Seis e meia da tarde, véspera de Natal, nos Quatro Caminhos em Queluz. Noite fechada que o Sol põe-se por alturas do solstício às cinco e pouco da tarde. Quase todo o comércio está já encerrado. O Centro Comercial D. Pedro II fechou portas há poucos minutos e abertos ficaram apenas a loja do McDonald e um pequeno café. Algumas pessoas passam apressadas com os sacos das últimas compras de Natal. À hora exacta, porque o trânsito é reduzido, chega o autocarro com destino a Carcavelos. A carreira com o número 106 que liga a Falagueira a Carcavelos, atravessa a zona suburbana de quatro concelhos: Amadora, Sintra, Oeiras e Cascais e vai normalmente apinhada. Mas hoje embarcam apenas dois passageiros no centro de Queluz e a maioria dos lugares lá dentro estão vazios.
O autocarro avança cruzando os Arcos do Aqueduto das Águas Livres e a Ribeira do Jamor rumo à Estação de Caminhos de Ferro de Queluz-Massamá. Esta estação é das mais movimentadas da Linha de Sintra, uma das linhas férreas europeias com maiores índices de ocupação transportando cerca de 67 milhões de passageiros por ano. Aqui sobem apenas dois passageiros. Os que descem deixam o autocarro quase vazio. Rapidamente o motorista arranca rumo a Queluz de Baixo. Avista-se ao longe a IC 19, a grande via de comunicação entre Lisboa e as zonas suburbanas densamente povoadas da Amadora, Queluz, Cacém e Rio de Mouro habitualmente congestionada a esta hora, mas onde hoje o trânsito flui rápido e sem nenhuma demora. A viagem continua por Barcarena, Leceia, Porto Salvo. Depois de Porto Salvo já só seguem três passageiros a bordo e dois descem em Oeiras no Bairro do Moinho das Rolas. Sobem numa paragem mais abaixo uma mulher e duas crianças que fazem um curto trajecto e acabam por descer na Estação de Oeiras. Não chegou a meia hora a viagem entre Queluz e Oeiras. Em dias normais o percurso chega a demorar quase uma hora. O autocarro parte rumo a Carcavelos vazio.
Vazio está também o Largo da Estação de Oeiras. Nem um táxi mas há ainda alguns autocarros estacionados. Na Gare Ferroviária contam-se pelos dedos os passageiros. O comboio que chega de Lisboa e termina aqui a marcha entra à hora exacta, 18.58, transportando oito passageiros e um revisor que vem sentado a mandar sms’s no telemóvel. A composição proveniente de Cascais que arranca pouco depois no sentido de Lisboa também sai quase vazia. Vai parar apenas em Algés e Alcântara antes de chegar ao Cais Sodré. Os horários que estão a ser praticados são os dos dias normais não obstante ser véspera de Natal. Os poucos passageiros são quase todos estrangeiros. Japoneses e orientais, um casal de franceses, alguns ingleses. Depois de Paço de Arcos o comboio segue, num curto trajecto, lado a lado à Estrada Marginal e ao mar. O trânsito também aqui é pouco e flui rápido. Hoje não se avistam as costumeiras e intermináveis filas de luzinhas encarnadas dos carros, em para arranca, no sentido de Cascais. As estações de Algés e Alcântara estão literalmente vazias e o comboio chega a Lisboa com menos de vinte passageiros.
O largo do Cais Sodré está igualmente vazio com todo o comércio encerrado. A Avenida 24 de Julho atravessa-se sem ser preciso esperar pelo verde dos semáforos. Na Rua do Arsenal o movimento é pouco. Uma loja de conveniência indiana e outra de «take-way» de comida oriental ainda permanecem abertas mas tudo o mais encerrou. Algumas pessoas a pé, orientais e africanos, um eléctrico que não pára porque as paragens estão vazias. No Terreiro do Paço um táxi estacionado junto a um dos novos hotéis de charme de Lisboa aguarda um casal de ingleses. À volta tudo permanece em silêncio e encerrado. Na Rua do Ouro apenas uma família espanhola e um grupo de jovens ingleses a caminho da Estação de Metro da Baixa Chiado. Dir-se-ia que Lisboa se recolheu. São oito e meia da noite. O Metro avisa que «existem perturbações em toda a rede pelo que o tempo de espera poderá ser superior ao habitual» e pede desculpa pelo incómodo causado. Mas as desculpas são escutadas por muito poucos. No Cais da Linha Azul, em ambos os sentidos, os passageiros não chegam a uma dezena e a maioria são estrangeiros. Mesmo assim, poucos minutos depois, chega a composição com destino a Amadora-Oeste praticamente vazia. A bordo os passageiros são também quase todos estrangeiros, turistas ou emigrantes transportando consigo sacos de prendas e de comida a caminho da sua ceia de Natal. No termo da viagem na Estação de Amadora Oeste apenas cinco passageiros.
A Avenida Elias Garcia bem como as rotundas que é necessário atravessar descendo no sentido das Portas de Benfica, uma das entradas na capital, encontram-se sem movimento de pessoas e carros. Junto aos laboratórios Vitória dois homens esperam um táxi que tarda em chegar e numa paragem de autocarros mais abaixo um casal de namorados. Mais ninguém num percurso que a pé demora quase um quarto de hora a fazer. Já passam das nove da noite. Nas Portas de Benfica, solitárias no meio da enorme rotunda, só se avistam a esta hora as iluminações de Natal.
António Pereira
Dezembro de 2015
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
De Portugal à Escócia em Carro
“O sonho comanda a vida”
Frase do poema Pedra Filosofal de António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho.
Num dia decisivo para o
futuro político de Portugal, 4 de outubro de 2015, fui votar cinco
minutos depois de as urnas abrirem. Tanta questão fiz em exercer o
meu direito pois não suportava o governo de coligação que lá
estava. Armado em primeiro e melhor eleitor do bairro e arredores,
pelas oito e quinze da manhã já votara e estava então no meu carro
Skoda Fabia pela estrada fora até à
Escócia. Pela frente, aguardavam-me dois mil e oitocentos
quilómetros e quase quarenta horas seguidas de condução. Apesar da
chuva que se atravessou no caminho e do nevoeiro que encontrei nos
montes de Portugal e de Espanha, ia conduzindo com sucesso. A1, A23 e A25 com as suas complicadas portagens automáticas para quem não tem "via verde", Vilar Formoso, Salamanca, Burgos e a região basca, esta última onde a
geografia tanto exaure o condutor, não obstante o esplendor natural
da paisagem. De repente já estava no sul de França por onde se respirava tranquilidade e melhor clima metereológico e político.
