento, à alegria dos salvadorenhos e temos um prato cheio. Perto de Juayúa fica Concepción de Ataco, uma pequena vila com murais coloridos pintados nas casas que nos dão a sensação de andar a passear por um verdadeiro desenho animado. Uma vez por ano, em Setembro, cumpre-se uma tradição com mais de 200 anos, todas as casas e ruas de Ataco enchem-se de farolitos que iluminam com velas as suas ruas é o festival Los farolitos de Ataco. Fazem-se uns passeios pelas fincas de café, descendo sete cascatas pela floresta e a nossa passagem por este encantador país torna-se inesquecível.
Por tudo isto digo sempre: Vão a El Salvador! Mais que a gastronomia, as cores, a música, os vulcões, as praias da América Latina, El Salvador, são as pessoas. Boa gente que te diz um Hola com um sorriso, que atravessa uma cidade apenas para te ajudar, que se aproxima para saber de ti, do teu país e se gostas do seu, que quer praticar o seu inglês e deixar sempre uma mensagem de boas vindas: Que desfrutes El Salvador!
É assim que o que mais parecia uma loucura descabida passou a ser uma experiência inesquecível, a receita foi simples tal como em todos os países vizinhos há que ter cuidado, seguir as regras e o bom senso, mas mais que tudo há que abrir as portas a conhecer um novo mundo e desfrutar de El Salvador.
A propósito da participação da Madalena, membro da Portuguese Riders Crew, no stand da Casa América Latina na Bolsa de Turismo de Lisboa 2015. Parabéns!
[Testemunho de Madalena, participante na partilha de experiências “Eu fiz o Mochilão na América Latina”, promovida pela CAL na Bolsa de Turismo de Lisboa]
“El Salvador, estás maluca?!”
Já se passou mais de um ano desde que sai de El Salvador e se alguém me pergunta algo simplesmente não me calo de emoção. Quando parti para a minha viagem pela América Central ia 100% segura que jamais passaria por El Salvador. Fora de questão! Claro que como em tudo na vida as surpresas aparecem sempre quando menos esperamos.
Estava numa noite relaxada no dormitório de um hostel em Antíngua quando recebo um email a dizer: “Vê lá que por aí onde andas há um surto de dengue…” Não tinha visto notícias, nem ouvido falar de nada então decidi informar-me perguntando alto: “Alguém sabe se aqui perto há um surto de dengue?” Três cabeças espreitaram lá do alto dos beliches e disseram: “Há sim, nas Honduras.” “Acabei de vir de lá e a coisa não está boa.” Isto não eram boas notícias, havia que fazer um ponto de situação e repensar os próximos passos. Honduras não seria boa ideia, assim sendo só restava uma opção El Salvador. E agora? Vou? Não Vou?!
| Foto de Madalena - Creative Commons BY-NC-ND License |
Ao longo da viagem fui conhecendo pessoas que lá tinham ido e todas sem excepção adoraram. Mesmo assim, não sabia. As dúvidas persistiam. É curioso porque este país mudou muito nos últimos anos mas os viajantes têm dificuldade em acreditar que a sua experiência tenha sido real, dizem-nos: “não sei se tive sorte mas a mim não me aconteceu nada e adorei.” Vistas as opções e a situação pensei: seja o que tiver de ser…
A chegada não foi fácil, um país onde o turismo é escasso a informação não abunda. Sabia que havia um festival gastronómico e decidi apontar nessa direcção e com receio lá fui em direcção ao temido e desconhecido El Salvador.
Os primeiros autocarros não são muito fáceis, parecemos um E.T. as pessoas olham demasiado para nós o que pode ser desconfortável. Até que alguém toma a iniciativa e fala connosco. Estes são apenas olhares de curiosidade, de estranhar uma rapariga sozinha de mochila às costas por aqui, de onde vem? Para onde irá?
