sábado, 30 de dezembro de 2017
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
Locais de Venda - Os Meus Descobrimentos
i) Lisboa
Livraria Ferin - Chiado - R. Nova do Almada
Livraria Ler Devagar - Lx Factory
Palavra de Viajante - Rua de São Bento
Livraria Ler - Campo de Ourique
Livraria da Cossoul - Santos
Letra Livre - Calçada do Combro
Livraria Papelaria Fonsecas - Intendente
Distopia - Rua de São Bento
Livraria Mais - Rua de Luanda, Parede
Livraria Linha de Sombra - Cinemateca - R. Barata Salgueiro
GATAfunho, loja de livros - Oeiras
Leituria - Rua Dona Estefânia
Livraria Menina e Moça - R. Cor-de-rosa, Cais do Sodré
ii) Porto
Flâneur
Espiga / Muita Terra
Livraria Ler Devagar - Lx Factory
Palavra de Viajante - Rua de São Bento
Livraria Ler - Campo de Ourique
Livraria da Cossoul - Santos
Letra Livre - Calçada do Combro
Livraria Papelaria Fonsecas - Intendente
Distopia - Rua de São Bento
Livraria Mais - Rua de Luanda, Parede
Livraria Linha de Sombra - Cinemateca - R. Barata Salgueiro
GATAfunho, loja de livros - Oeiras
Leituria - Rua Dona Estefânia
Livraria Menina e Moça - R. Cor-de-rosa, Cais do Sodré
ii) Porto
Flâneur
Espiga / Muita Terra
iii) Sines - A das Artes
iv) Viseu - Livraria Alfarrabista Sidarta
v) Guimarães - Almanaque 23
vi) Brasil - Livraria Cultura / FNAC Brasil
vii) Portugal - encomendar no site - osmeusdescobrimentos.com/#compraonline
viii) Para qualquer parte do mundo - Através da Amazon - disponível nos próximos dias
A lista completa está também em - osmeusdescobrimentos.com/#locaisdevenda
E o mapa das livrarias está aqui.
E o mapa das livrarias está aqui.
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
Os Meus Descobrimentos - de João Aguiar
📕 Os Meus Descobrimentos
🌐 Volta ao Mundo em Couchsurfing
🌐 Lançamento em dezembro/2017
quarta-feira, 1 de novembro de 2017
Engenheiro da Aldeia
Estávamos no mato de Moçambique, algures entre as províncias de Gaza e Inhambane. Um jipe viajava em missão de reconhecimento e levantamento de necessidades energéticas das aldeias nesta região. Um dos ocupantes era o Osvaldo, funcionário da fundação estatal que atribuía energia a localidades remotas do país. O outro era eu, a conduzir a viatura, funcionário duma empresa portuguesa que instalava os sistemas de energia renovável nessas aldeias. A paisagem era de árvores e mato denso. E as estradas não eram bem estradas, porque apenas havia dois sulcos paralelos recortando a paisagem, de onde aflorava areia, a essência escamoteada daquelas terras. Ali ao lado, a cerca de cem quilómetros estava o Kruger Park, o mais famoso parque de vida selvagem, com uma natureza tão bela e virgem quanto perigosa e mortal. Por mais que estivesse relaxado e focado nesta missão entre mãos, imaginava a possibilidade de nos cruzarmos no jipe com animais como leões, uma manada de elefantes enfurecida, rinocerontes, ou cobras, e quantas havia lá naquele país. A viagem prosseguia incessante e cronometrada. Depois de passar as aldeias de Mabote e Machaíla, conduzia a caminho de Chigubo. Era uma missão com prazos apertados, e uma gestão constante do combustível, horários, quilometragem, recursos alimentares, etc.
João Aguiar
Nessa estrada, a certo ponto, soltou-se um estrondo ribombante a partir da parte esquerda do jipe, uma Mahindra, de fabrico indiano, ao mesmo tempo que a direcção do jipe ginou para a esquerda. Valeram as linhas fundas que faziam a estrada, por onde as rodas deslizavam, que mantiveram o jipe no trajecto. Saindo cá para fora, vi que o jipe estava com a roda de trás em baixo. E isto por causa de um tronco tombado na estrada, mas que por não estar completamente chegado para fora, a ponta ainda foi suficiente para embater na jante e assim abrir uma valente fuga de ar, por deformação de um aro da roda. Com o apoio do Osvaldo, martelei aquilo com veemência, usando chaves metálicas pesadas que vinham com o jipe. E o aro da roda ficou mais redondo, apesar de não estar fechada a saída de ar. O suficiente para seguir viagem pelo menos.