Às tantas detinha-me no facto de alguns dos sinais de trânsito estarem
tapados com plástico escuro como se estivessem por estrear. Primeiro
pensei ser uma brincadeira para contrariar os limites de velocidade
mas depois ganhou consistência a tese de que seria devido a obras
recentes na via. O sol punha-se quando cruzava esta terra e a
restante França, atravessei-a com um firmamento estrelado por cima de
mim. Auto-estradas grandes e bem definidas mas despidas de viaturas,
tirando alguns camiões. Por vezes alguns carros colavam-se no meu
encalço talvez para sermos vários na escuridão, não fosse o diabo
tecê-las. Tudo isto me parecia tão animalesco e natural quanto os
cardumes de peixes que se juntam uns aos outros no oceano para melhor
sobreviverem, ou os pequenos que se encobrem nas caudas ou dorso dos
tubarões e baleias. Os camiões e os carros que por vezes via junto
a eles assemelhavam-se. Bem, somos animais e não há como escapar
por vezes. Para me manter acordado pela madrugada fora liguei os
ventiladores no máximo com frio e direcionados para a cara. A rádio
estava com volume elevado e a passar notícias, o mais poli-tónica
possível, e claro, ia parando nas estações de serviço ou "aire"
em Francês para tomar café ou o mais semelhante que eles lá
tivessem. A última localidade por onde passei antes da aurora despontar
foi Rouen, um conjunto de sarilhos por não ter radial e a auto-estrada desembocar no centro da vila. De lá deriva a seguinte auto-estrada por onde tinha que
seguir, até Callais. Numa estação de serviço parei para perguntar
direções e de novo tomei café. Aí encaminharam-me de volta à
estrada por onde já seguia, e estava certo portanto! Cerca de 300km
depois, já imerso na Alta Normandia, os primeiros raios de luz
banhavam o asfalto e podia deslindar na paisagem várias turbinas eólicas a
girar. Alguns quilómetros adiante, logo depois de uma curva, avistei um
grupo de cerca de vinte refugiados na berma da auto-estrada e a pedirem
boleia, calculei eu. Talvez fossem também cruzar a estrada para
ficarem mais perto de um ponto de acesso escondido ao túnel do
comboio. Mas a surpresa, a velocidade da viatura e a impossibilidade
de voltar para trás não me permitiram dar-lhes transporte. Isso
poderia trazer-me problemas na fronteira também. Sim porque ela
ainda existe em plena União Europeia e ainda para mais, quando ela
já está claramente definida pela natureza. Uma ilha já tem
fronteiras que cheguem!
Callais. Coquelles.
Euro-túnel. A bilheteira. Uma nota preta para ter um título
flexível pois viajava sem regresso marcado. A alfândega francesa.
Tudo OK. Fila para a do Reino Unido e quando chegou a minha vez
vieram as perguntas desagradáveis. Entre o funcionário que estava à
janela de um posto parecido com o de uma portagem normal, e o vidro
desse pequeno cubículo emergiu de um modo pernicioso e repentino um
autêntico beef tingido de amarelo no seu cabelo e munido da
tal arrogância que os carateriza, não sendo contudo essa a verdade
geral, mas este funcionário alfandegário encaixava-se demasiado bem
nesse estereótipo. What do you carry in the back? Who are
you driving with? Is this your car? When did you buy it? How old are
you? What are you going to do in the UK? Are you a
musician? Já não podia mais com tanta impertinência,
arrogância e desadequação conjunta. Esta besta interpôs-se no
trabalho do seu colega para realizar isto? A menos que fosse o jogo
da “besta” boa e da “besta” má, pois foi o que pareceu. Por
trás desta viagem está um sonho de estudar música e áudio no
Reino Unido, por lá existir uma boa oferta de cursos nesta área. Se
bem que isso era mais verdade há uns quinze anos atrás. Hoje em
dia, em muitos aspetos Portugal ou o ensino à distância têm muitas
soluções nesta área. Contudo, um curso acessível ia começar
nesse dia, segunda-feira ao fim do dia em Glasgow. A inscrição já
tinha sido tratada há dias atrás e só faltava mesmo eu estar lá.
Para aproveitar mais o tempo em que lá estava, levava comigo um
conjunto de instrumentos para música eletrónica: máquinas de
ritmos, sintetizadores, a guitarra e vários discos de vinyl.
Com o inquérito para trás e uma raiva desmedida por aquele país
estar fora por opção própria, e excessiva, do espaço Shengen,
a estrada aguardava-me até onde quisesse ir. Pelas nove da manhã
parei para trocar euros por libras e respirar fundo antes de me
aventurar mais na condução à esquerda. A propósito, cuja
dificuldade é um mito, alimentado pelas autoridades locais que
insistem nisto para complicar e diferenciar o seu território e modo
de viver dos demais povos europeus. Todos somos iguais contudo e esta
não é mais do que uma bem visível face da política, orgulho e da
arrogância que carateriza as terras de sua majestade. Há gente boa
claro contudo, e tive a felicidade de conhecer pessoas impecáveis
por lá. Agora as medidas políticas e o sentimento maioritário no
povo são demasiado chauvinistas e incomodativos para com os
visitantes.
Pé na estrada pela M20
fora, de Dover até aos subúrbios de Londres onde me iria cruzar com
a M25, circular externa da metrópole europeia que hoje alberga quase
dez milhões de pessoas e de onde derivam várias estradas para os
restantes cantos do país. Ao início da entrada em solo britânico,
as torrentes de camiões, a maioria de matrícula estrangeira, já
impunham respeito, mas ao entrar na radial, a chusma de carros que se
juntaram a mim começava a ser e tornou-se mesmo avassaladora. Não
sei se por não ter dormido ou se por ser simplesmente aquela uma
situação ridícula, estúpida e incompreensível mas fiquei preso
no trânsito desde as onze da manhã de uma segunda-feira até às
três da tarde, na radial da maior cidade europeia hoje em dia. E
fazerem uma nova estrada? Ou aumentarem, ainda mais, o número de
faixas. Assim desconstruia o mito de que todos os britânicos entram
muito cedinho no emprego e fazem tudo bem e by the book.