Escolhi por acaso o hostel Casa Mazeta onde fui recebida como se da minha família se tratasse. Em plena ruta de las flores encontrei o local a que chamei casa por um mês e meio. Em Juayúa todos os fins-de-semana há um festival gastronómico com várias especialidades, onde um prato com vários tipos de carne, batata, arroz, salada, camarão e outras iguarias bem saborosas nos custa apenas 5 dólares. Juntamos a boa música ao entretenimento, à alegria dos salvadorenhos e temos um prato cheio. Perto de Juayúa fica Concepción de Ataco, uma pequena vila com murais coloridos pintados nas casas que nos dão a sensação de andar a passear por um verdadeiro desenho animado. Uma vez por ano, em Setembro, cumpre-se uma tradição com mais de 200 anos, todas as casas e ruas de Ataco enchem-se de farolitos que iluminam com velas as suas ruas é o festival Los farolitos de Ataco. Fazem-se uns passeios pelas fincas de café, descendo sete cascatas pela floresta e a nossa passagem por este encantador país torna-se inesquecível.
Por tudo isto digo sempre: Vão a El Salvador! Mais que a gastronomia, as cores, a música, os vulcões, as praias da América Latina, El Salvador, são as pessoas. Boa gente que te diz um Hola com um sorriso, que atravessa uma cidade apenas para te ajudar, que se aproxima para saber de ti, do teu país e se gostas do seu, que quer praticar o seu inglês e deixar sempre uma mensagem de boas vindas: Que desfrutes El Salvador!
É assim que o que mais parecia uma loucura descabida passou a ser uma experiência inesquecível, a receita foi simples tal como em todos os países vizinhos há que ter cuidado, seguir as regras e o bom senso, mas mais que tudo há que abrir as portas a conhecer um novo mundo e desfrutar de El Salvador.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Madrid em 24 Horas
Já
passava das cinco da manhã quando entreabri os olhos e esbracejei do
colchão para fora até alcançar o despertador digital e desligar o
som. “Vamos! Já passa da hora.” Dentro de poucos minutos
estávamos no carro e a caminho de Madrid. Íamos os dois celebrar o
14 de Fevereiro mas também visitar o meu irmão que agora está por
lá a viver. Banhado pela aurora matutina, o montado alentejano
prolongava-se belo e familiar, desde a nossa margem sul do Tejo até
para lá de Elvas. A estrada seguia sempre calma, naquele sábado de
manhã. A fronteira já não existia e ainda me admirava como se não
o soubesse já de antemão. Confesso que receava algum motivo
prepotente para pararem o meu carro. Se a polícia em Portugal é
desmedida e desproporcional, nunca se sabe como será a do país
vizinho. São cada vez mais síncronas, e as diferenças entre os
dois povos não são assim tantas. Deve destacar-se que as
auto-estradas por lá não são pagas, e isso, numa viagem já faz a
diferença. Já passava das duas da tarde na hora local, quando
transitávamos num dos bairros mais chiques de Madrid, ou como se diz
por lá, um dos mais “pirros”. As ruas, as fachadas e as pessoas
estavam bem arranjadas. Impressionou-me que os peões assumiam o
protagonismo da estrada, dado os passeios serem largos, por haver
apenas um sentido automóvel, e mais importante ainda, devido aos
veículos só poderem circular a 30 quilómetros por hora, máximo.
Zona de velocidade reduzida. O meu irmão aguardava uma leva de
instrumentos musicais que lhe prometera levar. Em complemento ao seu
trabalho integral, dedicava-se à música, a sua paixão verdadeira e
de longa data. À hora de almoço, era impossível não petiscarmos
algo onde ele trabalhava. Tempo apenas para ir até ao nosso Hotel,
ali ao lado sito no mesmo bairro, fazer o “check-in” e regressar.