A população mais próxima estaria a cerca de uma hora de caminho, pela savana. Seguimos em frente. Não havia indicações, sinais nem quaisquer marcas rodoviárias. E claro, se nem estrada havia sequer. Tudo o que havia eram duas linhas paralelas que se tocavam num ponto de fuga, preso no infinito, assim como toda a restante savana. Mas por outro lado, só havia uma direção a seguir, e era difícil perdermo-nos se a viatura seguisse essas marcas. Enfim, atravessámos a mata densa e plana até ao limite da vista, para de repente se ver o firmamento moçambicano celeste que tão belo combinava com o sol radiante e tórrido africano. Finalmente uma aldeia. Primeiro uma escola, depois um conjunto de cabanas, simples, espartanas, de lama e palha, um pouco mais à frente. Ali ao lado um pequeno largo central daquela aldeia. Parei o jipe na entrada da escola. Com uma arquitectura de escola do período colonial, igual àquela em que o meu pai estudou, e a tantas outras espalhadas por Portugal e pelo antigo mapa colonial lusitano. Perguntei a um professor se conhecia alguém que nos pudesse arranjar a roda do jipe. Apanhados de surpresa, ele e a sua classe, ao que me pareceu, do ciclo primário, ficaram a matutar por instantes, para depressa o professor indicar o nome do Senhor Valter, a viver ali a poucos metros da escola. A aldeia era pequena, e por isso, lá chegámos depressa. No caminho as pessoas curiosas, acenavam, sorriam, aproximavam-se. Mas na correria para cumprir os prazos todos, e acima de tudo voltar com o jipe inteiro a Maputo, não houve o tempo para socializar. No pior dos casos, contudo, voltaríamos à boleia ou de "machimbombo", os autocarros locais. Por isso, haveria sempre solução, e uma estava para chegar.
A população mais próxima estaria a cerca de uma hora de caminho, pela savana. Seguimos em frente. Não havia indicações, sinais nem quaisquer marcas rodoviárias. E claro, se nem estrada havia sequer. Tudo o que havia eram duas linhas paralelas que se tocavam num ponto de fuga, preso no infinito, assim como toda a restante savana. Mas por outro lado, só havia uma direção a seguir, e era difícil perdermo-nos se a viatura seguisse essas marcas. Enfim, atravessámos a mata densa e plana até ao limite da vista, para de repente se ver o firmamento moçambicano celeste que tão belo combinava com o sol radiante e tórrido africano. Finalmente uma aldeia. Primeiro uma escola, depois um conjunto de cabanas, simples, espartanas, de lama e palha, um pouco mais à frente. Ali ao lado um pequeno largo central daquela aldeia. Parei o jipe na entrada da escola. Com uma arquitectura de escola do período colonial, igual àquela em que o meu pai estudou, e a tantas outras espalhadas por Portugal e pelo antigo mapa colonial lusitano. Perguntei a um professor se conhecia alguém que nos pudesse arranjar a roda do jipe. Apanhados de surpresa, ele e a sua classe, ao que me pareceu, do ciclo primário, ficaram a matutar por instantes, para depressa o professor indicar o nome do Senhor Valter, a viver ali a poucos metros da escola. A aldeia era pequena, e por isso, lá chegámos depressa. No caminho as pessoas curiosas, acenavam, sorriam, aproximavam-se. Mas na correria para cumprir os prazos todos, e acima de tudo voltar com o jipe inteiro a Maputo, não houve o tempo para socializar. No pior dos casos, contudo, voltaríamos à boleia ou de "machimbombo", os autocarros locais. Por isso, haveria sempre solução, e uma estava para chegar.