Errado! Àquela hora não era possível que fosse diferente. Enquanto
o tempo passava e os meus olhos pestanejavam com cada vez mais peso e
morosidade, ia também ouvindo o vasto conjunto de boas rádios que
pululam o espetro radiofónico local. A Rinse e as suas sessões de
grime, rap e dubstep, assim como outras
semelhantes que descobri. E só este pequeno detalhe já fazia o meu
dia e valer a pena estar ali a viver aquela experiência traumática
do trânsito em Londres. Duas horas depois de estar literalmente
bloqueado na estrada, optei por uma saída desconhecida, que levava a
um centro comercial, ou antes uma área de serviço gigante. O mais
interessante é que de lá não poda ir para mais qualquer outro lado
pois não havia saída simplesmente! Aquele lugar era contudo nos
subúrbios de Londres. Um atalho mais curto ou um caminho sem aquela
avalanche de motores estava fora de questão. Só me restava parar,
sair, esticar as pernas, e porque já era hora de almoço, comer
algo. A comida já se apresentava de má qualidade e pouco mais me
restava escolher do que o KFC. Fast-food, fast-food, fast-food.
O que mais estava à mão de semear naquele país. Se bem que cada
vez mais a cultura gastronómica se compõe de culinárias do mundo o
que é divinal claro, mas isso sai sempre caro ao
cliente, ainda para mais em
Londres onde o custo de vida
é inflacionado a cada dia que passa tamanho é o aumento da procura
numa urbe onde a oferta de serviços se mantém.
A única explicação que encontrei para aquele bloqueio seria o
decorrer dos campeonatos de râguebi ali perto de onde me encontrava,
percebi em conversa com uma senhora inglesa também ela bloqueada no
parque de estacionamento e dentro do seu carro. Pelas
15H estava de novo a circular pela M25 e a entrar na M6, auto-estrada
que me levou até ao destino. Não havia que enganar, ou “can't
miss it” como dita a user-friendship daquelas
bandas, e ainda bem que assim é! O
crepúsculo chegou para encobrir a paisagem quando estava a vadear
Manchester. Quando cheguei à
Escócia já era noite cerrada, e a Glasgow era já onze. Bolas, e a
primeira aula já tinha acabado. Fiz o melhor que pude, e podia
culpar os ingleses por isso, que foi algo que os escoceses adoraram
ouvir!
O
curso de música, um
sonho, o meu carro,
um hotel perto da escola, o frio a chegar, eu instalado
naquele quarto que tinha criteriosamente escolhido por telefone antes
de ir, voltado
a sul com luz e espaçoso, o
staff simpático, a
vibe musical de
Glasgow, a sua familiaridade, e o tamanho razoável para nela habitar
e comutar.
O metro circular duma
cidade algo que não vira antes, matar
as saudades da gastronomia portuguesa na cadeia de restaurantes
Nando's, o
distanciamento tipicamente
nórdico dos locais, o bairro
onde fiquei, Ibrox, por alguns locais reputado como um subúrbio algo
estranho, pois era habitado por muito imigrantes. O hotel que
albergava refugiados calculo eu que estivessem a ser integrados na
sociedade pelo governo local. O
estádio dos Rangers que estava a duzentos metros do hotel e que
impunha respeito assim como as suas claques que em dia de jogo
espalhavam autocolantes, queimavam caixotes do lixo e obrigavam uma
parte do comércio a fechar mais cedo. E
o carro cansado da viagem mas agora bem resguardado com um lugar no
parque privativo do hotel. Todas estas foram impressões enquanto lá estive. As cinco semanas da minha estadia passaram depressa. Por vezes atingia-me a desrealização do porquê de
tudo aquilo. A música, a viagem, o sonho. E ia funcionando, aos
poucos. Eu ia
explorando as caixas de ritmos que levava comigo e criando batidas,
inspirado nos mestres brasileiros, e
carregava as canções na internet
para partilhar, apenas porque sim. Era o meu sonho.
www.soundcloud.com/joaocarlos1
O
alojamento estava a tornar-se caro mas os contratos de arrendamento
exigem a duração mínima de seis meses o que era inadequado ao que
pretendia. Para ter locais a
tentar dirimir esta questão aconselhei-me junto da instituição de
ensino para juntos encontrarmos solução, sendo que o que sucedeu
foi um e-mail enviado para todos os alunos por uma secretária do
diretor a perguntar se alguém poderia ceder um sofá até Dezembro a
um estudante, para evitar que ele dormisse num parque de
estacionamento. Ridículo, jocoso e muito pouco profissional. O ensino era
bom, mas as instalações não, e esta fora a gota de água. Como
tal, por já ter aprendido bastante para estar satisfeito, ainda para mais depois de um
fim-de-semana em Londres num curso intensivo de Ableton Live para
DJs, e por não ter pagar mais do que a primeira mensalidade, o destino impelia-me para sul. Quando chegasse ia redigir uma carta de reclamação. A chuva apoderava-se de Glasgow,
depois de a ela ter trazido
sol, segundo me diziam, pois outubro fora bastante equilibrado em dias estivais e temperaturas tépidas. Com
dois dos estudantes combinei ir tocar para a rua, que é um hábito
no centro da cidade de Glasgow, e assim foi. Em
duas horas, duas libras. Nada mau! Mas o frio já se fazia sentir na
Buchanan Street, e Portugal
aguardava-me, agora
com novos
ensinamentos, paisagens
vistas, pessoas cruzadas
e experiências vividas.
Lisboa chama-me mas a viagem agora será com uma paragem pelo meio.
João A.
Lisboa chama-me mas a viagem agora será com uma paragem pelo meio.
João A.
Japão é Outra Dimensão
3 de Junho de 2009
Faz hoje cinco dias que cheguei a este universo paralelo. A tecnologia está presente em todos os lados: incontáveis luzes a piscar nas ruas, casas-de-banho high-tech todas automatizadas, feitas de plástico que nem as nave espaciais e com jatos de limpar as nádegas e aquecimento no aro de sentar, luzes rotativas nas entradas dos restaurantes, comboios-bala que atingem os 300 km/h e interligam todo o país, telefones públicos com grandes painéis eletrónicos que indicam as moedas que ainda não foram usadas para realizar a chamada (entre outras informações todavia indecifráveis em japonês), os últimos modelos automóveis japoneses são os carros comuns que se avistam nas ruas, encontram-se facilmente lojas de equipamentos eletrónicos baratos, a internet é omnipresente com as maiores velocidades de upload que já vi... enfim uma lista enorme. A tecnologia faz parte da cultura local e parece comum entre o Japão que conheci até agora.