Depois de petiscarmos uma tarte de bacalhau acompanhada de uma
“caña”, e rematar com um pastel de Nata, Lisboa estava
definitivamente para trás e doravante aguardava-nos Madrid. Ao
caminhar até à estação de metro mais próxima, “Vergara” o
vento frio e cortante já se fazia sentir no rosto. O “barbeiro”
como se diz no norte e se lembrava a Sofia. A cidade situa-se num
planalto, sensivelmente na latitude do Porto e está rodeada no
horizonte de montanhas repicadas de neve. As ruas mesmo frias
conquistavam-me grandes e organizadas que eram. Assim como o Metro,
abrangente e funcional, não obstante as estações e as carruagens
serem mais espartanas e pragmáticas do que as da nossa cidade natal.
A estação que mais nos deixa no centro chama-se “Sol”, local das famigeradas e revolucionárias acampadas de 2010 e 2011, réplica das do Rossio em Lisboa, refira-se também. Ali, mais do que noutro lugar da urbe, sentia-se o bulício citadino de uma cidade de seis milhões, também em processo de auto-análise política e social. Várias vozes se faziam reclamar na via pública. Por exemplo os movimentos depois assumidos como partidos “Podemos”, ou a sua contra-versão “Ciudadanos”, etc. Mas o Carnaval ainda ludibriava muito as atenções de causas políticas. Desde as “Puertas del Sol” caminhámos ao todo por duas ou três horas. “Calle Mayor” abaixo, até à respetiva “Plaza Mayor”, enclaustrada por firmes fachadas vermelhas, o tom nacional, e que nos eram recordação de um imaginário construído de imagens televisivas e de vetustas memórias. Como este fim-de-semana era também de Carnaval, julgámos nós que por isso, havia vários artistas locais que tentavam pregar sustos aos mais incautos. No centro da Plaza Mayor, malabaristas, estátuas humanas, homens invisíveis cirandavam por entre nós, constituindo o centro das atenções daquela bela praça. Logo ali ao lado encontrámos o Mercado de San Miguel, arrebatado por dentro e ladeado por esguias, atraentes e ajeitadas ruas, relembrando algo de Alfama. No início da nossa caminhada, ainda junto à Praça, deparámo-nos com a invulgar vitrina do “Museu del Jamón Ibérico”. Um amontoado de pernas fumadas de porco, expostas como se de um talho se tratasse. Mas claro que o paladar desta iguaria, tão singular que é pela região ibérica, merece o Museu. Apenas discutiria a sua forma. Ao fim da avenida principal depara-se com um palácio gigante, possante, até desmedido e exagerado. Como se arranjou espaço para isto? Perguntava-me. Fomos passeando em vez de questionar. De frente para ele, está também a Igreja Catedral da cidade, ponto de onde se avista a extensão urbana sobre um dos ângulos de Madrid. Vadeando o Palácio Real, no qual os atuais reis rejeitaram viver, por ser um excesso de opulência e uma incoerência num país que atravessa também, embora menor, uma crise económica. Os seus jardins conquistaram-nos por serem abertos ao público, singelos, harmoniosos e nos permitirem tirar uma boa fotografia, cartão postal da cidade. Um simpático casal de Madrilenses acercou-se para me perguntar se queria uma fotografia. Momento de diálogo ecuménico que acabou por ser uma troca de registos fotográficos no “iPhone” de cada um. De novo no Metro, fizemo-nos valer de um bilhete de 10 viagens, possível de ser partilhado por vários passageiros. Seguimos até à estação “Atocha”, a mesma onde os bárbaros atentados de 11 de Março de 2004 sucederam. Aposto à gare, está o “Museu Reina Sofia”, ao qual por desempate demos primazia sobre o Museu do Prado. Por ser um centro de arte moderna, por ter várias obras de artistas famosos como Salvador Dali, Pablo Picasso, Joan Miró, entre outros mais. Para além disso, apresenta um misto arquitetural de novo e antigo, em duas zonas distintas por onde lá se pode visitar arte. E por termos apenas 24 horas também!