Da casa que procurava brotaram logo à vista: uma grande antena metálica, com cerca de vinte metros de altura; um espaço aberto à entrada da casa com uma cobertura, e com utensílios de trabalhar madeira em cima da mesa, onde se viam móveis em construção. Ali havia espaço, algo que naquele país aliás havia com fartura, pleno de terra, área e vastidão. E as crianças brincavam cirandando entre umas mesas que estavam em torno da grande antena, provavelmente para sinais de baixa frequência, e o ateliê. Envolvendo este cantinho da aldeia, ondas sonoras brotavam de um rádio em cima das mesas cobertas, de onde se ouvia uma voz informativa da rádio, ainda que com o som familiar mas também incómodo, da desintonia analógica do antigamente que rarefaz a emissão devido à imensa distância que separava a recepção da estação de rádio. Enquanto me distraía com a magia da rádio, uma senhora, parecendo a mãe dos miúdos, aproximou-se de mim, e daí a aparecer o Valter, foram segundos, tendo ela ido chamá-lo. Com um fato de macaco azul náutico, um lápis encurtado pelo uso, pendurado no tubérculo da orelha, e uma carapinha africana já um pouco crescida, de quem é despreocupado com o cabelo, chegou o senhor. De semblante empático, tranquilo e disponível, ouviu a situação, e de poucas palavras, foi buscar numa casa de madeira ali anexa, os utensílios que considerou necessários. Ao abrir a porta desta barraca, caíram coisas cá para fora, em cima de nós. Só um, o Valter lá podia entrar, pois tamanha era a acumulação de todo o tipo de engenhos e materiais, não saberia ele para que momentos dariam jeito, mas que sendo tantos jorraram pela porta. Neste manancial de parafernália acumulada, ele saiu de lá com um martelo e uma bomba de ar, e com o adaptador certo. Pois, como para quem enche uma bicicleta, ter a peça adaptadora errada, deixar-nos-ia sem poder desfrutar daquelas rodas.
Os miúdos da escola já estavam todos cá fora em torno do jipe, e quando tirámos a roda do jipe, ainda mais miúdos se acercaram. Com o ângulo certo para usar a bomba de ar, o seu êmbolo deslizava lento e compassado, comprimindo o ar, preso naqueles cilindros. Para encher melhor, há que o fazer com calma. E assim foi, durante uns quinze minutos, em que voltámos a insuflar o pneu daquela roda. Aquele engenheiro ad-hoc da aldeia, salvou o momento, por ter aquela bomba algures perdida, saber usá-la como ninguém e por se ter disposto a fazer tudo isto pela genuína hospitalidade. A viagem podia seguir, com a roda martelada e enchida. Não deixando de pensar que nas aldeias, nas pequenas comunidades e grupos, há espaço para uma pessoa se realizar a si mesma e contribuir para o grupo social, como sendo o engenheiro, o reparador de problemas, que guarda utensílios, faz móveis, capta os sinais de rádio oriundos de centenas ou milhares de quilómetros de distância. Há necessidade deste conhecimento, há reconhecimento pelo seu trabalho e as mulheres da aldeia apreciavam estas valências, reparava. O meu pai também é assim, um engenheiro auto-didacta, sem qualquer diploma, mas uma vasta experiência em mecânica e electrónica, aprendida pela necessidade, em estaleiros da guerra colonial. E algo disso terá passado para mim. Mas naquele dia faltou-me equipamento. Felizmente havia um engenheiro da aldeia com uma bomba de ar por perto. Porque, na minha opinião sempre há espaço para um, até onde menos esperamos.