Depois de ter passado 3 dias em Tokyo, encontro-me neste momento na cidade de Nagoya, um dos principais centros tecnológicos e industriais do país, e base para a fábrica da Toyota. Na Europa, pelos países nos quais tinha até aqui viajado via igrejas em todas as cidades, para nem pensar no incontável número de igrejas que temos em Portugal. Pois bem, aqui no Japão avistam-se templos por toda a parte - templos budistas e os shintuístas, chamados "Shrines". Hoje visitei o Museu da Toyota e o Castelo de Nagoya. Os castelos em Portugal são do tipo geométrico bem recto, rectangular e deo tipo pedra-sobre-pedra. Pois bem, aqui os castelos são sumptuosos e requintados. Têm decorações douradas na fachada, os telhados têm as pontas dobradas, incluindo motivos especiais religiosos nos cantos e possuem vários andares, tomando alturas consideráveis. O tratamento oferecido ao cliente é de todo invulgar. Quando prestam um serviço, fazem-no com servidão, humildade e dedicando toda a atenção ao cliente. A palavra "acusaimass", significado de respeito e boa-educação é repeitda vezes sem conta num dia passado no Japão. Num museu ou numa casa de hóspedes típica japonesa "Ryokan", onde estou agora instalado, mesmo ao passarem ao teu lado ou nas tuas costas, falam algo incluindo o "acusaimass" como sinal de respeito. Tudo é servido com cuidado e toda a atenção é dedicada ao cliente. É um tratamento único, carregado de delicadeza, atenção e humildade.
Tokyo é uma cidade gigante onde o que salva um estrangeiro viajante ocidental é o metro e as suas indicações em inglês, caso contrário seria bem difícil mover-me na cidade. Chegado ao aeroporto recebi a hospitalidade de um jovem casal que estavam no mesmo caminho que eu, e me ajudaram na linha de comboio até ao hostel. Movidos pela generosidade e hospitalidade, tipicamente japonesas, levaram-me até ao hostel. O hostel disponibilizou as facilidades a que me fui habituando durante a viagem (mais na América do sul) como cozinha comum, internet wireless grátis, mas a diferença de que estava no Japão evidenciou-se, quando o beliche onde ficava a dormir era uma caixa de madeira com uma porta de deslizar. E como esta haviam mais quatro, dispostas 2*2.
A higiene é uma paranóia no Japão. As sanitas têm jatos para limpar o rabo, frequentemente se encontram saboneteiras com álcool para desinfetar as mãos em espaços fechados como museus e estações de metro e comboio, os sapatos ficam sempre à porta do quarto e no hostel onde fiquei em Tokyo na porta da rua(!), são distribuídos pacotes de lenços nas principais ruas de Tokyo (também como estratégia de marketing de algumas lojas), e as máscaras faciais são frequentes, e não são uma precaução adicional devido à tão falada gripe suína - já assim era antes deste surto.
Por vezes vem-me à cabeça o mundo dos anime: o Dragon Ball, a Sailor Moon, o Tsubasa, e o Japão tem de facto bastante da fantasia que se vê nesses desenhos. É uma sociedade diferente, inovada, "certinha", onde quase tudo acontece rapidamente, eficientemente e com pontualidade ao minuto. São algumas visões e opiniões da, provavelmente, mais tecnologicamente avançada sociedade do mundo. Amanhã rumo ao Japão mais rural, nas montanhas - à vila património da humanidade - Shirakawa-go.
Com saudade e um abraço,
João A.
Faz hoje cinco dias que cheguei a este universo paralelo. A tecnologia está presente em todos os lados: incontáveis luzes a piscar nas ruas, casas-de-banho high-tech todas automatizadas, feitas de plástico que nem as nave espaciais e com jatos de limpar as nádegas e aquecimento no aro de sentar, luzes rotativas nas entradas dos restaurantes, comboios-bala que atingem os 300 km/h e interligam todo o país, telefones públicos com grandes painéis eletrónicos que indicam as moedas que ainda não foram usadas para realizar a chamada (entre outras informações todavia indecifráveis em japonês), os últimos modelos automóveis japoneses são os carros comuns que se avistam nas ruas, encontram-se facilmente lojas de equipamentos eletrónicos baratos, a internet é omnipresente com as maiores velocidades de upload que já vi... enfim uma lista enorme. A tecnologia faz parte da cultura local e parece comum entre o Japão que conheci até agora.
Depois de ter passado 3 dias em Tokyo, encontro-me neste momento na cidade de Nagoya, um dos principais centros tecnológicos e industriais do país, e base para a fábrica da Toyota. Na Europa, pelos países nos quais tinha até aqui viajado via igrejas em todas as cidades, para nem pensar no incontável número de igrejas que temos em Portugal. Pois bem, aqui no Japão avistam-se templos por toda a parte - templos budistas e os shintuístas, chamados "Shrines". Hoje visitei o Museu da Toyota e o Castelo de Nagoya. Os castelos em Portugal são do tipo geométrico bem recto, rectangular e deo tipo pedra-sobre-pedra. Pois bem, aqui os castelos são sumptuosos e requintados. Têm decorações douradas na fachada, os telhados têm as pontas dobradas, incluindo motivos especiais religiosos nos cantos e possuem vários andares, tomando alturas consideráveis. O tratamento oferecido ao cliente é de todo invulgar. Quando prestam um serviço, fazem-no com servidão, humildade e dedicando toda a atenção ao cliente. A palavra "acusaimass", significado de respeito e boa-educação é repeitda vezes sem conta num dia passado no Japão. Num museu ou numa casa de hóspedes típica japonesa "Ryokan", onde estou agora instalado, mesmo ao passarem ao teu lado ou nas tuas costas, falam algo incluindo o "acusaimass" como sinal de respeito. Tudo é servido com cuidado e toda a atenção é dedicada ao cliente. É um tratamento único, carregado de delicadeza, atenção e humildade.
Tokyo é uma cidade gigante onde o que salva um estrangeiro viajante ocidental é o metro e as suas indicações em inglês, caso contrário seria bem difícil mover-me na cidade. Chegado ao aeroporto recebi a hospitalidade de um jovem casal que estavam no mesmo caminho que eu, e me ajudaram na linha de comboio até ao hostel. Movidos pela generosidade e hospitalidade, tipicamente japonesas, levaram-me até ao hostel. O hostel disponibilizou as facilidades a que me fui habituando durante a viagem (mais na América do sul) como cozinha comum, internet wireless grátis, mas a diferença de que estava no Japão evidenciou-se, quando o beliche onde ficava a dormir era uma caixa de madeira com uma porta de deslizar. E como esta haviam mais quatro, dispostas 2*2.
A higiene é uma paranóia no Japão. As sanitas têm jatos para limpar o rabo, frequentemente se encontram saboneteiras com álcool para desinfetar as mãos em espaços fechados como museus e estações de metro e comboio, os sapatos ficam sempre à porta do quarto e no hostel onde fiquei em Tokyo na porta da rua(!), são distribuídos pacotes de lenços nas principais ruas de Tokyo (também como estratégia de marketing de algumas lojas), e as máscaras faciais são frequentes, e não são uma precaução adicional devido à tão falada gripe suína - já assim era antes deste surto.