No dia seguinte, as “calles” asseadas, o ceú limpo e sol impeliram-nos até à Praça “Colón”, onde está a homenagem ao Cristóvão Colombo, aí claro reclamado espanhol e não português de Cuba. De lá avistámos a Praça “Cibeles”, onde tantas vezes se gravam as peças dos enviados especiais da televisão. Com objetivo em mente de aí ingressar num autocarro turístico, aguardámos na paragem ali mais próxima. Os bilhetes não eram convidativos, pelo seu preço e pelos vários cortes no trajeto habitual devido às manifestações no centro. Mas aguardámos na paragem. Um numeroso grupo familiar espanhol apoderou-se do espaço na paragem, passando-nos à frente, e quando o autocarro chegou, subiram primeiro. Quando chegou a nossa vez de comprar os bilhetes a motorista pergunta-me: “Están com esta familia?” Ao que retorqui com a verdade. Momento então que me dizem que já não há lugares. O embate foi desnecessário e injusto, pois fica a estupidez no ar derivada de se que fizéssemos parte do grupo, então já haveria lugar para mais dois. A matemática não pode enganar. E claro que não recomendo este serviço turístico da cidade. De todo. Por dois motivos: - Primeiro porque só existe praticamente um serviço que resulta de uma parceria entre duas das maiores empresas de transporte de pessoas em Espanha. Ou seja, não há concorrência ao contrário de Lisboa. - Depois porque o preço é exorbitante. Além do mais, muitos hotéis só sabem dar informações sobre este serviço. Poderia ser por ser bom, mas não. Antes parecia um suave cartel. Achara que o áudio-guia que se ouve neste transporte valeria a pena, mas novamente o péssimo atendimento ao turista da cidade, impele-me a desaconselhar. Como alternativa, e como já eram quase as 14 horas locais, pegámos no carro e seguimos nós o trajeto demarcado no mapa do prospeto daquela mesma empresa. Numa lógica “faça você mesmo” que confesso, me devia ter logo lembrado.
No fim, à saída da cidade, procurámos com paciência, tempo e cuidado a saída certa da radial mais interna da cidade, a M30, para a auto-estrada A5-E90 que cruzando alguns parques de energia solar pelo caminho, nos levaria de novo à fronteira, demarcada pelo Rio Guadiana que corre incessante sobre a Ponte José Saramago. O regresso às portagens, à condução atacante, à crise social aguda de valores materiais e intangíveis, ao trabalho e à resmunguice. Um fim-de-semana de alinhamento com as viagens, com as minhas paixões, e o meu irmão emigrado dentro de uma união de estados agora sem fronteiras. No fim de contas sentia-me viajado por entre um ambiente fraterno. Retinia a ideia que um amigo meu me dissera semanas antes: “na península ibérica somos principalmente influenciados pela cultura moçárabe”. E acrescentaria, que fomos apartados por reinados, interesses comerciais e ainda o somos pela legítima auto-determinação, mas estamos também unidos por um passado partilhado de coexistência pacífica tanto como de embates entre islâmicos e católicos.
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| Museu Nacional - Centro de Arte - Reina Sofia |
A estação que mais nos deixa no centro chama-se “Sol”, local das famigeradas e revolucionárias acampadas de 2010 e 2011, réplica das do Rossio em Lisboa, refira-se também. Ali, mais do que noutro lugar da urbe, sentia-se o bulício citadino de uma cidade de seis milhões, também em processo de auto-análise política e social. Várias vozes se faziam reclamar na via pública. Por exemplo os movimentos depois assumidos como partidos “Podemos”, ou a sua contra-versão “Ciudadanos”, etc. Mas o Carnaval ainda ludibriava muito as atenções de causas políticas. Desde as “Puertas del Sol” caminhámos ao todo por duas ou três horas. “Calle Mayor” abaixo, até à respetiva “Plaza Mayor”, enclaustrada por firmes fachadas vermelhas, o tom nacional, e que nos eram recordação de um imaginário construído de imagens televisivas e de vetustas memórias. Como este fim-de-semana era também de Carnaval, julgámos nós que por isso, havia vários artistas locais que tentavam pregar sustos aos mais incautos. No centro da Plaza Mayor, malabaristas, estátuas humanas, homens invisíveis cirandavam por entre nós, constituindo o centro das atenções daquela bela praça. Logo ali ao lado encontrámos