terça-feira, 30 de agosto de 2016

"Pensas Demasiado"

Quando estive a trabalhar em Moçambique, em 2011, a minha função era prestar apoio no planeamento das instalações de sistemas de energias renovável, tanto no interior do país, como na capital - Maputo. Eu trabalhava muito com o director local. E nas reflexões que eu fazia em virtude das tarefas dos projetos que era necessário implementar no terreno, ele disse-me certo dia: "João, tu pensas demasiado nas coisas." E disse-o de uma forma pejurativa para comigo. Como se pensar fosse uma perda de tempo, uma atrapalhação. Não me recordo exatamente qual a minha resposta, mas basicamente indiquei que isso era algo de positivo, e não de negativo. Em minha defesa e de tantas outras pessoas, mentes, reflexões e ideias.

E fi-lo por vários motivos: Só o questionamento permite alcançarmos sozinhos a verdade. O descobrimento é o melhor processo de aprendizagem. E tanto a razão, como a emoção e a intuição fazem parte dele. Para além do mais, questionar, ou como se diz de um modo mais erudito, cogitar é também sinal de existência. Escreveu Descartes, em Latim: "Cogito Ergo Sum". Que traduzido indica: Penso (cogito), logo existo (sou).

Pensar é um dom do ser humano. É algo que nós temos a sorte de fazer. E como tal, temos que usar isso. Se não o fazemos muito ao longo da nossa vida é porque:
i) A educação que tivemos não nos propiciou muito a questionar, refletir, e descobrir por nós mesmos, mas antes pelo contrário a ouvir, assimilar e não perguntar/duvidar, pois isso seria visto como "uma perda de tempo"...;
ii) Porque não nos é dado tempo para tal, na vida adulta, ao correr constantemente "atrás do prejuízo";
iii) Porque a sociedade muitas vezes interpreta mal e rejeita mesmo muitas vezes ideias novas e revolucionários, por muito mais avançadas e melhores que sejam. Quantos exemplos a história nos mostra: Giurdano Bruno e  Leonardo da Vinci,o primeiro morto pelas suas ideias vanguardistas e o segundo quase morto por motivos semelhantes, ou Colombo e Fernão de Magalhães, desprezados pelos governantes de Portugal, e que como tal foram antes patrocinados por Espanha.

Fica então demonstrado como comentários julgativos que atentem sobre o direito a usurfruir do máximo do seu inteleto, são desprovidos de lógica, e não acrescentam nada de positivo. As melhores empresas de hoje em dia são as que têm as melhores ideias. Porque as boas ideias compensam, tanto na vida pessoal, como nos negócios também. Quem teve a ideia da Google comprar o Blogger? Alguém sentiu a epifania. E melhor, quem teve a ideia de criar o Blogger no qual escrevo agora, e você lê? São resultado de processos de cogitar, questionar, refletir, idealizar. E claro, depois agir/implementar/concretizar.

Bem, comigo, a reflexão continua, e segue pela vida fora. Entrosei-me nela desde miúdo, e espero refletir sempre e para sempre. Não abdico, pois é sinal que estou vivo, e de acordo com os meus valores, pensamentos e descobrimentos também.

:)

















João Aguiar

30 de agosto de 2016,

Lisboa, Portugal




domingo, 15 de maio de 2016

Os Francos Cefas da Guiné-Bissau

Um dos desafios que os estrangeiros enfrentam na Guiné-Bissau sobretudo nos primeiros dias é o do dinheiro. Converter Euros na moeda da Guiné-Bissau, ou seja em Francos CFA, pode revelar-se a princípio uma tarefa difícil pela desproporção numérica entre as duas moedas. Um único euro vale 655,99 francos CFA. Os Francos CFA (Comunidade Financeira Africana) são uma moeda comum a oito países da África Ocidental: Benim, Burkina Faso, Costa do Marfim, Mali, Níger, Senegal, Togo e Guiné-Bissau que a adoptou também em 1997. Um facto com o qual Portugal nunca lidou muito bem, mas isso é outra conversa. Os guineenses popularizaram-na sob a denominação de cefas, omitindo o franco e crioulizando o CFA. A moeda foi criada pelos franceses ainda na época colonial para circular nos seus territórios da África Ocidental e continua ainda na actualidade a ser garantida pelo Tesouro Francês. As moedas e as notas no entanto, só têm de francês a sua garantia e as frases escritas certificando a sua origem. Tirando as frases, são moedas e notas que falam africano. Num grafismo apelativo onde invariavelmente está presente o Peixe-Serra estilizado, símbolo mitológico regional da fecundidade e da prosperidade, a fazer lembrar à primeira vista uma máscara africana.


As moedas e notas, assemelham-se ao euro, em muitos aspectos. A moeda de 250 Francos CFA é bimetálica, como as moedas de um e dois euros, mas aqui é a parte central que é dourada e o anel em redor que tem a cor prata. Na face ao continente africano na sua totalidade sobrepõem-se o Peixe-Serra estilizado e no reverso as espigas de milho e o valor facial. Convêm lembrar que embora reluzentemente bonita não chega a valer 40 cêntimos de Euro. Nas moedas de 200 e 500 aparecem também produtos agrícolas, cacau, café, banana e arroz sempre estilizados.

As notas são também uma maravilha em termos do grafismo que nos convoca a todo o momento à realidade e à riqueza de África. No reverso da nota alaranjada de 500 Francos CFA um casal de hipopótamos, na de 1000 em cor de tijolo um casal de dromedários da zona do Sahel, na azul de 2000 duas moreias nadando no fundo do mar, na verde de 5000 antílopes descansando na savana. A de 10000 Francos de cor violeta apresenta dois pássaros da selva lindíssimos de papo verde bordejado a negro. A frente das notas tem caracteristicamente uma nota de esperança e de futuro além do omnipresente Peixe-Serra, imagem de marca do Banco Central dos Estados da África Ocidental. Na de 10000 aparece uma arroba a lembrar as novas tecnologias da informação e comunicação e uma antena de satélite. Noutras os meios de comunicação, autocarros atravessando os rios, a vista aérea de um campo agrícola, circuitos eletrónicos e teclados numéricos, o continente africanos, motivos farmacêuticos, livros, ardósias e um globo terrestre.

Uma última nota sobre a dificuldade em se obter dinheiro na Guiné-Bissau. As caixas automáticas não aceitam habitualmente os cartões multibanco. À conta disso conheci a quase totalidade dos bancos de Bissau. Só nas caixas automáticas do aeroporto, do Hospital e do Ecobank perto da Praça dos Heróis consegui fazer levantamentos. Em Bafatá também fiz levantamento automático na caixa do Ecobank mas as comunicações muitas vezes falham. Os euros são bem recebidos e trocados em toda a parte e as transferências de dinheiro pela «Western Union» fazem maravilhas e resolvem todas as aflições pela sua rapidez.