Por vezes vem-me à cabeça o mundo dos anime: o Dragon Ball, a Sailor Moon, o Tsubasa, e o Japão tem de facto bastante da fantasia que se vê nesses desenhos. É uma sociedade diferente, inovada, "certinha", onde quase tudo acontece rapidamente, eficientemente e com pontualidade ao minuto. São algumas visões e opiniões da, provavelmente, mais tecnologicamente avançada sociedade do mundo. Amanhã rumo ao Japão mais rural, nas montanhas - à vila património da humanidade - Shirakawa-go.
Com saudade e um abraço,
João A.
terça-feira, 29 de setembro de 2015
Guiné-Bissau, um país de muitas nações
Não é possível falar da Guiné-Bissau, sem falar da sua diversidade étnica. Se alguns mais desatentos, aos cambiantes do verde ou às configurações das linhas de água na paisagem, falam duma geografia monótona o mesmo não podem dizer da diversidade dos povos que ali habitam. Num pequeno território, que embora conte com mais de quarenta ilhas pouco maior é do que o Alentejo português, coexistem mais de vinte grupos étnicos com costumes, dialectos, religiões e organizações sociais distintas.
No fundo trata-se de povos diversos, de diferentes nações que coexistem há seculos no mesmo chão. Chão ou «tchon» é como designam os próprios o território da sua etnia, a sua terra. Este amor pelo seu chão chega a ser de tal ordem que alguns destes povos não se designam pela sua etnia mas sim pelo lugar de onde é originária a sua família como acontece entre os Manjacos. Nada que seja estranho em agricultores que dependem visceralmente da terra.
Tanta diversidade tem seguramente razões históricas. A terra fértil e de abundantes águas com uma orla oceânica extensa recebeu ao longo das épocas invasões de sucessivos povos fugidos à seca e à aridez das zonas mais a Norte, do Império do Gana, depois do Império do Mali que trouxe os Mandigas e por último dos Fulas do Reino de Futa Djallon oriundos do interior do actual território da Guiné-Conacri. Os portugueses chegaram no século XV e estabeleceram-se com fins comerciais na orla costeira penetrando mais tarde ao longo dos rios Cacheu e Buba na avidez de fazerem escravos.
Hoje neste pequeno país da África Ocidental as principais etnias são os Fulas que predominam na zona Oeste na região do Gabu e de Bafatá dedicando-se tradicionalmente à criação de gado e ao comércio, os Balantas que encontram-se em maior número na região Sul, nas zonas de Catió e a Norte, na Região de Oio, em volta de Mansôa, os Papeis a etnia maioritária na região de Bissau, os Manjacos que se concentram na região do Cacheu, os Mandingas com os seus subgrupos de Saracolés, Jacancas, Sôssos e Jaloncas que são o grupo maioritário no Norte e os Bijagós que ocupam as ilhas do Arquipélago do mesmo nome e vivem essencialmente da pesca.
A este mosaico de povos, acrescentou ainda o colonialismo português, os Cabo-Verdianos trazidos como subalternos para servirem na administração colonial ao mesmo tempo que punha etnias contra etnias para melhor oprimir a todas. Talvez muita da instabilidade politica da Guiné-Bissau no pós-independência se possa explicar mais por esta herança nefasta do que pela diversidade étnica. Seja como for a verdade é que não se pode ignorar esta diversidade imensa. É que basta estabelecer uma ligação mais próxima com um guineense para logo ele apresentar a sua etnia. Foi assim com o Francisco que é Papel, com a Sónia que é Bijagós, com o Joaquim que é Fula com o Pansur que é Balanta e com o Américo que é Mandinga.
AP.C
No fundo trata-se de povos diversos, de diferentes nações que coexistem há seculos no mesmo chão. Chão ou «tchon» é como designam os próprios o território da sua etnia, a sua terra. Este amor pelo seu chão chega a ser de tal ordem que alguns destes povos não se designam pela sua etnia mas sim pelo lugar de onde é originária a sua família como acontece entre os Manjacos. Nada que seja estranho em agricultores que dependem visceralmente da terra.
![]() |
| Centro de Bissau, 2015. |
Tanta diversidade tem seguramente razões históricas. A terra fértil e de abundantes águas com uma orla oceânica extensa recebeu ao longo das épocas invasões de sucessivos povos fugidos à seca e à aridez das zonas mais a Norte, do Império do Gana, depois do Império do Mali que trouxe os Mandigas e por último dos Fulas do Reino de Futa Djallon oriundos do interior do actual território da Guiné-Conacri. Os portugueses chegaram no século XV e estabeleceram-se com fins comerciais na orla costeira penetrando mais tarde ao longo dos rios Cacheu e Buba na avidez de fazerem escravos.
Hoje neste pequeno país da África Ocidental as principais etnias são os Fulas que predominam na zona Oeste na região do Gabu e de Bafatá dedicando-se tradicionalmente à criação de gado e ao comércio, os Balantas que encontram-se em maior número na região Sul, nas zonas de Catió e a Norte, na Região de Oio, em volta de Mansôa, os Papeis a etnia maioritária na região de Bissau, os Manjacos que se concentram na região do Cacheu, os Mandingas com os seus subgrupos de Saracolés, Jacancas, Sôssos e Jaloncas que são o grupo maioritário no Norte e os Bijagós que ocupam as ilhas do Arquipélago do mesmo nome e vivem essencialmente da pesca.
A este mosaico de povos, acrescentou ainda o colonialismo português, os Cabo-Verdianos trazidos como subalternos para servirem na administração colonial ao mesmo tempo que punha etnias contra etnias para melhor oprimir a todas. Talvez muita da instabilidade politica da Guiné-Bissau no pós-independência se possa explicar mais por esta herança nefasta do que pela diversidade étnica. Seja como for a verdade é que não se pode ignorar esta diversidade imensa. É que basta estabelecer uma ligação mais próxima com um guineense para logo ele apresentar a sua etnia. Foi assim com o Francisco que é Papel, com a Sónia que é Bijagós, com o Joaquim que é Fula com o Pansur que é Balanta e com o Américo que é Mandinga.
AP.C
Sónia
E se fosse contigo? E se tivesses saído de casa para comprar tabaco, já noite alta, mesmo sabendo que estás em África e não podes sair sozinho porque o teu Chefe de Missão não permite, por razões de segurança, e entrasses num bar, comprasses o teu Marlboro branco que aqui se vende ao preço da chuva e já de saída escutasses uma rapariga que te chama de uma mesa e te pede um isqueiro e então lhe acendesses o cigarro como cavalheiro branco que és, e depois te sentisses puxado pelo braço, convidado a sentar e te sentasses mesmo. Um pouco de conversa, que mal tem? Para ti que até já estás farto de falar sempre as mesmas conversas com os colegas e os outros estrangeiros nas reuniões e reuniões que se sucedem sem propósito nem préstimo, as mais das vezes só para cumprir agenda e calendário.