o Mercado de San Miguel, arrebatado por dentro e ladeado por esguias, atraentes e ajeitadas ruas, relembrando algo de Alfama. No início da nossa caminhada, ainda junto à Praça, deparámo-nos com a invulgar vitrina do “Museu del Jamón Ibérico”. Um amontoado de pernas fumadas de porco, expostas como se de um talho se tratasse. Mas claro que o paladar desta iguaria, tão singular que é pela região ibérica, merece o Museu. Apenas discutiria a sua forma. Ao fim da avenida principal depara-se com um palácio gigante, possante, até desmedido e exagerado. Como se arranjou espaço para isto? Perguntava-me. Fomos passeando em vez de questionar. De frente para ele, está também a Igreja Catedral da cidade, ponto de onde se avista a extensão urbana sobre um dos ângulos de Madrid. Vadeando o Palácio Real, no qual os atuais reis rejeitaram viver, por ser um excesso de opulência e uma incoerência num país que atravessa também, embora menor, uma crise económica. Os seus jardins conquistaram-nos por serem abertos ao público, singelos, harmoniosos e nos permitirem tirar uma boa fotografia, cartão postal da cidade. Um simpático casal de Madrilenses acercou-se para me perguntar se queria uma fotografia. Momento de diálogo ecuménico que acabou por ser uma troca de registos fotográficos no “iPhone” de cada um. De novo no Metro, fizemo-nos valer de um bilhete de 10 viagens, possível de ser partilhado por vários passageiros. Seguimos até à estação “Atocha”, a mesma onde os bárbaros atentados de 11 de Março de 2004 sucederam. Aposto à gare, está o “Museu Reina Sofia”, ao qual por desempate demos primazia sobre o Museu do Prado. Por ser um centro de arte moderna, por ter várias obras de artistas famosos como Salvador Dali, Pablo Picasso, Joan Miró, entre outros mais. Para além disso, apresenta um misto arquitetural de novo e antigo, em duas zonas distintas por onde lá se pode visitar arte. E por termos apenas 24 horas também!
No
regresso, fomos repastar-nos com um lanche num café / “snack”,
momento em que tivemos uma primeira altercação. Sempre dei o meu
melhor para comunicar num castelhano o mais completo e percetível
que podia, mas não sei se por se notar alguma distonia sonora, se
por antipatia crónica, os modos com que nos atenderam nesse lanche e
no pequeno-almoço seguinte, deixaram a desejar e colocaram-nos a
refletir. Na mesa da janela, contemplava os urbanos locais a
circularem nas suas ruas. Estava longe de casa, a cerca de 800
quilómetros, mas ao mesmo tempo eram-me todos algo familiares
aqueles semblantes. Mas no fundo falavam outra língua, viam outras
notícias, votavam noutros sistemas, e tinham várias origens
diferentes. Aí sentia a Madrid cosmopolita, diversa, mesclada. Logo à
saída do Metro, atentara num grupo de jovens ativistas, que
ultimavam cartazes de manifestação, pareceu-me de relance que
seriam pela liberdade sexual, contra o tradicional dia de São
Valentim. Pouco depois, enquanto comíamos uma parca tosta e um chá
de “manzanilla” no tal café / “snack”, do outro lado da rua,
já se reuniam mais manifestantes. E a polícia municipal já
condicionava o trânsito, naquela que é uma das mais movimentadas
praças da cidade. No dia seguinte, novamente esta praça estaria
interdita devido a um marcha de protesto. De retorno às carruagens
do metro, ecoavam duas vozes, uma masculina que tonitruava
estereofonicamente “Próxima Estación”. E uma feminina que logo
de seguida anunciava mais singela o nome da estação: “Príncipe
de Vergara”. Já não me surpreendia e até despoletava boas
memórias, dos “skits” do Manu Chao no seu segundo álbum a
“solo”, assim como do do metropolitano de Barcelona. De regresso,
tínhamos que agilizar o jantar, processo que demorado, paciente e
indeciso, acabou, como sempre, por se resolver a ele mesmo. Acabámos
no bairro de “Salamanca”, num restaurante não programado, depois
de algumas tentativas goradas, a jantar carnes grelhadas,
acompanhadas de pão branco espanhol e vinho da região demarcada “La
Rioja”. A Sofia, o meu irmão e eu, na ampla cave do restaurante
“Olvido” também ele “pirro”, não fossemos estar na área do
estádio Santiago Barnabéu, do Real. O melhor da noite ainda estaria
para vir, pois era o motivo da nossa deslocação até aquele bairro.