Os miúdos da escola já estavam todos cá fora em torno do jipe, e quando tirámos a roda do jipe, ainda mais miúdos se acercaram. Com o ângulo certo para usar a bomba de ar, o seu êmbolo deslizava lento e compassado, comprimindo o ar, preso naqueles cilindros. Para encher melhor, há que o fazer com calma. E assim foi, durante uns quinze minutos, em que voltámos a insuflar o pneu daquela roda. Aquele engenheiro ad-hoc da aldeia, salvou o momento, por ter aquela bomba algures perdida, saber usá-la como ninguém e por se ter disposto a fazer tudo isto pela genuína hospitalidade. A viagem podia seguir, com a roda martelada e enchida. Não deixando de pensar que nas aldeias, nas pequenas comunidades e grupos, há espaço para uma pessoa se realizar a si mesma e contribuir para o grupo social, como sendo o engenheiro, o reparador de problemas, que guarda utensílios, faz móveis, capta os sinais de rádio oriundos de centenas ou milhares de quilómetros de distância. Há necessidade deste conhecimento, há reconhecimento pelo seu trabalho e as mulheres da aldeia apreciavam estas valências, reparava. O meu pai também é assim, um engenheiro auto-didacta, sem qualquer diploma, mas uma vasta experiência em mecânica e electrónica, aprendida pela necessidade, em estaleiros da guerra colonial. E algo disso terá passado para mim. Mas naquele dia faltou-me equipamento. Felizmente havia um engenheiro da aldeia com uma bomba de ar por perto. Porque, na minha opinião sempre há espaço para um, até onde menos esperamos.
João Aguiar
domingo, 22 de outubro de 2017
Melilha, a última fronteira da Europa
Viajar até Melilha saindo da Europa é uma viagem de Espanha
a Espanha, no dizer promocional das agências de viagem. Uma travessia de barco
de cerca de cinco horas partindo de Almeria e cruzando o Mediterrâneo até à
costa de África. A cidade é um enclave em Marrocos e dista poucos quilómetros
da fronteira com a Argélia. Vista do mar aparece demarcada por dois enormes
molhes, que delimitam o seu porto e o de Beni Ansar na cidade vizinha de Nador,
descendo em anfiteatro do sopé de uma colina até terminar num promontório onde
assenta uma fortaleza imponente conhecida por cidadela ou «Mellila, La Vieja»,
o coração histórico da cidade.
Quem chega, saindo do porto e contornando a cidadela,
depara-se com a imponente Praça de Espanha que não deixa esquecer que a cidade,
não obstante ser autónoma, é um território do Estado Espanhol. Uma enorme
bandeira de Espanha drapeja sobre a vegetação pendente das colunas que rodeiam
a praça e o enorme repuxo de água que jorra na parte central. Daqui irradiam as
principais vias da cidade e por ela têm-se também acesso ao passeio marítimo
que conduz às praias e a um enorme parque com centenas de palmeiras. Um pouco
mais à frente fica a Praça dos Heróis de Espanha donde partem as ruas da
Democracia e do Rei Juan Carlos, ruas comerciais com muitas lojas, bares e
restaurantes. Nesta praça, compridos bancos de pedra que são ao mesmo tempo
floreiras, surpreendem pela sua policromia ao estilo arte nova ladeando uma
enorme estátua central. Nesta a figura de um legionário segurando um fuzil e um
leão e alçando uma bandeira é encimado pela águia do escudo de Franco. Este
monumento, de onde foram há anos retirados os símbolos mais evidentes do
fascismo, vai agora ser substituído de vez por decisão das autoridades da
cidade, depois de uma petição cidadã ter exigido a sua remoção. Uma decisão
mais que justa, uma vez que a cidade está tristemente associada a um dos mais
sangrentos conflitos da história de Espanha. Foi aqui que se iniciou o
levantamento militar fascista contra a república espanhola em 1936.
A cidade dispõe de uma bonita mesquita mas também de uma sinagoga e de um templo hindu além de várias igrejas cristãs. Aliás a cidade, tem a única igreja de estilo gótico de toda a África que se situa no interior da cidadela. A convivência entre diferentes culturas parece ser a bandeira de Melilha. A cultura «amazigh» ou berbere que domina na região vizinha de Nador marcou a cidade estando na origem do seu próprio nome. Quase metade dos melilhenses tem um dialecto berbere como língua materna e jornal «Melilla Hoy» tem feito referências a uma campanha contra a extradição de dois militantes da causa berbere, detidos em Madrid, para a vizinha Argélia. Um museu dedicado às culturas berbere e sefardita recorda as suas influências nesta cidade onde se cruzaram desde a antiguidade inúmeros povos e muitas religiões. Fenícios, cartagineses, romanos, vândalos, vikings, mouros, berberes e conquistadores espanhóis por aqui viveram e muitas vezes se combateram. Um dos principais acessos à cidadela faz-se precisamente por uma enorme praça denominada das Culturas que pretende homenagear essa mesma multiculturalidade. A fortificação é imponente e a sua parte mais antiga, que começou a ser construída no Século XV, está situada num rochedo onde existiu a antiga cidade fenícia de Rusadir. A cidadela foi aumentando sucessivamente ao longo de séculos sendo composta por quatro recintos rodeados por fossos e ligados entre si por pontes. No seu interior existem hoje um conjunto habitacional denominado «El Pueblo» e vários museus. Os limites da cidade com Marrocos foram traçados a tiro de canhão, precisamente a partir de dois dos fortes da cidadela, em finais do século XIX. Catorze disparos de um canhão com uma inclinação de 21 graus delimitaram os 12,5 quilómetros quadrados da cidade.