Darias uns dedos de conversa não é? Não muitos claro, porque sabes que não podes andar a esta hora na rua, já noite alta, mas trocar o número de telemóvel para ligar mais tarde é rápido. E imagina que estás fascinado por África, que a rapariga te agradou nas feições, no trato, naquela cor preta e imensa de ébano. Regressas ao teu hotel, ninguém deu por nada, vais-te deitar e depois adormeces a pensar nela. Na Sónia que só te disse esse nome.
E se de manhã te tivesses acordado a pensar nela, a pensar em ligar-lhe? Até porque é fim de semana e tens mais uma «liberdadezinha» de te escapares do teu grupo e de te perderes na cidade. E se ligasses e ela atendesse logo? Que sim, que pode ser e marcas para a Império aquela pastelaria fina que fica mesmo em frente ao Palácio do Presidente, sítio mais que seguro porque até estão lá militares das forças de manutenção de paz das Nações Unidas, nos seus carros de combate «fashion», brancos estampados de United Nations e assim o teu chefe nem se importa que andes por ali. E ficas à espera da rapariga, a observar tudo. Os brancos que ocupam a maioria dos lugares, alguns negros, os táxis pintados de branco e azul que vão chegando e descarregam mais estrangeiros porque na Estação das Chuvas é assim, fica difícil deslocarem-se e então para evitar as ruas esburacadas, as poças de água que enchem os buracos, as lamas, as chuvadas torrenciais, os charcos e torrentes que escorrem, tu e os outros que até têm dinheiro, andam mais de táxi.
E a Sónia chega. Atravessa o salão. Avança para a tua mesa. Linda num decote sensual encimado por aquele sorriso largo e limpidamente branco. E beija-te. Ali em frente de todos como se já fosse tua. Os olhos caem todos em cima de ti. Ou dela? E conversam. «Meu pai era português mas nunca me registou, saiu daqui tinha eu cinco anos. Era militar. A minha mãe era de etnia Papel.» «Nasci aqui em Bissau. Tenho duas irmãs em Portugal.» «Aqui não há trabalho, moro sozinha.» «Gosto de ti.» «Stamos djuntos» (1). Dizes que sim. E ela continua a falar. Uma torrente de estórias sedentas de serem contadas. Toca-te na mão e tu já sabes que os olhos dos brancos e dos negros te iluminam como holofotes. Que fazes?
Sónia continua a falar. Fico lá no bar todas as noites. Onde te pedi o isqueiro. Mas não vou com qualquer um. Sou puta fina. Mas de ti eu gosto. «Stamos djuntos»? E agora que respondes? Não vais responder «No pintcha»(2) porque sentes a cabeça a estalar como se um trovão te tivesse rebentado no mais fundo do cérebro. E ficas quieto. Uma lágrima quer descer do canto do teu olho. Mordes os lábios. Não deixas.
Bissau 3 de Agosto de 2015
AP.C.
(1) Stamos djuntos – expressão de afecto em Kriol da Guiné-Bissau
(2) No pintcha – em frente, avançar em Kriol da Guiné-Bissau
Darias uns dedos de conversa não é? Não muitos claro, porque sabes que não podes andar a esta hora na rua, já noite alta, mas trocar o número de telemóvel para ligar mais tarde é rápido. E imagina que estás fascinado por África, que a rapariga te agradou nas feições, no trato, naquela cor preta e imensa de ébano. Regressas ao teu hotel, ninguém deu por nada, vais-te deitar e depois adormeces a pensar nela. Na Sónia que só te disse esse nome.
E se de manhã te tivesses acordado a pensar nela, a pensar em ligar-lhe? Até porque é fim de semana e tens mais uma «liberdadezinha» de te escapares do teu grupo e de te perderes na cidade. E se ligasses e ela atendesse logo? Que sim, que pode ser e marcas para a Império aquela pastelaria fina que fica mesmo em frente ao Palácio do Presidente, sítio mais que seguro porque até estão lá militares das forças de manutenção de paz das Nações Unidas, nos seus carros de combate «fashion», brancos estampados de United Nations e assim o teu chefe nem se importa que andes por ali. E ficas à espera da rapariga, a observar tudo. Os brancos que ocupam a maioria dos lugares, alguns negros, os táxis pintados de branco e azul que vão chegando e descarregam mais estrangeiros porque na Estação das Chuvas é assim, fica difícil deslocarem-se e então para evitar as ruas esburacadas, as poças de água que enchem os buracos, as lamas, as chuvadas torrenciais, os charcos e torrentes que escorrem, tu e os outros que até têm dinheiro, andam mais de táxi.
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| Foto de autor desconhecido. |
Sónia continua a falar. Fico lá no bar todas as noites. Onde te pedi o isqueiro. Mas não vou com qualquer um. Sou puta fina. Mas de ti eu gosto. «Stamos djuntos»? E agora que respondes? Não vais responder «No pintcha»(2) porque sentes a cabeça a estalar como se um trovão te tivesse rebentado no mais fundo do cérebro. E ficas quieto. Uma lágrima quer descer do canto do teu olho. Mordes os lábios. Não deixas.
Bissau 3 de Agosto de 2015
AP.C.
(1) Stamos djuntos – expressão de afecto em Kriol da Guiné-Bissau
(2) No pintcha – em frente, avançar em Kriol da Guiné-Bissau
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Trevo de Cinco Estrelas
Já do espaço aéreo se
avista o verde. E isso será o que mais se vê nesta ilha. Verde,
verde, verde. E diga-se que há também mais esperança por lá do
que por cá mas isso fica para outra crónica. A capital Dublin,
batizada com o seu nome original celta como “Dublinia”, tem a
dimensão perfeita. Não demasiado grande, com cerca
de meio milhão de habitantes e com bons acessos, pouco tráfego e o
aeroporto a cerca de 20-30 minutos do centro de autocarro.
Surpreenda-se quem esperar que lá haverá metro. Não, ou melhor,
sim há mas é de superfície. O "tram" ou LUAS como é
chamado. A vida no centro da cidade oscila bastante em torno da Dame
Street, que está para a capital da Irlanda, assim como a Rua Augusta
está para Lisboa. Muito tráfego de carros, pessoas e bicicletas
também, tanto das simples, como das mais recentes versões de "tuk-tuk" a
pedais. Mesmo ao lado da Dame Street, recomenda-se a incursão pelo
bairro do Temple Bar adentro. E o Temple Bar não é na sua origem um
Bar, ao contrário do que alguns tentarão apregoar a troco do lucro
dos seus estabelecimentos. Temple Bar é sim uma antiga via de
comunicação que foi aberta ao longo do Rio Liffey, e em torno da
qual, vários negócios se foram instalando com o passar das décadas
e séculos. A palavra Bar no inglês mais arcaico tem o significado
também de viela, correnteza, caminho. Recomenda-se a passagem por
esta área, que é obrigatória mesmo!