O meu irmão ia depois subir ao palco para tocar guitarra numa “jam
session” de “blues”. Os dois “solos” de guitarra que nos
presenteou foram complexos e dignos de registo. De regresso ao Hotel
de táxi, a chuva de pingos frios fez-se sentir numa Madrid molhada
em noite de romance.
No dia seguinte, as “calles” asseadas, o ceú limpo e sol impeliram-nos até à Praça “Colón”, onde está a homenagem ao Cristóvão Colombo, aí claro reclamado espanhol e não português de Cuba. De lá avistámos a Praça “Cibeles”, onde tantas vezes se gravam as peças dos enviados especiais da televisão. Com objetivo em mente de aí ingressar num autocarro turístico, aguardámos na paragem ali mais próxima. Os bilhetes não eram convidativos, pelo seu preço e pelos vários cortes no trajeto habitual devido às manifestações no centro. Mas aguardámos na paragem. Um numeroso grupo familiar espanhol apoderou-se do espaço na paragem, passando-nos à frente, e quando o autocarro chegou, subiram primeiro. Quando chegou a nossa vez de comprar os bilhetes a motorista pergunta-me: “Están com esta familia?” Ao que retorqui com a verdade. Momento então que me dizem que já não há lugares. O embate foi desnecessário e injusto, pois fica a estupidez no ar derivada de se que fizéssemos parte do grupo, então já haveria lugar para mais dois. A matemática não pode enganar. E claro que não recomendo este serviço turístico da cidade. De todo. Por dois motivos: - Primeiro porque só existe praticamente um serviço que resulta de uma parceria entre duas das maiores empresas de transporte de pessoas em Espanha. Ou seja, não há concorrência ao contrário de Lisboa. - Depois porque o preço é exorbitante. Além do mais, muitos hotéis só sabem dar informações sobre este serviço. Poderia ser por ser bom, mas não. Antes parecia um suave cartel. Achara que o áudio-guia que se ouve neste transporte valeria a pena, mas novamente o péssimo atendimento ao turista da cidade, impele-me a desaconselhar. Como alternativa, e como já eram quase as 14 horas locais, pegámos no carro e seguimos nós o trajeto demarcado no mapa do prospeto daquela mesma empresa. Numa lógica “faça você mesmo” que confesso, me devia ter logo lembrado.
No fim, à saída da cidade, procurámos com paciência, tempo e cuidado a saída certa da radial mais interna da cidade, a M30, para a auto-estrada A5-E90 que cruzando alguns parques de energia solar pelo caminho, nos levaria de novo à fronteira, demarcada pelo Rio Guadiana que corre incessante sobre a Ponte José Saramago. O regresso às portagens, à condução atacante, à crise social aguda de valores materiais e intangíveis, ao trabalho e à resmunguice. Um fim-de-semana de alinhamento com as viagens, com as minhas paixões, e o meu irmão emigrado dentro de uma união de estados agora sem fronteiras. No fim de contas sentia-me viajado por entre um ambiente fraterno. Retinia a ideia que um amigo meu me dissera semanas antes: “na península ibérica somos principalmente influenciados pela cultura moçárabe”. E acrescentaria, que fomos apartados por reinados, interesses comerciais e ainda o somos pela legítima auto-determinação, mas estamos também unidos por um passado partilhado de coexistência pacífica tanto como de embates entre islâmicos e católicos.
João
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