As fronteiras de Melilha continuam no entanto a assumir um carácter marcadamente violento e trágico, ainda que os velhos canhões se tenham calado para sempre. São a última fronteira terrestre da União Europeia com África. A cidade encontra-se totalmente cercada por um sistema de três gradeamentos metálicos justapostos com uma altura de seis metros encimados por arame farpado que foi recentemente reforçado com espigões metálicos altamente cortantes. O gradeamento do meio tem um desenho tridimensional de forma a dificultar a progressão no seu interior. Ao longo deste gradeamento triplo que se estende por quilómetros polícias, torres de vigia e aparelhos de vigilância modernos e ultra sofisticados asseguram que ninguém o poderá ultrapassar sem ser detectado. Muitos já morreram ao tentar atravessá-lo. O último muro da Europa depois de o de Berlim se ter desmoronado em 1989. Mesmo vista à distância a cerca provoca horror, repulsa e uma sensação de se estar dentro de uma enorme prisão. Não é possível apreciar a beleza do fim do dia, com o sol a declinar lentamente sobre a cidade, sem a lembrança que num monte à nossa frente permanecem centenas de homens, oriundos da África subsaariana, escondidos, desesperados, numa situação miserável e permanente acossados pelas polícias marroquinas e espanholas. Melilha transporta consigo o destino trágico de ser a última fronteira da Europa. Uma fronteira que ninguém parece querer ver.
António Pereira
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
Viagem à Festa Monumental
As
viagens, tal como as cidades, não necessitam de ser grandes para se
tornarem monumentais e memoráveis. Coimbra fica a apenas a duas
horas de Lisboa e a uma do Porto, sendo uma cidade de média
dimensão. O seu património histórico que vai desde a Universidade,
uma das mais antigas da Europa, até às igrejas românicas ou às
ruínas romanas de Conímbriga, confere-lhe só por si
uma monumentalidade indiscutível. Mas a verdadeira monumentalidade
da cidade é a humana, que nasce dos milhares de estudantes
universitários que ali vivem durante os seus anos de estudo.
Monumentais dizem ser, os anos que se passam em Coimbra, estudando.
Não é por acaso que nas Repúblicas,
as residências comunitárias dos estudantes, se contam os
aniversários como centenários. Ali, um ano de juventude parece
valer, de facto, por muitos mais.
Os
estudantes e as suas capas negras do traje académico marcam a
paisagem da cidade. A descida de centenas de vestes negras pela
Escadaria Monumental, que liga a Universidade ao coração da cidade
na Praça de República,
impressiona qualquer um. Nas imediações desta praça ficam também
várias repúblicas, fáceis de encontrar pelas tabuletas, que
apresentam nas fachadas. “Ay-ó-Linda”,
“Rápo-Táxo”, “Fantasmas”.
A vida estudantil marca indelevelmente a cidade e os seus ritmos
esvaziando-se aos fins-de-semana e nas férias escolares voltando a
encher-se em Setembro com o início
das aulas. O pulsar estudantil também se escreve nas paredes, onde
os graffitis
abundam. “Paredes brancas consciências sujas”,
alguém escreveu no pedestal de uma estátua em frente da Faculdade
de Letras. Os slogans
de pendor libertário e as pinturas contra a transformação da
Universidade em Fundação, que está a um passo de se concretizar
privatizando desta forma o ensino público, marcam presença na
cidade.