No final da Dame Street,
no lado oposto ao Trinity College, encontra o mais famoso
“fish&chips” da Irlanda. É ultra-pequeno, informal, mas é
tão aclamado e famigerado que à sua entrada há uma tabuleta com
todas as celebridades que já lá foram partilhar o pouco oxigénio
ali existente no meio de tamanho festim da fritura! A comida é boa,
mas para nós portugueses habituados à nossa gastronomia, poderá
saber a pouco, e a óleo também. Mas isso fará parte do "fish"
e das "chips". Para explorar toda esta área que inclui
também o Castelo, recomendo as “Free Street Tours”, que começam
junto ao antigo edifício da câmara municipal e junto ao teatro. No
final haverá uma "chantagenzinha" "suave” para pedir um
donativo, mas será bastante razoável dizer que o pagamento de algo
ente 5 ou 10 euros por pessoa é merecido. Em Dublin respira-se
história. A cidade foi palco de importantes revoluções como por
exemplo a Republicana, liderada por Michael Collins, o IRA e o Sein
Feinn. A visita à prisão Kilmainham Gaol é um tempo bem despendido
para melhor entender as lutas do passado que levaram à libertação
deste povo do jugo britânico.
Fora da capital há varias
atrações. Um carro alugado, boleia ou bicicleta são hipóteses a
considerar mas chegar a alguns dos sítios com uma visita programada
de autocarro, para quem estiver com pouco tempo, é igualmente uma
boa forma de ir. E os autocarros partem da Dame Street, para nossa
surpresa! Muito gravita em torno de lá. A rede viária na ilha é
muito boa, se bem que algumas estradas junto à costa ou em zonas mais
recônditas poderão ser muito estreitas. Uma das principais atrações
da ilha está na ponta norte, a Calçada do Gigante, e a coroa
britânica não guardou isto para eles por acaso, parece-me! Trata-se
de uma formação geológica muito antiga que originou um conjunto de
prismas hexagonais de várias dimensões. Reza contudo a lenda que
havia ali um gigante por perto, e no outro lado do canal que separa a
ilha da Escócia, outro monstro semelhante. Certo dia, o gigante
Irlandês caminhou sobre a calçada para ir falar com o seu homólogo
escocês, e lá chegando desgarrou-o para um desafio em solo seu,
claro. Esperto! Ao retornar a casa, o gigante irlandês confessou à
sua mulher o sucedido, pelo que ela preocupadíssima, decidiu
dissuadí-lo dessa briga. Como tal, combinou que assim que o gigante
da outra margem batesse à porta iria informar que ali não estaria
mais ninguém e disfarçá-lo só para jogar pelo seguro. Assim foi: “Truz-truz”, e ela abriu e falou, ao
que o gigante retorquiu “Gostaria de falar com o seu marido.”
“Mas aqui não está mais ninguém, só o meu bebé”. Contudo o gigante
quis vê-lo. Azar dos diabos para o escocês, o gigante da Irlanda
estava disfarçado de bebé, ocupando um enorme espaço do quarto.
“Mas que grande bebé aí tem minha senhora” afirmou, e logo depois
ele retornou à sua Escócia. Assim reza a lenda... embora não abone
muito a favor dos irlandeses. Nesta ponta da ilha vale também a pena
espreitar Carrick-a-rede, atravessando a ponte de cordas, se bem que
haverá muita gente para fazer esta experiência que é encarada como
um desafio físico ao ar-livre, por todos literalmente, desde os
miúdos até aos mais idosos. As paisagens claro são bonitas,
resplandecentes nos seus tons vivos de verde, e abismais e dramáticas
nas suas acentuadas falésias de pedra escura. Também na Irlanda do
Norte, a paragem em Belfast justifica-se pois a história de
conflitos, tensões e escaramuças é ainda sentida. Desde as
bandeiras, ou a omnipresença ou o excesso delas, da Union Jack,
penduradas nas janelas apenas porque sim, para afirmar a ocupação,
até aos extensos e coloridos murais políticos que podem ser vistos
numa zona protestante, que aludindo à paz universal, aos líderes
mundiais, aos presos políticos da República da Irlanda e de outros,
como por exemplo da ETA, são um conjunto significativo de arte visível para toda a cidade. Mas cuidado, se vão numa visita
programada de autocarro, devem estar atentos às horas pois ainda são
necessários 20 ou 30 minutos para chegar a pé até este lugar desde
o centro, ou da Câmara da Cidade até lá. O táxi é outra hipótese
também claro. O museu em honra do Titanic é também uma
possibilidade mas fica bastante fora de mão do centro, deverá
contudo valer a pena.
À exceção das cidades, dos pontos turísticos e outros legados patrimoniais, esta ilha de cinco milhões de habitantes é na sua essência paisagem. São uma imagem de marca da ilha, tanto na Irlanda, República, assim como na Irlanda do Norte, que por ser bastante plana e por lá abundarem lendas celtas e visigodas, por vezes nos dá a impressão ser na sua essência isso: um enorme planalto verde de trevos de quatro folhas, por entre os quais saltitam seres fantásticos como duendes “lepreachons”, reis, rainhas e espadachins imortais. Nas pontas mais a sul e a oeste, encontram paisagens admiráveis junto a Galway, como nos famigerados Cliffs of Moher, mas que apenas aconselho em dias limpos, em que poderá "inclusive" ver estas falésias do mar em barco. Mas fora destas condições deve pensar-se duas vezes. Em Maio e Junho há mais dias de sol e menos precipitação em toda a ilha pelo que é uma boa opção. Perto de Galway também há um pequeno tesouro guardado sob a forma de vila piscatória. E chama-se Kinvarra. A Ericeira da Irlanda, mas sem uma praia... tão boa pelo menos, claro. Não obstante vale claro a pena, para rever o nosso oceano assim como o braço de água que reentra pela pantanosa doca dos barcos adentro, ladeado por um singelo e apreciável castelo.
Em termos de infra-estruturas e organização dos serviços de apoio ao turista, as duas Irlandas estão muito bem organizadas. Ainda quanto à capital Dublin, as “hop-on hop-off tours” continuam a ser uma valia, apesar do risco associado a ir no piso superior ao ar-livre e de repente começar a chover. E a cultura é omnipresente. As encantadoras e singelas canções celtas assim como a literatura são ubíquas por estas terras. Nota final para o país dos trevos: 5 estrelas. Boa viagem!
João
| Os evidentes e repetitivos sinais da ocupação da coroa britânica no norte da ilha. "Não havia necessidade." |
À exceção das cidades, dos pontos turísticos e outros legados patrimoniais, esta ilha de cinco milhões de habitantes é na sua essência paisagem. São uma imagem de marca da ilha, tanto na Irlanda, República, assim como na Irlanda do Norte, que por ser bastante plana e por lá abundarem lendas celtas e visigodas, por vezes nos dá a impressão ser na sua essência isso: um enorme planalto verde de trevos de quatro folhas, por entre os quais saltitam seres fantásticos como duendes “lepreachons”, reis, rainhas e espadachins imortais. Nas pontas mais a sul e a oeste, encontram paisagens admiráveis junto a Galway, como nos famigerados Cliffs of Moher, mas que apenas aconselho em dias limpos, em que poderá "inclusive" ver estas falésias do mar em barco. Mas fora destas condições deve pensar-se duas vezes. Em Maio e Junho há mais dias de sol e menos precipitação em toda a ilha pelo que é uma boa opção. Perto de Galway também há um pequeno tesouro guardado sob a forma de vila piscatória. E chama-se Kinvarra. A Ericeira da Irlanda, mas sem uma praia... tão boa pelo menos, claro. Não obstante vale claro a pena, para rever o nosso oceano assim como o braço de água que reentra pela pantanosa doca dos barcos adentro, ladeado por um singelo e apreciável castelo.
Em termos de infra-estruturas e organização dos serviços de apoio ao turista, as duas Irlandas estão muito bem organizadas. Ainda quanto à capital Dublin, as “hop-on hop-off tours” continuam a ser uma valia, apesar do risco associado a ir no piso superior ao ar-livre e de repente começar a chover. E a cultura é omnipresente. As encantadoras e singelas canções celtas assim como a literatura são ubíquas por estas terras. Nota final para o país dos trevos: 5 estrelas. Boa viagem!
João
domingo, 20 de setembro de 2015
Novidades do Árctico
Da
janela do Fairmont Chateau Hotel vejo o Parlamento ao nascer do sol.
Há 11 dias que não vejo noite, a folha de maple na bandeira
lá no alto da torre sobressai e apercebo-me, estou no Canadá. Foi
tudo tão rápido, tão de repente tão intenso que só agora a
observar esta vista percebo, sim, estou no Canadá, sim, estive na
Gronelândia. É difícil e longo explicar tudo o que se passou nos
últimos dias, foi tanta coisa e tão impactante! Mas vá vou tentar
em poucas palavras. Recebi um mail da
Lindblad a perguntar quem está disponível para uma Expedição ao
Árctico. Eu disse: "Eu estou", pensando que nunca me iam
chamar, mas olha 6 dias depois lá estava eu no avião rumo ao
Canadá. O mais difícil de tudo foi arranjar roupa para ao Árctico
em Agosto em plenos saldos de verão, num país onde a neve nem é
bem à séria, corri todos os centros comerciais e mais alguns em
Lisboa e arredores, lá consegui compor uma mala mais ou menos e lá
fui eu. borradinha de medo... Este salto é bem maior que a minha
perna.
Mas
afinal o que é tudo isto? A Lindblad faz cruzeiros de expedição ou
seja é como se fossemos num barco do Jacqes Cousteau acompanhados do
Tio Attenborough. A bordo vão 148 passageiros, 80 crew e uns
20 staff. O staff inclui fotógrafos National Geographic,
mergulhadores e naturalistas (biólogos, historiadores, oceanógrafos,
arqueólogos, antropólogos etc...). A ideia é explorar um destino
tal como se vê nos documentários, ultrapassando todos os limites
para produzir uma viagem de sonho.
![]() |
| Ursos polares no Árctico - Foto de Madalena |
Desta vez o sonho era o High Arctic e atingir pelo menos os 75º Norte. Mas como em qualquer expedição, imprevistos acontecem e o imprevisto desta vez foi que o mar gelou. Gelou de tal maneira que o ponto de origem e o fim da viagem (Iqaluit), assim como metade do percurso tiveram de ser alterados. O Barco apesar de ser apropriado para navegar no gelo, quebrar plataformas e explorar estas águas não podia ir ao porto de Iqaluit. Então a Lindblad o que é que fez? Podia ter cancelado a viagem pedir desculpas aos hóspedes e dizer que por questões climatéricas a viagem não podia acontecer. Poder, podia mas não era a mesma coisa. Então... Reservou um avião e levou toda a gente para outro aeroporto, charter para todos os hóspedes, e o itinerário mudou mas a viagem continuou. Isto implica uma logística dos diabos, como por exemplo 40 000 dólares extra em combustível, aviões extra, voar a migração a outro destino para tratar dos documentos todos, etc., etc. Mas a expedição não seria cancelada...
Assim
sendo voámos de Ottawa para Kangerlussuaq, na Gronelândia, e daí
começou a expedição. Viajamos entre os Fiordes, Glaciares e
Icebergues da Gronelândia e do Canadá, no Árctico Norte. Visitámos
vilas de Inuits (por nós conhecidos como esquimó mas cujo nome
correcto deste povo aborígene é Inuit que significa "as
pessoas" em Inuktitut), ruínas de vikings e ruínas de
acampamentos de verão de Inuits decoradas com ossos de baleias e com
muitos vestígios arqueológicos da sua presença no deserto do Ártico. Não foi das viagem com mais vida selvagem (fiquei a aguar
umas belas baleias e orcas) mas deu para ver muita coisa... Em cada
avistamento era impossível esconder a excitação, a emoção o
êxtase, afinal não é todos os dias que se vê uma morsa a apanhar
banhos de sol ou uns ursos polares a dormirem a sesta...
Como
sempre a expedição foi o máximo, correu tudo bem e felizmente não
tive que disparar nenhum tiro! Por questões de segurança o staff
(que tenha carta para tal) leva uma carabina e uma pistola, para
ocaso de se dar um encontro inesperado com um urso polar. juro que
quando tirei a carta de caçador jamais imaginava que essa fosse a
razão que me levasse ao Pólo Norte... Ele há coisas nesta vida do
arco da velha! Histórias e momentos da viagem há muitos para contar
mas desta vez não me vou alongar mais, deixo aqui apenas um pequeno
best off destes dias que até hoje acho que não acredito que
existiram... OOO ÁRRCCTTIICCCCOOOO ÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ LLINNNNDDDOOOOOOO!!!!
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