Um
dos pontos altos de Coimbra e do ano académico é sem dúvida a
semana da Queima das Fitas. Acontece no início de
Maio e antecede o período de estudo intenso que irá culminar nos
exames de Julho. Durante uma semana, o tempo é mesmo todo de festa e
folia. Começa a festa a uma quinta-feira com a chamada Serenata
Monumental. Nas escadarias da Sé Velha logo após as badaladas da
meia-noite na torre sineira, as guitarras iniciam os seus trinados a
que depois se irão juntar as vozes em coro. Ao redor, no largo e nas
ruelas estreitas que nele confluem, uma multidão de milhares de
pessoas escutam em silêncio o Fado de Coimbra que tradicionalmente
não é aplaudido. O silêncio da multidão impressiona pela sua
grandeza. São milhares de pessoas acotoveladas, de pé e
literalmente engarrafadas ao longo de muitas centenas de metros de
ruelas tortuosas, de becos, vielas e escadarias desta parte velha da
cidade. Uma experiência a evitar por agorafóbicos. Mal
o concerto acaba é-se arrastado pela multidão que
abandona o local. Quem tiver a sorte de ser levado pelas escadarias
acima irá desaguar no átrio da Universidade onde uma colossal festa
já se iniciou. Aqui o ritmo é marcado pelos DJs e o
ambiente é o de uma discoteca, mas gigantesca e a céu aberto, com
milhares de estudantes. Muitas barraquinhas de cerveja, bifanas e
cachorros, muita animação entre os edifícios das várias
faculdades. E lá pode
dançar-se até ao nascer do dia.
Os
dias que se seguem são invariavelmente de festa. Diariamente no
Queimódromo, é assim que se chama o espaço que fica junto à
margem esquerda do Mondego onde decorrem os concertos, grupos famosos
de músicos nacionais e internacionais desfilam todas as noites até
às tantas da madrugada. E não precisa de pagar bilhete para ouvir
os concertos. O volume do som atravessa o rio, sendo perfeitamente
audível no outro lado da cidade. Na pequena encosta que rodeia o
recinto, milhares de borlistas desfrutam do som sentados
na relva invariavelmente acompanhados de muitas latas de cerveja e
garrafões de vinho tinto. Mas
o auge da semana académica é no Domingo com o Cortejo da Queima das
Fitas. A cidade nesse dia enche-se de forasteiros. São as famílias
dos estudantes, as gentes das redondezas, antigos estudantes e
milhares de turistas que confluem na cidade. A festa começa cedo com
lançamento de foguetes, gaiteiros, tambores e filarmónicas que se
passeiam pela baixa da cidade. Na alta, em redor da Universidade,
vão-se a pouco e pouco juntando dezenas de carros alegóricos
decorados com as cores dos cursos. Os de Medicina de amarelo, Letras
de azul, Direito de vermelho, Farmácia de roxo, Psicologia de cor de
laranja e mais umas dezenas de combinações englobando todos os
cursos. Ao início da tarde, entre milhares de pessoas,
os carros carregados de estudantes e de centenas de litros de cerveja
iniciam uma descida que só irá terminar, horas depois, na Praça da
Portagem junto ao rio.
O
ambiente é de uma festa indescritível. Em cima dos carros, os
estudantes gritam, riem, bebem, borrifam com cerveja os colegas e as
gentes que ocupam as ruas. Distribuem, a quem lhes estica a mão,
latas de cerveja sem conta. A cerveja escorre nas gargantas, nos
fatos e nas ruas. As fitas agitam-se no ar entre cartolas e bengalas
dos que circulam a pé na frente dos respectivos carros. A saudação
académica é gritada vezes sem conta e um pouco por todo o lado. Os
antigos estudantes com as suas pastas e as velhas fitas misturam-se
também no cortejo. Aproveitaram este fim-de-semana para a sua
romagem anual a Coimbra e aos jantares de curso onde se revivem os
velhos tempos de estudantes. Uma mística de saudade que a passagem
por Coimbra lhes deixou. Sim, porque como lembrava o cartaz colocado
na entrada do Queimódromo: «Há momentos que só acontecem uma vez
na vida».
António
Pereira
sexta-feira, 14 de julho de 2017
Rosso
As buzinas e os
gritos pareciam ensurdecedores depois do silêncio apaziguador do deserto. O pó
das ruas arenosas da pequena cidade fronteiriça de Rosso enchia o ar devido à
agitação de gente, carros e motas. A azáfama ia e vinha do Senegal, ali do
outro lado do preguiçoso rio, que deu o nome ao país. Saíra de Nouakchott
naquela manhã, num carro ruidoso e acotovelado de famílias mauritanas, uma
travessia ao ritmo que o calor sahariano permitia e em que tudo o que se via
eram as cores quentes das dunas contra o azul forte do céu.
Uma multidão sufocante,
que só depois percebi serem barqueiros, assaltou-me assim que aterrei na rua
principal. Competiam por clientes que quisessem atravessar o rio Senegal, e eu
lutava para me desembaraçar. Um deles acabou por me levar à margem do rio, onde
a sua canoa repousava inquieta, metade balançando já na água. Alguns
passageiros de rosto quieto aninhavam-se de forma paciente junto dos seus sacos
e bagagens. Depois de trazer um e mais outro, o barqueiro decidiu que já éramos
suficientes para fazer a travessia, e remou contra a corrente para o outro lado
enquanto recolhia os pagamentos, um a um. Do lado Senegalês, desembarcava-se
numa serenidade refrescante. O “Rosso” da margem sul parecia muito menor do que
o seu gémeo a norte. O alívio que todos pareciam sentir dava a impressão de
sermos refugiados em barcas, fugidos do bulício. Perguntei onde poderia apanhar
um transporte para a capital, Dakar, e apontaram-me a direção da rodoviária, no
fim de uma estrada poeirenta e com pouco movimento, ladeada de algumas acácias
quase secas.
A pista de
terra vermelha levou-me em alguns minutos a uma zona aberta onde repousavam
velhas carrinhas Mercedes, expatriadas há muito tempo e meio decompostas pelas
agrestes e estrangeiras vias. Em torno da área central algumas barracas serviam
lentamente pratos de arroz com peixe, ovo mexido e café instantâneo a clientes
apressados. O ambiente não era de atropelo nem agitação, pelo menos não a
suficiente para me dar confiança de que haveriam transportes regulares na
direcção da capital. Segui os dedos que me apontaram o próximo transporte para
Dakar e um homem encostado a um velho autocarro confirmou-me ir para o destino
pretendido.
No interior,
duas mulheres sonolentas olhavam o infinito, indiferentes à vida, perto dos
seus sacos cheios de pertences coloridos, que mantinham desnecessariamente
perto de si. Os restantes lugares só eram ocupados por ar, moscas e pó. Perguntei
quanto tempo demoravam a partir para Dakar. – “Daqui a dez minutos saímos”. Tudo
o que queria era acreditar na resposta, pousar as bagagens e atirar o corpo
para um dos bancos. E assim fiz. Os dez minutos multiplicaram-se, perderam-se
nas contas, e a fome chegou. A pergunta renovada obteve semelhante resposta mas
desta vez sem a mesma crença, ao que decidi misturar-me com a animação das
barracas de comida, o foco da vida daquele lugar. De lá via o transporte, por isso não iriam
embora sem mim.
As horas
passavam e poucos novos passageiros tinham chegado, mas todos quantos chegavam
traziam sempre a resignação facial de quem não teme o tempo. A manhã
transformou-se em tarde, e depois em noite. Treze horas num exercício de
espera, desespero e conformidade, até que o condutor e assistente decidiram que
já haviam passageiros suficientes para partir. Acenderam-se luzes,
reanimaram-se as almas, e ajeitaram-se os corpos nos bancos duros. A noite
avançou pela estrada turbulenta, com um Senegal invisível aos meus olhos,
vestido de negro.
A
impossibilidade de dormir nos duros e apinhados assentos apenas deu vislumbres
de sonhos em que me pareceu várias vezes ter chegado ao destino. Mas as falsas
chegadas só culminaram com um amanhecer rápido, que desocultava aquele país e
me acolhia finalmente no destino. Os apitos, vozes altas e fumos não deixavam
dúvida, tínhamos chegado a Dakar.
Fernando Sousa
Fernando Sousa
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